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Será possível dar acesso à internet aos 7,6 mil milhões de humanos?

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Talvez, mas o Facebook cancelou projeto de frota de drones para levar a rede até ao fim do mundo

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Há milhares de satélites de comunicações à volta da Terra, mas a democratização do acesso à internet está longe de ser uma realidade para os 7,6 mil milhões de habitantes do planeta. Na verdade, a taxa de penetração da rede atinge “apenas” 55% da população mundial, ou seja, 4,2 mil milhões de pessoas, apesar de ter crescido mais de 1000% desde o ano 2000. E há diferenças acentuadas entre continentes: na Europa a taxa de penetração é de 85%, mas em África é só de 35%.

Não admira, por isso, que os grandes operadores das redes sociais tenham abordado esta carência com propostas inovadoras que pudessem acelerar a democratização do acesso, mesmo nas regiões mais remotas do mundo, de modo a aumentar o número de utilizadores e abrir novas oportunidades de negócio. Assim, o Facebook lançou em 2014 o seu Projeto Aquila, uma espécie de satélite atmosférico, ou melhor, um drone gigante em forma de avião com uma envergadura de asas superior à de um Boeing 747.

O aparelho, alimentado a energia solar, esmagou-se no solo no primeiro teste, mas fez depois voos experimentais bem sucedidos, alimentando os sonhos dos mais otimistas. Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, chegou mesmo a escrever na rede social em julho de 2017, depois de um voo perfeito, que “quando o Aquila estiver pronto teremos uma frota de aviões solares para permitir a ligação à internet em todo o mundo”. Ao mesmo tempo, em 2014 a Google lançou o Projeto Titan, um drone para levar a internet às regiões rurais remotas e complementar o seu Projeto Loon, que tinha os mesmos objetivos mas usando grandes balões de altitude cheios com ar quente.

Só que os dois projetos acabaram por ser cancelados. O Titan em janeiro de 2017 e o Aquila há poucos dias, devido a problemas técnicos, ao elevado investimento exigido e porque a indústria entretanto mudou desde que as redes sociais resolveram aventurar-se no espaço aéreo. Como explicou no seu blogue o diretor de engenharia do Facebook, Yael Maguire, “as empresas da indústria aeroespacial começaram a investir também nesta tecnologia, incluindo na conceção e construção de novos aviões para voarem a altitudes elevadas”.

Perante estes desenvolvimentos, o Facebook decidiu não construir mais um avião próprio, mas antes “trabalhar com parceiros como a Airbus na tecnologia HAPS [High-Altitude Platform Station] e noutras tecnologias necessárias para estes sistemas funcionarem, como computadores de controlo de voo a baterias solares de alta densidade”. HAPS é uma estação de comunicações colocada num aparelho a uma altitude de 20 a 50 quilómetros, localizado num ponto fixo em relação à Terra.

África: uma experiência 
de sucesso na banca móvel

Os bons exemplos nem sempre vêm dos países mais ricos e com melhor tecnologia. As ideias simples e baratas também podem triunfar no mercado. A democratização do acesso a todos os serviços bancários através de telemóvel em África é uma surpreendente história de sucesso, porque foi estimulada pela falta de cobertura bancária na generalidade dos países deste continente. E é uma lição de inteligência para os grandes operadores mundiais.

Ken Banks, especialista de tecnologia móvel nos países em desenvolvimento citado pela BBC, considera que o Facebook e a Google “falharam claramente ao nível técnico”, mas adianta que “os gigantes tecnológicos não têm tanto impacto a curto prazo como as empresas locais que usam tecnologias mais básicas como o wi-fi”. E hoje há empresas e organizações africanas “que estão a desenvolver soluções para o problema da ligação à internet”. África é mesmo líder mundial na banca móvel: a consultora McKinsey calcula que tenha hoje 100 milhões de clientes de serviços financeiros móveis.