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A história que chocou a Irlanda já tem veredicto

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Quando o juiz leu a sentença, sublinhou que o arguido é "um misógino repugnante". O caso envolve um homem que tinha aparentemente uma vida normal, mas que cometeu um crime que chocou o país - e que acaba de ser condenado a perpétua.

Luís M. Faria

Jornalista

Por fora, tudo na vida de Graham Dwyer parecia normal. Emprego, família, casa - esses sinais clássicos definiam-no como uma pessoa bem integrada, com um estilo de vida de classe média confortável. Mas por trás havia outra realidade. O arquiteto de 42 anos tinha um fascínio por sexo com violência, especificamente com facas. Uma mulher com quem antes vivera contou que a certa altura ele passou a ter ao lado da cama uma dessas armas, que segurava quando faziam sexo.

As fantasias, com o tempo, tornaram-se realidade. Um tribunal irlandês acaba de o considerar culpado de ter assassinado uma amante em 2012 - precisamente através da utilização de facas durante o ato sexual. O corpo de Elaine O'Hara, uma jovem com limitações intelectuais mas que apesar disso conseguira estudar e tornar-se "alguém", foi descoberto nas montanhas à volta de Dublin no ano seguinte. Encontrou-a, por acaso e por sorte (o crime de Dwyer seria depois descrito como "quase perfeito"), um homem que passeava o seu cão.

A polícia não identificou logo o criminoso, mas as provas foram-se acumulando: imagens de videovigilância onde aparecia Dwyer a entrar no prédio de O'Hara e depois a sair com um saco mais tarde retirado de um reservatório próximo de onde jaziam chaves, roupas e outros objetos da morta; milhares de sms e chamadas telefónicas, feitas a partir de telefones que Dwyer comprara sem usar o seu nome e onde apareciam definidos os papéis de dominador e dominada que ele e O'Hara tinham assumido.

Nalgumas dessas mensagens, ele falava em sangue. Foram igualmente encontrados vídeos nos quais Dwyer fazia sexo com mulheres que atava. Também aí havia facas. E ele chegara a discutir com a amante - a qual queria ter um filho com ele - um plano para assassinar uma outra mulher. Em troca da ajuda da amante, ele estaria disposto a terem um filho. "É uma escolha difícil. Ou deixas-me esfaquear-te ou ajudas-me a fazê-lo a outra pessoa", diz ele numa mensagem. O'Hara responde: "Sim, senhor, é uma escolha difícil. Uma que eu já fiz. Vou ajudar-te".

"Um misógino repugnante", diz o juiz

Como por vezes acontece em casos do tipo, havia outras coisas a correr mal na vida de Dwyer para lá da fachada. Problemas de trabalho, primeiro por ter sido despedido após destruir violentamente o computador de um colega na sequência de uma discussão, e depois devido à crise financeira, que levou a uma redução drástica do seu ordenado. Dwyer tinha certos gostos caros - Porsches, por exemplo - e a certa altura deve ter começado a faltar dinheiro para eles.

 

Se isso o tornou mais empenhado nos seus apetites violentos, não sabemos. Mas O'Hara era a vítima ideal: uma mulher que só queria ser amada e faria tudo por quem mostrasse amá-la. "A manipulação da sua vulnerabilidade era evidente. Quando ela tentou resistir, foi dominada", diria depois a sua família em tribunal. O pai da vítima lembrou que existem outras possíveis vítimas - jovens que apareceram mortas em circunstâncias semelhantes, sem ninguém ter sido preso - e falou nas "questões sem resposta que vamos ter de carregar até ao fim das nossas vidas".

Elaine O'Hara trabalhava com crianças e chegou a obter um mestrado em Educação, mas não foi à cerimónia receber o diploma. Dwyer, a quem o juiz chamou um misógino repugnante, vai passar o resto da sua vida na cadeia. Para trás deixa ainda a sua esposa e dois filhos pequenos.