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Guardiões da Serra da Estrela denunciam plantação de eucaliptal e abate de árvores

A plantação do eucaliptal está a ser feita num terreno privado, no sopé da montanha, onde até agora predominava o pinho bravo, afirma um responsável do grupo

Os Guardiões da Serra da Estrela denunciaram nesta quinta-feira que está a ser feita uma plantação de eucalipto às portas do Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE) e que se está a proceder ao abate de árvores na Mata Nacional da Covilhã.

"São duas situações distintas, mas ambas absolutamente incompreensíveis e que demonstram que as estratégias e políticas regionais continuam a não ter em consideração os princípios de recuperação e conservação de ecossistemas autóctones. Este é o principal problema, porque mudaram-se os hábitos, mas não se mudaram as estratégias e os princípios e, portanto, as asneiras continuam a ser feitas", afirmou, em declarações à agência Lusa, o porta-voz deste grupo de defesa Serra da Estrela, Manuel Franco.

A plantação do eucaliptal, acrescentou a mesma fonte, está a ser feita num terreno privado, na zona da Pedra Alta, mesmo no sopé da montanha, tratando-se de um terreno privado onde até aqui predominava o pinho bravo. De acordo com a informação afixada no local, a plantação estará licenciada desde 2016, todavia, para este responsável, "é preocupante" que se esteja a proceder à substituição de espécies, promovendo a monocultura intensiva num espaço que fica perto do limite do PNSE.

"O que nós questionamos não é a legalidade da intervenção, é a estratégia regional, quer do município, quer do ICNF, de continuar a permitir, e pior, a estimular, a existência de produção intensiva naquilo que são as faldas da Serra da Estrela, que funcionam como proteção e base da montanha", apontou.

Frisando que não está em causa um "preconceito 'per si' face ao eucalipto, mas sim face à gestão que segue uma lógica de exploração intensiva", Manuel Franco também não deixa de assinalar o facto de a reconversão, ainda que autorizada anteriormente, estar a ser feita numa altura em que a lei já não permite a plantação de eucaliptos em áreas onde eles não existiam, o que é o caso.

“Limpeza” na Mata Nacional da Covilhã

Outra das situações que ao Guardiões da Serra da Estrela estão a questionar prende-se com o abate de árvores que está a ser realizado na Mata Nacional da Covilhã, que é gerida pelo Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). De acordo com Manuel Franco, estão a ser cortadas várias árvores e plantas nas zonas perto do Bairro da Biquinha e do Estádio Santos Pinto, numa ação de "limpeza" que os populares não entendem e que têm vindo a criticar.

Críticas repetidas por Manuel Franco, que frisa que a ação não está a respeitar "a relação afetiva" que as pessoas têm com o espaço e que está a contribuir para pôr em causa todo o trabalho de proximidade que tinha vindo a ser promovido junto da comunidade. Por outro lado, os Guardiões da Serra da Estrela também apontam as razões técnicas pelas quais apontam o dedo à intervenção que, dizem, revela várias incoerências e parece obedecer a "critérios economicistas". "Está a ser feito um corte a eito, que deixa o solo desprotegido e que aumenta os riscos", apontou.

Manuel Franco acrescenta que dentro do Plano de Gestão Florestal da Mata Nacional está efetivamente prevista uma ação de corte de madeira naquele lote, mas salienta a "incoerência" existente, quer nos argumentos usados, quer na seleção das árvores.

"Argumentam que tem se se fazer uma faixa de gestão de combustível, mas depois abatem-se 'pseudotsugas' e deixam-se ficar as mimosas que estão ao lado. Ora, isso não é abrir uma faixa de gestão de combustível, é mostrar que o que se pretende é o dinheiro da madeira", frisou.

Para que casos como estes não se repitam, os Guardiões da Serra da Estrela reivindicam a revisão do Plano Regional de Ordenamento Florestal e do Plano de Gestão Florestal da Mata Nacional da Covilhã, de modo a introduzir conceitos de preservação e conservação dos ecossistemas das encostas da Serra, não para que seja proibida a utilização dos terrenos ou a sua rentabilidade, mas sim para que isso não seja feito através da monocultura intensiva, bem como para que não se permita o "corte cego" de espécies.

Manuel Franco refere esta sugestão faz parte de um conjunto de perguntas e sugestões que os Guardiões da Serra da Estrela endereçaram às entidades competentes, nomeadamente à Câmara da Covilhã e ao ICNF e para o qual aguardam uma resposta.