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Robert Sherman, ex-embaixador dos EUA em Lisboa: “Sou muito português e digo-o com orgulho”

Entrevista a Robert Sherman, ex-embaixador dos EUA em Portugal e membro do Conselho Geral e de Supervisão do Novo Banco

Do nono andar de um hotel de Lisboa, com vista desimpedida para o Tejo, Robert Sherman, embaixador norte-americano em Portugal entre 2014 e 2017, pergunta: “De que é que acham que gosto mais nesta paisagem?” Resposta: “As gruas”. Sherman fala do legado de Obama, das relações transatlânticas e diz que Portugal “já acredita em si próprio”.

É sabido que gosta muito de Portugal e decidiu regressar para integrar o Conselho Geral e de Supervisão do Novo Banco. Os portugueses associam a banca a alguns dos tempos mais negros da crise económica. O seu papel também será mudar essa perceção?
Sim, tenho essa preocupação. Desde que cá cheguei como embaixador sinto que quero fazer a diferença no país, quero trazer mais oportunidades às pessoas. É a minha missão no Conselho. Primeiro temos de tornar o banco uma instituição saudável — um projeto que demorará anos e que as pessoas precisam de entender — e, depois, virá-lo de novo para a sua vocação ancestral, que foi sempre a de ajudar pequenas e médias empresas.

Durante os mandatos de Obama os Estados Unidos projetavam a ideia de um país mais recetivo. Trump foca-se mais na política interna. Como é que isso pode afetar as relações transatlânticas?
A globalização é um movimento imparável. Está cá para ficar. A realidade é que toda a gente faz negócios com toda a gente, independentemente da geografia. Obama estava muito convencido de que a interação com o mundo teria de ser feita através dos nossos aliados, porque é demasiado difícil para os Estados Unidos serem os polícias do mundo. As nossas alianças continuam importantes e sê-lo-ão sempre, não é possível viver sem elas.

Mas há a questão das guerras comerciais encetadas por Trump, que podem criar fissuras graves no comércio mundial.
Não vou falar sobre essas guerras nem sobre Trump, por respeito ao embaixador atual, que o representa, mas repito que não será possível retroceder ou abalar o processo de globalização. Não vejo sinal de que as empresas americanas estejam a desinvestir na Europa, e muito menos em Portugal, onde estão cada vez mais presentes. Um exemplo é o porto de Sines: 30% de todo o gás natural liquefeito que chega à Europa chega por Sines e isso foi acordado quando eu era embaixador. Espero que se possa alargar a outros portos.

Ano e meio depois de Obama ter saído da Casa Branca, e dada a rota oposta da nova Administração, que legado será possível salvar?
Para avaliarmos o seu legado teremos de esperar décadas. A visão de Obama é abrangente e os seus planos de longo prazo. Não privilegiou mudanças bruscas e imediatas. Há lombas e buracos na estrada, mas veremos que o que fez acabará por levar a uma sociedade mais justa, próspera e equitativa. Pode levar mais uma ou duas ou quatro administrações, mas chegaremos lá. As coisas avançam, retrocedem e depois avançam mais do que retrocederam. “Uma nação, sob Deus, indivisível e com liberdade e justiça para todos”. Isto está incrustado nos americanos, eles não deixaram de acreditar nisso.

Não tem a sensação de que esses valores antigos, a tolerância com que cresceu naquele bairro de imigrantes em Boston, estão a sofrer uma erosão?
Este foco no nacionalismo que existe na Europa (vimo-lo mais recentemente nas eleições em Itália) representa um tempo problemático. O mundo está perigoso: escalada do Daesh, crise dos refugiados... as pessoas sentem que o que conhecem está sob ameaça. No caso do ‘Brexit’, por exemplo, se tivesse sido apenas sobre imigração, o voto pela saída teria sido bem maior. Temos de pensar se é um momento na História ou uma nova realidade. Eu acho que é um momento na História.

No seu discurso de despedida disse que tinha chegado a um país que não acreditava em si próprio. Agora já acredita?
Muito mais. Os portugueses mudaram muito. De novo, acho que a geração mais nova está à frente disso. Posso dar um exemplo: na embaixada criámos o programa “Liga-te ao Sucesso”, para ajudar mulheres a desenvolver projetos de negócio. Disseram-nos que em Portugal as mulheres não iam aderir. Há mil mulheres de todo o país a participar regularmente nos nossos seminários e workshops. As pessoas são incrivelmente competentes e capazes de competir no mercado internacional. Não é o tamanho do país, é o tamanho da ideia que importa.

Ficou célebre pelos seus vídeos entusiastas de apoio à seleção portuguesa em 2016. Como está a viver este Mundial?
Ainda há pouco fiz outro vídeo no Jamor, com a minha camisola da seleção, o meu cachecol e a minha bola. Olho para a campanha da seleção de forma mais otimista do que vocês. A Espanha era uma das favoritas e nós jogámos com eles e obrigámo-los ao empate.

Usa muito o “nós” quando fala de Portugal?
Em minha casa, nos Estados Unidos, o meu cachecol da seleção portuguesa está por baixo da televisão e a bola oficial está na prateleira ao lado. Sou muito português e digo isso com muito orgulho.