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Rui Barreira, diretor da WWF: “Os superincêndios não se apagam com hidroaviões”

Tiago Miranda

WWF quer que Portugal e Espanha articulem uma estratégia comum para enfrentar os grandes incêndios que consomem os dois países todos os anos. Num relatório apresentado esta quinta-feira, a organização não governamental descreve o noroeste da Península Ibérica como “um barril de pólvora”. O Expresso falou com Rui Barreira, diretor de Conservação da WWF Portugal que sublinha: ”Os grandes incêndios não se apagam com hidroaviões“

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Os incêndios de 2017 fizeram aumentar quase cinco vezes a área média queimada na última década e o número de grandes incêndios em Espanha triplicou. Portugal é o país europeu mais afetado por incêndios, tendo a maior taxa de ocorrências por área e, “apesar de ter uma área agroflorestal 80% menor, regista mais 35% de ocorrências do que em Espanha e mais 20% de área ardida. Estas são algumas das constatações assumidas no relatório da World Wildlife Fund (WWF) apresentado esta quinta-feira em Lisboa e em Madrid.

Na base do que a WWF chama de “barril de pólvora” comum ao Noroeste ibérico está o que denominam de “combinação letal de fatores”, que passam pelas características bioclimáticas, pelo despovoamento rural e abandono das terras, pela falta de gestão florestal, pelo planeamento urbano caótico e por uma cultura do fogo errada e enraizada dos dois lados da fronteira.

Em Portugal, 56% dos fogos devem-se ao uso negligente do fogo, e em Espanha 70% têm origem em fogo posto. Porém, no relatório também desmistificam as teorias de conspiração associadas a cartéis do fogo e outros mitos urbanos.

O Expresso falou com Rui Barreira, diretor de conservação da WWF Portugal, sobre o retrato expresso neste relatório relatório e as propostas da WWF.

A caracterização que fazem sobre a razão de ser dos fogos em Portugal e em Espanha não é nova. O que pretendem com este relatório?
Nesse particular, tem razão, o relatório não acrescenta muito em relação ao que já sabemos sobre o que está na base dos incêndios em Portugal. Mas daí a importância em ser um relatório ibérico que aponta para características e comportamentos semelhantes no noroeste da península e que por isso no levam a defender uma estratégia ibérica que não passa por Espanha dar uma mãozinha a Portugal ou Portugal dar uma mãozinha a Espanha quando necessário. E é sempre bom relembrar o que está por detrás dos incêndios. Os incêndios de 2017 têm de ser um ponto de viragem para os dois Governos e os 'superincêndios' não se apagam com mais hidroaviões.

É viável uma estratégia conjunta entre os dois países, como pede a WWF?
Não dizemos que o plano estratégico tenha de ser exatamente igual. Mas, tal como os planos de ação e de conservação para o lobo ou para o lince ibérico, os dois países podem seguir metodologias idênticas e princípios comuns e devem partilhar informação em tempo real, sobretudo nas zonas raianas.

No relatório falam da discrepância entre o investimento feito em combate e em prevenção, numa relação em que para a prevenção vai um terço ou menos das verbas e em que o custo de extinção de incêndios excede os mil milhões de euros por ano. Esta constatação também não é nova. O Governo português assegura que este desequilíbrio está a ser corrigido. É insuficiente o que está a ser feito?
Há muita coisa a ser feita, mas muito mais a fazer, sobretudo no planeamento conjunto à escala da paisagem, de modo a garantir a rentabilidade de todos os proprietários com um mosaico mais diversificado e resistente às chamas. Também é necessário conhecer e ordenar a floresta e incentivar a plantação de castanheiros, carvalhos e outras folhosas. Não podemos deixar que as medidas que estão a ser adotadas fiquem a meio caminho. Mas é certo que o que era possível fazer a curto prazo, desde os incêndios de 2017, está a ser feito e grosso modo tem sido positivo, com exceção de alguns excessos de zelo nas limpezas em redor de casas e aglomerados urbanos.

Neste relatório desmistificam algumas teorias sobre as causas de incêndios, entre as quais a da “culpa é do eucalipto”.
Em relação ao eucalipto, o que salientamos é que o problema não é o eucalipto em si, mas sim a má gestão dos eucaliptais ou as extensas monoculturas com as quais é preciso acabar. Claro que vai haver sempre eucalipto, é importante para a atividade económica, mas é preciso que as plantações sejam feitas à escala da paisagem em que se inserem e é fundamental renovar o meio rural despovoado. As monoculturas de eucalipto, tais como as de pinho, são um barril de pólvora sobretudo quando não são bem geridas e estão ao abandono. Por isso é preciso discutir onde se podem plantar eucaliptos e pinheiros e como devem ser geridos para não colocarem em risco ecossistemas ou populações.

E quanto ao alegado “terrorismo incendiário”? As teorias da conspiração confundem casos isolados de fogo posto com uma espécie de “piromania” relacionada com o uso abusivo do fogo pelas populações rurais?
O terrorismo incendiário vem sempre à baila, mas os casos de fogo posto por interesses económicos são pontuais. Achamos que estes mitos são uma tentativa de fuga à responsabilidade política perante um problema social e ambiental que precisa de outra atuação e mudanças profundas. O uso negligente do fogo é um problema, seja nas brasas que se acendem na floresta para grelhar umas sardinhas ou nas queimas de sobrantes agrícolas. As campanhas de prevenção são essenciais. As centrais de biomassa também vão permitir que os agricultores encaminhem esses restos de materiais das limpezas para a produção de energia.