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A bola de futebol que esperou 30 anos para (finalmente) entrar em órbita

Ellison Onizuka, primeiro à esquerda na fotografia, tinha 39 anos quando aceitou viajar no Challenger

Bettmann

Em 1986, o mundo assistiu em direto à tragédia do vaivém espacial Challenger, que explodiu 73 segundos depois de descolar. Lá dentro estavam pessoas que as famílias ainda choram. E, também, uma bola de futebol que só três décadas depois cumpriu o destino que lhe tinha sido dado

Ana França

Ana França

Jornalista

As filhas de Onizuka gostavam de bola. De bola como quem diz futebol, futebol daquele que se joga - e se ama - deste lado do Atlântico. Estudavam numa escola, das poucas em todo o mundo, onde metade dos miúdos tinham pais que trabalhavam na NASA.

O quartel-general dos astronautas, o Johnson Space Center em Houston, é mesmo ali ao lado. As filhas de Ellison Onizuka passavam a semana à espera dos treinos de “soccer” e o que não faltava em casa eram bolas, esfaceladas pelos pontapés das duas. Por isso, quando souberam que o pai ia voltar ao espaço, o amuleto que lhe escolheram oferecer foi uma dessas bolas, assinada por todos os membros da equipa da escola de Clear Lake: “Good Luck Shuttle Crew”, lia-se a azul em um dos hexágonos.

Quando as duas filhas de Onizuka acordaram, dia 28 de janeiro de 1986, no dia em que o seu pai ia ser expelido da Terra, com força suficiente para rasgar a atmosfera e chegar ao sítio onde os humanos levitam, estavam sete graus negativos, bem abaixo da média de 10 para essa altura do ano. O frio desse dia haveria de ter, sem que elas soubessem ainda, uma influência determinante na vida do seu pai.

Uns dias antes de se sentar no lugar número três do Challenger, e muitos dias antes disso, Onizuka, que era mantido em quarentena com os seus colegas astronautas para evitar que contraíssem alguma doença antes da viagem ao espaço, saiu do Space Centre e foi ver as filhas jogar. À ESPN, a mulher de Ellison, Lorna, explica essas aparições: "Era suposto ele estar em quarentena, mas escapava-se para ver um pedacinho do jogo. Nenhuma de nós sabia, só quando o víamos lá na esquina da rede que limitava o campo é que sabíamos que lá estava. Depois voltávamos a olhar e ele tinha desaparecido”.

No dia em que os alunos de Lake Clear iam oferecer-lhe a bola, aconteceu o mesmo. Era suposto ela ser levada até ao centro espacial, mas Ellison Onizuka apareceu no treino noturno das filhas. Os membros da equipa reuniram-se, ofereceram-lhe a bola e ele desapareceu, num jogging lento, escuridão adentro.

“Vou-me sempre lembrar dessa noite. Ainda sinto o cheiro da relva esmagada depois do treino. É literalmente a minha última e mais querida memória do meu pai”, escreveu mais tarde uma das suas filhas, Janelle Onizuka.

Na manhã do dia D, as famílias dos astronautas que se preparavam para rumar ao espaço foram levadas para o telhado da torre de controlo do Centro Espacial. Era o décimo lançamento do Challenger, coisa rotineira por aquela altura mas, pela primeira vez, havia um “civil” dentro da nave: uma professora de New Hampshire, Christa McAuliffe e então a presença de jornalistas era bastante maior do que o normal.

Salas de aula por todo o país, milhões de casas e de famílias, cafés e restaurantes estavam a ver em direto o lançamento. Ellison estava no interior da nave espacial, com uma foto da família, amuletos vários e a bola de futebol guardada dentro do seu cacifo. Às 11h39, 73 segundos depois de ter descolado da Terra, a Challenger desfez-se no céu devido a uma falha técnica provocada pelo frio. Toda a gente viu a tragédia em direto, as famílias viram ao vivo. Lorna desmaiou quando recebeu a notícia e, ao escorregar pela parede da sala de controlo, desligou as luzes.

Para a perda não há remédio, mas as autoridades norte-americanas não pouparam esforços na recuperação de destroços que pudessem ajudar a explicar o que realmente tinha acontecido. Toda a confiança dos norte-americanos na exploração espacial foi colocada em causa. A nave foi praticamente pulverizada depois da explosão, mas a bola de Clear Lake foi encontrada - intacta. Foi devolvida à família, Janelle chorou horas antes de decidir entregá-la ao liceu onde, afinal, tanta gente com ligação à NASA estudava e continuaria a estudar. Foi por detrás de um vidro que permaneceu durante os anos que se seguiriam.

Em 2016, a diretora da escola recebeu um e-mail. Um dos pais tinha visto a bola soterrada entre troféus e oferecia-se para construir uma vitrine própria para ela. Karen Engle não queria acreditar que aquele artefacto histórico estivesse nas prateleiras da sua escola. Ela lembrava-se da explosão. Tornara-se daqueles momentos “onde estavas quando…”. Uns dias depois, durante um jogo de basquetebol, o coronel Shane Kimbrough, a dias de viajar até à estação espacial internacional, perguntou à diretora: “Há alguma coisa que queira que eu leve aqui da escola?”. Era dia 28 de janeiro, exatamente 30 anos depois da tragédia do Challenger.

A bola das filhas de Ellison Onizuka acabou por permanecer 173 dias no espaço. As palavras do pai, o primeiro americano-asiático no espaço quando, dia 24 de janeiro de 1985 foi e voltou a bordo do Discovery, encontraram o caminho para as páginas de todos os passaportes norte-americanos: “Cada geração tem a obrigação de libertar as mente do Homem e procurar outros mundos, olhar na direção de planícies distantes. A vossa visão não é limitada por aquilo que imaginam mas sim pelas coisas que conseguem imaginar. Se aceitamos estas conquistas como o normal, imaginem então os horizontes que ainda estão por explorar. Façam a vossa vida valer a pena e o mundo será um lugar melhor porque tentaram”.