Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Cerveja. Onde é mais barata e quem a consome mais

Quando a temperatura sobe e as festas populares 
e os jogos de futebol se lhe juntam, copos e canecas de cerveja enchem mesas de bares por todo o país. O consumo em Portugal começou por abrandar, depois caiu e agora aumentou, ainda 
que continue abaixo do que era há 10 anos e esteja muito longe 
do que, com ou sem calor, se consome mais a Leste

Carlos Esteves

Carlos Esteves

infografia

Infografico

getty

Há imagens capazes de nos contar histórias, e aquela que André Galhardo colocou no Facebook em outubro do ano passado diz muito sobre o que se escreve a seguir. Está sol, André de óculos escuros olha com dúvida para um quadro negro que, em inglês, pergunta: “Quero uma cerveja?” Opção a): Sim; Opção b): a); Opção c): b). A resposta é óbvia: ou é cerveja ou não é nada. Na República Checa desde 2011, André é um professor de Educação Física que arranjou tempo para se dedicar, juntamente com a mulher, Patrícia Barbosa, ao projeto Escolinha Portuguesa, um centro que apoia dezenas de crianças lusodescendentes e de outros países de língua portuguesa em atividades extracurriculares em Praga. Pelo meio, houve sempre um combustível que não dispensou, feito essencialmente de lúpulo, malte (às vezes trigo, outras centeio, muitas cevada) e água, bastante água.

Chama-se cerveja e na República Checa é consumida ao ritmo de 143 litros por ano, por pessoa. Impressionante? Nem por isso, conta André, porque “a qualidade é boa”, o produto “não é caro” e há locais onde, mais do que acompanhamento, “a cerveja é o próprio jantar”. Por aqui, cada uma equivale a meio litro — as ‘minis’ são de 33 cl e, “dependendo do sítio, até olham de lado” para quem as pede —, por isso, depois do trabalho, não é difícil chegar aos dois litros num fim de tarde, princípio de noite. Ao fim de semana, especialmente no verão, é nos beer gardens — à letra, jardins de cerveja — que a maioria das famílias se reúne. No inverno, para combater as temperaturas exteriores, os cafés “ficam tão quentes que a pessoa até tem de beber mais, se não desidrata”, explica André.

Voltamos por isso à fotografia inicial, a que nos conta que aqui, independentemente das condições, a resposta está sempre na cerveja. A imagem foi captada numa visita de André e Patrícia à vizinha Eslovénia, um dos países que terá ido mais longe na ousadia, ao criar a primeira fonte pública de cerveja do mundo. Fica em Žalec, gerou discórdia quando foi aprovada, mas avançou mesmo, e desde setembro de 2016 ocupa um parque central da cidade. A Green Gold Fountain tem a forma de uma flor de lúpulo e homenageia a importância de Žalec na produção da planta. Apesar de pública, é preciso pagar 8 euros para que uma caneca especial seja reconhecida pelos sensores da fonte e se encha com as seis cervejas, todas diferentes, a que dá direito. Não admira, pois, que também a Eslovénia esteja no top 15 dos países onde o consumo per capita é mais alto, acima dos 80 litros anuais.

Os dados são da empresa japonesa Kirin, palavra que remete para o universo mitológico, onde representa uma figura entre o dragão e o unicórnio, mas que no japonês atual serve para dizer “girafa”, e que designa esta marca de cerveja que é também responsável por estudos globais sobre o consumo de bebida. Estávamos em 1975 quando a Kirin se estreou a fazê-lo e estávamos em 1992 quando a República Checa se colocou no primeiro lugar da lista, de onde não mais saiu. Os últimos dados disponíveis na Kirin são de 2016, mas os checos que nada temam — a avaliar por novo estudo, este de 2017, feito pelo portal Statista, no topo da tabela continua a ler-se pivo, que é como se chama na República Checa a bebida de que se fala.

Por cá, é a associação Cervejeiros de Portugal — ex-Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja — que colige os números, que parecem contar uma história familiar. Se em 2005 o consumo per capita no país era de 61 litros, a tendência nos anos seguintes foi de decréscimo, até a crise, sempre ela, consumar a queda entre 2012 e 2014, altura em que cada português bebeu uma média de 46 litros por ano, cerca de 3,8 litros por mês, conta que se atinge ao fim de 19 imperiais ou finos — ainda que não só o nome gere discórdia e também a quantidade possa variar entre os 20 cl e os 25 cl. Em 2016, o valor subiu ligeiramente, mas foi no ano passado que o salto foi maior, 8% de crescimento, ficando acima dos 50 litros por ano, por habitante. Diz a entidade que os números são prova da “vitalidade do sector”, expressa “quer no aumento do nível de confiança económica dos consumidores quer no incremento da atividade turística em Portugal”, a que se junta o interesse pela produção da bebida, que faz nascer “cada vez mais empresas cervejeiras e microcervejeiras”. De Portugal para o mundo saíram 200 milhões de litros em 2017, um valor que pesa nas exportações e equilibra a balança comercial.

O verão é a época do ano com maior influência nos resultados, já que “mais de 40% do volume de cerveja é consumido nos meses de junho a setembro”, como lembra Tiago Aranha, Client Development Manager da Nielsen, empresa que concluiu a importância dos eventos desportivos, como o Mundial de Futebol, este ano a decorrer na Rússia. Conceição Calhau, investigadora e especialista em Nutrição e Metabolismo do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (Cintesis), diz que o consumo médio em Portugal parece razoável, mas é preciso perceber de que forma se atinge: “É completamente diferente o impacto na saúde se as bebo todas [19 cervejas ao mês] ao sábado ou se as distribuo pela semana”, explica. O estilo de vida do consumidor muda tudo: “Se as pessoas misturam outras bebidas alcoólicas, aí já não me parece bem.” Para a professora, falta evidência científica em relação a esta “bebida complexa”, com “constituintes que nutricionalmente podem até ser benéficos”, e à qual é preciso associar estudos de intervenção. É o que está a fazer atualmente o Cintesis, com um trabalho que coloca pessoas entre os 18 e os 65 anos a beber uma cerveja com diferentes níveis de teor alcoólico por dia, durante quatro semanas, e cujos resultados não são ainda conhecidos.

Há cinco meses, a vida de André e Patrícia mudou com o nascimento do primeiro filho, um evento ao qual não falta cerveja. Manda a tradição checa que os pais bebam à saúde do bebé, e “quanto mais se beber, mais saúde o filho terá”, lembra André. Por impossibilidades óbvias da mãe, coube ao pai a tarefa de cumprir o ritual, ainda que Patrícia não tenha pena de não se ter juntado, já que nem a vida em Praga a convenceu a gostar da bebida. André, fluente em checo, aculturado em vários sentidos, não estava disposto a abusar, “porque queria chegar cedo ao hospital”. Porém, não faltou à chamada: antes do nascimento, “juntei um grupo de amigos e ainda bebi uns canecos”.