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Nas Aldeias do Xisto preparam-se turistas e comunidades para o fogo

O projeto “Aldeias Seguras” também abrange as comunidades estrangeiras que vivem em Portugal e os turistas que visitam estes espaços. Foi a pensar neles que a Estrutura de Missão para a Gestão Integrada de Fogos Rurais organizou mais um seminário com peritos nacionais e estrangeiros, desta vez em duas das Aldeias do Xisto, na Lousã.

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

As aldeias do Talasnal e de Cerdeira, na Serra da Lousã, foram esta quinta e sexta-feiras palco de seminários práticos com o objetivo de sensibilizar as populações locais para o uso indevido do fogo e a forma de se prepararem para futuros incêndios.

“Quem vive nestas comunidades tem de saber proteger a sua comunidade, já que é preciso o esforço de todos, num problema que é de todos”, sublinha em declarações ao Expresso Tiago Oliveira, chefe da Estrutura de Missão para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, que organizou o seminário "Construção de Aldeias Resilientes - Firewise". Virado para as comunidades nacionais e estrangeiras que vivem nestas aldeias, também muito visitadas por turistas, o seminário teve por objetivo capacitar os residentes e aqueles que gerem os empreendimentos turísticos locais, divulgando a informação em inglês.

O workshop de dois dias contou com a participação de uma equipa de peritos sul-africanos da empresa “Landworks” e outra nacional coordenada por Domingos Xavier Viegas, do Centro de Estudos Florestais. Segundo este especialista, “tudo o que se faça para trabalhar a segurança das aldeias é fundamental”, mas sublinhou que “cada caso é um caso”, mesmo no universo das Aldeias do Xisto.

“Estas aldeias são únicas pela forma como estão construídas e como se inserem na paisagem”, reforça Val Charlton, a perita sul-africana que dirige a LandWorks e cujo trabalho consiste em adotar a metodologia norte-americana “FireWise” a diferentes contextos de risco de incêndio pelo mundo fora, entre os quais Portugal, já que integra a bolsa de peritos criada pela Estrutura de Missão.

No caso das aldeias que visitou em Portugal, Val Charlton sublinha o trabalho feito na limpeza em redor dos aglomerados e na resiliência das construções em pedra, mas também ressalva que “muitas das construções estão em mau estado, é necessário ter cuidado com os materiais aplicados nos telhados e, caso a caso, preparar a comunidade para uma situação de incêndio, já que as estradas que entram e saem destas aldeias são muitas vezes estreitas e cheias de vegetação”. Como tal, só avaliando cada situação concreta é que as comunidades poderão decidir se, em caso de incêndio, “evacuam as aldeias antecipadamente ou se nelas encontram locais para se abrigar”.

Para a especialista “cada um tem que começar por tratar da sua própria casa, porque quando se decide viver numa zona de risco cada cidadão tem de ser responsável pela sua própria segurança”.

A Landworks tem trabalhado com comunidades rurais na África do Sul, no Chile ou na Indonésia segundo o princípio de que “uma comunidade bem informada é a chave para a gestão da sua própria casa, e da paisagem que enfrenta o risco de incêndios que a rodeia”.

Em Portugal, o programa “Aldeia Segura, Pessoas Seguras” abrange cerca de mil aldeias, mas a campanha ainda está no início. “Há muito ainda a fazer, mas mais vale tarde do que nunca”, afirma Xavier Viegas.

No caso das 27 Aldeias do Xisto, onde vivem cerca de 2600 pessoas, muitas delas estrangeiras, e que anualmente recebem cerca de 300 mil turistas, a preocupação passa também por chegar a um público visitante, normalmente alheio aos riscos do fogo. Por isso, o seminário contou também com a participação da secretária de Estado do Turismo e de representantes da ADXTUR- Agência para o Desenvolvimento Turístico das Aldeias do Xisto e da Câmara da Lousã.

“Este seminário revelou um programa de capacitação muito prático para a população que vive um mundo rural que enfrenta o risco de incêndios e revela ser muito útil para quem vive e quem gere os empreendimentos turísticos nestas aldeias”, aplaude a secretária de Estado do Turismo. Ana Mendes Godinho também sublinha também que este tipo de iniciativas são “uma forma de dar um selo de segurança aos turistas nacionais e estrangeiros que visitam as Aldeias do Xisto”.

A mesma ideia é partilhada por Bruno Ramos, diretor de comunicação da Agência, que considera “útil este tipo de seminário” e relembra, no entanto, que cada “caso é um caso”, quando se fala nas Aldeias do Xisto. O empresário destaca também o facto de esta semana também ter sido assinado o contrato entre o Turismo de Portugal e a ADXTUR, para que cerca de um milhão de euros do programa de apoio à Valorização Turística do Interior cheguem ao território das Aldeias do Xisto afetadas pelos incêndios de 2017. A verba será aplicada, entre outras coisas, na plantação de árvores, na criação de zonas de proteção e de faixas de gestão de combustível e em equipamentos de proteção contra incêndios.