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Tailândia. Como resgatar os jovens da gruta? E quais os traumas que terão de enfrentar?

ROYAL THAI ARMY HANDOUT/ EPA

Ekkapol, Duangphet, Somphong, Mongkol, Chanin, Phornchid, Prachuck, Peerapat, Ekkarat, Panumart, Pipat, Nattawoot, Adul estão presos numa gruta. Foram encontrados depois de terem estado desaparecidos durante nove dias, mas ainda não sabem quando ou como de lá vão sair. Têm entre 11 e 16 anos. Quando saírem, o que lhes vai acontecer?

A festa fez-se quando a notícia chegou: as 12 crianças e o treinador que estavam desaparecidos há mais de uma semana nas grutas de Tham Luang, no norte da Tailândia, foram encontradas e estão bem. Mas a alegria foi suspensa quando se percebeu que há ainda muito para fazer. A primeira parte está feita, encontrá-los. Falta tirá-los e trazê-los de volta à luz do dia. E há muitas formas de o fazer. As hipóteses que têm sido colocadas pelas autoridades tailandesas implicam o mergulho ou esperar cerca de quatro meses até que a época das chuvas passe.

A hipótese do mergulho, implica treinar as crianças. Mergulhar numa gruta não é o mesmo que mergulhar no mar. Se optarem por extrai-los da gruta por via da água tudo terá de ser muito ponderado, porque é preciso estar preparado para o pânico de mergulhar e não ter pontos de referência. Não vão ter visibilidade, não estar a respirar de uma forma que não é natural e a passar por zonas mais estreitas”, explica ao Expresso Cristina Lopes, presidente da Sociedade Portuguesa de Espeleologia.

“Se tiverem de ficar à espera pelo fim da chuva, há várias equipas no mundo muito bem preparadas para os manter lá dentro em boas condições. Pode parecer estranho para as famílias manter as crianças lá dentro, mas talvez essa possa ser a solução.” É possível levantar um acampamento junto à gruta e criar condições para que fiquem acomodados no interior, mandar comida e prestar cuidados de saúde. “Há casos de resgates em que as pessoas não estavam bem de saúde e foram médicos tratá-las, aliás até se pode fazer pequenas cirurgias dentro das grutas.” Neste caso, podiam ainda ser enviadas várias pessoas por turnos para junto das crianças para as ajudar a manterem a calma.

ROYAL THAI ARMY HANDOUT/ EPA

A espeleóloga lembra que esta não é uma decisão para ser tomada à distância e que apenas as equipas no terreno saberão o que é o mais indicado a fazer. “Há resgates que demoram semanas até serem terminados.” Um dos mais mediáticos foi o dos 33 mineiros no Chile, que ficaram presos numa mina. Na altura, a gruta foi perfurada artificialmente e, como a passagem era estreita, foi montada uma cápsula que desceu até à galeria onde se encontravam os homens e que os transportou para a superfície, um a um.

A cápsula podia, eventualmente, ser uma solução. Podem perfurar mas, uma vez mais, é um processo que demora e as crianças teriam de ser resguardadas e alimentadas até esse processo estar terminado. Não podemos esquecer que estamos a falar de crianças e, provavelmente, não são tão resistentes como os mineiros, que também estão habituados a trabalhar no subsolo”, diz Cristina Lopes.

Neste momento, as autoridades tailandesas – que estão a ser apoiadas por especialistas norte-americanos, chineses, australianos e britânicos - continuam à procura de um poço que tenha ligação até à galeria onde a equipa e o treinador se encontram.“Se houver um acesso a partir de um poço é relativamente fácil fazer o salvamento comparativamente com a extração pela água. Tratando-se de uma entrada natural, à partida – a não ser que seja extramamente estreia – é fácil de fazer: as crianças são puxadas até à superfície e podem ser acompanhadas por alguém. Esta seria a melhor opção de todas.” Mas para isso é necessário que exista o que ainda não foi encontrado, isto é, um poço de acesso.

