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A aldeia que votou contra os barbudos

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Anabela e Lucília Teixeira lembram-se bem dos dias agitados de abril de 1975

25 de abril. Em Vale de Coelha ninguém ficou em casa nas eleições de 75. Subsiste a dúvida: por entusiasmo ou medo?

Hugo Franco (texto) Tiago Miranda (fotos)

As lendas em Vale de Coelha estão muito próximas da verdade. Algumas vêm até inscritas nos livros. A da tempestade de 6 de julho de 1876 é uma das mais populares: o pároco e o regedor desta freguesia de Almeida foram fulminados por um raio à porta da igreja, "ficando instantaneamente mortos". Outras contam-se pela boca de quem as viveu. Noventa e nove anos depois daquele relâmpago fatal, a aldeia foi abalada pelo "sarrabulho" dos novos tempos da democracia. As primeiras eleições livres estavam à porta e na freguesia nortenha, colada a Espanha, poucos sabiam exatamente o que isso significava. "Passaram por cá uns barbudos a fazer campanha e a dizer ao povo que as nossas terras iriam ser divididas por todos. Isso assustou toda a gente", conta Francisco Ramos, um agricultor de 73 anos que em 1975 liderava os destinos da junta de freguesia.

Uma vizinha, Lucinda Teixeira, dividia-se entre o receio e o entusiasmo pelos "novos ventos" que vinham de Lisboa. "Ninguém sabia bem o que aí vinha", conta a reformada de 77 anos. Talvez por utilizar a enxada todos os dias para trabalhar a terra, acabou por engraçar com o símbolo da foice e do martelo. Até ao dia em que alguém a avisou: "Mas esses são os comunistas, vêm buscar as nossas terras, mulher."

Na manhã de 25 de abril de 1975 deu-se um fenómeno em Vale de Ovelha, hoje considerado raro: não houve abstenção. Logo depois da missa dominical, os 51 eleitores da aldeia dirigiram-se para a Casa do Povo e votaram em poucos minutos para a Assembleia Constituinte. Foi tudo tão rápido que as urnas encerraram antes das nove da manhã. Os resultados de Vale de Coelha foram os primeiros a ser conhecidos em todo o país, fenómeno que se repetiu em algumas das eleições seguintes, já que durante muitos anos foi a freguesia com menos eleitores inscritos. O PS saiu vencedor, repetindo o resultado nacional, que deu a vitória aos socialistas.

Sem rede de telemóvel Há duas versões, quase distintas, para explicar a rapidez dos votos e o nível zero de abstenção na aldeia nortenha, situada a 200 metros de Espanha. O ex-autarca Francisco Ramos garante que foi mais "o medo de as pessoas poderem vir a ficar sem os seus terrenos" do que "a excitação de serem as primeiras eleições a sério", que motivou à mobilização de todos. Menos ?taxativo, Joaquim Dourado, de 68 anos, que também viria a ser eleito mais tarde para a presidência da freguesia, lembra que havia de facto "alguma desconfiança", mas garante que as pessoas estavam "fartas da pobreza" que vinha do Estado Novo.

As ovelhas passeiam livremente pelas ruas da aldeia de Almeida.

As ovelhas passeiam livremente pelas ruas da aldeia de Almeida.

Quarenta anos depois são mais as diferenças do que as semelhanças naquela aldeia de ruas quase sem gente, ocupadas por rebanhos de ovelhas e manadas de vacas. Antes de 1975 não existiam estradas asfaltadas, água nem eletricidade. Os mais velhos atravessavam a fronteira para ir comprar pão e azeite, que eram "melhores e mais baratos", mas muitas vezes a comida era confiscada pela Guarda Fiscal. "Diziam-nos que era contrabando e ficávamos sem nada. Eu fartava-me de chorar pois não tínhamos dinheiro para comprar nada", recorda Lucília Teixeira. Para conseguir iludir os guardas, ela fazia buracos no pão. "Assim não parecia acabado de comprar." E quando trazia umas "alpargatas" de Espanha, sujava-as de propósito com a lama da ribeira. Houve quem ficasse sem rebuçados, como aconteceu com Francisco Ramos, que ainda hoje nutre uma "certa raiva" pelas autoridades. "Toda a gente da aldeia fazia contrabando. Até o pároco", conta.

Joaquim Dourado é dono de um dos maiores rebanhos da terra

Joaquim Dourado é dono de um dos maiores rebanhos da terra

Apesar dos progressos, Vale de Coelha não tem sequer um café nem rede de telemóvel e muitos habitantes emigraram. "Há quatro ou cinco crianças", resume Joaquim Dourado. A agricultura continua a ser o sustento destas famílias. Os receios dos quentes anos 70 é que nunca se concretizaram: não houve nacionalizações nem revoluções feitas por barbudos.

Presidente da União de Freguesias de Malpartida e Vale de Coelha (Almeida)

O que se recorda das eleições para a Assembleia Constituinte de 25 de abril de 1975? Na altura só tinha 11 anos mas lembro-me bem do entusiasmo com que as pessoas se foram recensear. Acho que no fundo ninguém tinha muito bem a ideia do que significava ir votar numas eleições livres. Muitos foram porque era uma coisa nova mas acho que alguns até estavam com medo e desconfiados do que lhes poderia acontecer depois dos resultados dessas eleições.

Quarenta anos depois das primeiras eleições livres em Portugal, acha que as pessoas da terra continuam entusiasmadas por irem votar? Não. Nem nada que se pareça. Perderam o entusiasmo por completo. Deixaram de acreditar no sistema. Falta-lhes motivação e perspetivas para as suas vidas. A maior parte está no desemprego ou imigrou. Nos últimos anos, as pessoas da freguesia de Malpartida e Vale de Coelha têm sido obrigadas a fugir para os grandes centros urbanos, pois não há nada que as prenda por cá.

O que considera que tenha melhorado e piorado nos últimos 40 anos nesta região? O grande aspeto positivo do 25 de Abril foi o de permitir a liberdade de expressão. Por aqui, as pessoas nem liberdade tinham de atravessar a fronteira para Espanha. O que piorou? Não existe a criação de emprego. Não há fábricas para as pessoas poderem ter um trabalho. No fundo, há falta de tudo nesta região, que continua esquecida. Costumo dizer que estamos a transformarmo-nos aos poucos num deserto.

49% Resultado do Partido Socialista em Vale de Coelha, a 25 de abril ?de 1975 (foram 25 os votos). A nível nacional, os socialistas obtiveram 37,8%, vencendo as primeiras eleições livres em Portugal

63% Nível da abstenção nas últimas eleições legislativas de 2011 na pequena freguesia de Almeida. Só 23 pessoas votaram, num universo de 63 eleitores. Em 1975, toda a gente exerceu ?o seu direito de voto. Havia então 51 pessoas com cartão de eleitor

52% Percentagem do PSD nas mais recentes legislativas em Vale de Coelha. O PS ficou em segundo e o CDS em terceiro lugar