No sábado de 23 de junho, tal como já era habitual, a equipa de futebol dos Moo Pa treinou. Depois, jogadores e treinador foram dar um passeio nas grutas de Tham Luang e, apesar dos avisos para não entrarem no local em tempo de chuva, acabaram por fazê-lo. Quando começou a chover, a água entrou e as grutas foram ficando progressivamente inundadas. O caminho que tinham seguido ficou bloqueado, impedido a saída do grupo.

Não sabemos porque entraram, se foi para se abrigarem da chuva ou apenas por curiosidade. Também não sabemos se avançaram mais porque se aperceberam que o nível de água estava a subir e foram procurar uma zona mais alta para se protegerem”, diz Cristina Lopes.

Jaime Figueiredo

Nalgumas grutas, o nível de água pode subir muito rapidamente e esses esapços podem ficar inundados em algumas horas. Através das zonas porosas a água infiltra-se e inunda as galerias rapidamente. Ainda por cima, lá as chuvas são torrenciais. É muito comum, não é em todas as grutas, mas pode acontecer nalgumas grutas.” E as previsões meteorológicas apontam para que a chuva se mantenha nos próximos dias, o que é normal porque na Tailândia a época de chuvas começa em julho.

Francisco Rasteiro, presidente Núcleo de Espeleologia da Costa Azul (NECA), pega nos exemplos das grutas de Serra d’Aire e da Serra dos Candeeiros, no centro de Portugal, e explica que muitas vezes as aguas não chegam às galerias dos níveis superiores, mas como as passagens e as saídas são feitas por vezes pelos níveis inferiores, as inundações bloqueiam as saídas..

Em Portugal, existe uma equipa que pode prestar socorro no caso de um acidente em grupo. A formação foi organizada pela Federação Portuguesa de Espeleologia e a equipa está preparada para proceder a estes salvamentos. Há uns anos também houve alguma formação junto dos bombeiros”, diz o presidente do NECA.

Uns podem ficar extremamente afetados, outros podem não passar por nada”

O que pode acontecer depois, quando os jovens regressarem à superfície e à vida normal? Depende muito do acompanhamento que cada uma daquelas 12 crianças vai ter e de fatores como a capacidade de resistência, a estrutura e suporte familiar, a sua história e até a condição física.

É seguramente um acontecimento traumático e que em algumas destas crianças pode deixar marcas. Felizmente, não temos conhecimento de muitas situações como esta, mas creio que as consequências devem ser semelhantes à de situações de stress pós traumático. Esta é uma experiência que certamente ficará gravada na memória por muito tempo”, explica Augusto Carreira, diretor da Área de Psiquiatria da Infância e Adolescência do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa.

SOE ZEYA TUN/ Reuters

O sono pode ser afetado bem como a capacidade de concentração ou o desempenho académico. Além disso, é possível que se torne mais difícil ficar sozinho, “porque isso faz reviver o desamparo que sentiram”, tal como picos de ansiedade espoletados por situações que anteriormente não provocavam qualquer problema. “Depende de pessoa para pessoa. Da mesma forma que alguém fica extremamente afetado pela experiência, também é possível que não fiquem marcas nem se manifeste nenhum sinal”, sublinha o pedopsiquiatra.

Augusto Carreira vinca a importância do acompanhamento após o salvamento que pode ser apenas psicológico como também farmacológico, psicoterapêutico, académico e social. Para o médico, a melhor solução é aquela que em segurança traga as crianças o mais rapidamente para a superfície.

A primeira coisa que me ocorreu foi que a hipótese de serem extraídos através do mergulho depende de estarem totalmente garantidas as condições de segurança. Ou seja, mesmo sendo um processo muito complexo e difícil, se a segurança for garantida, o melhor é retirar as crianças da gruta o quanto antes. Porque à medida que o tempo for passando, irá aumentando a angústia e o stress que estão a viver”, diz Augusto Carreira.

Por enquanto, ainda não se conhece a decisão tomada pelas autoridades tailandesas. Sabe-se que estão a alimentar e a prestar os primeiros socorros às crianças e ao treinador. Foi levada uma linha telefónica para que os rapazes possam falar com as famílias que os continuam a esperar junto à entrada das grutas de Tham Luang.