Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Porto. Mudança de nome da nova ponte para Manoel de Oliveira não comove autarcas

Em 2013, a campanha de Rui Moreira gerou um ganho de 95 mil euros. O CDS participou e a subvenção do Estado foi superior ao orçamentado

Rui Duarte Silva

Batizada de Ponte D. António Francisco dos Santos, a sétima ponte que atravessará o Douro entre Porto e Gaia é já um foco de desunião latente. Em causa está o nome escolhido por Rui Moreira e Eduardo Vítor Rodrigues, que defendem a homenagem ao falecido Bispo do Porto por ter sido um exemplo de união das duas cidades e Portugal não ser um país anti-clerical

Isabel Paulo

Isabel Paulo

Jornalista

O nome da ponte que nascerá daqui a quatro anos sobre o Douro está a gerar discórdia entre os residentes de Porto e Gaia, descontentes com mais uma homenagem a uma figura do clero num Estado laico e decidida de forma “um tanto despótica” pelos autarcas das duas cidades. A contestação pública surgiu pela mão de um movimento de cidadãos, na página da internet 'ponte.manoeldeoliveira.org', criada por Ricardo Pinho, 37 anos, atualmente a fazer um doutoramento em cinema (Escrita de Argumentos), na Universidade de Lisboa.

“A minha ligação ao cinema e a sugestão para que a nova ponte seja uma homenagem ao nosso cineasta de maior renome internacional é coincidência”, diz o mentor do movimento de cidadãos que, em três semanas, mobilizou centenas de subscritores. Embora desconheça o número exato de residentes que aderiram à proposta de mudança de nome da sétima ponte do Douro, projetada para 2022, Ricardo Pinho calcula que seja na casa das várias centenas, referindo ter conhecimento que “são muitos subscritores a endereçar e-mails diretamente para as autarquias, até agora sem resposta”.

O argumento do manifesto da discórdia gira em torno da laicidade do Estado: “Acreditamos que, em 2018, já não é admissível atribuir o nome de uma figura clerical e desconhecida dos portuenses e gaienses a uma obra tão grande como uma ponte. Somos a favor da homenagem às pessoas da nossa região, e não conhecemos ninguém que tenha criado uma maior ponte entre o Douro e o Mundo do que Manoel de Oliveira”, lê-se na página da internet, que conclui que a escolha do nome do cineasta, que morreu em 2015, aos 106 anos, “não só homenageia um cidadão notável local, como promove a região como fonte de arte, cultura e de indústrias criativas”.

Ricardo Pinho frisa ainda que seria uma feliz coincidência a sétima travessia do Douro ter a marca indelével da sétima arte.

Em defesa do novo nome já se manifestou a Associação República e Laicidade e Associação Ateísta Portuguesa (AAP), que apelam aos autarcas para reverem a decisão, sustentando que o Bispo do Porto, falecido em setembro último, “é quase um desconhecido para a maioria das pessoas”. Carlos Esperança, líder da AAP desde a sua criação há uma década, lembra que a obra de Manoel de Oliveira é uma referência para os cinéfilos de todo o Mundo, além de que alguns dos seus filmes estão umbilicalmente ligados ao Douro, como acontece em 'Douro, Faina Fluvial', Aniki-Bóbó' ou 'O Pintor e a Cidade'.

“A virtuosidade de Oliveira é incomparavelmente mais notável do que as virtudes, que ninguém nega, de um bispo obscuro para a maior parte das pessoas”, afirma Carlos Esperança, que lamenta que os autarcas não tenham promovido um concurso de ideias em vez de terem apresentado um nome fechado, “mais uma vez ligado à Igreja Católica e para uma obra financiada com dinheiros públicos”.

“Portugal não é um país anti-clerical”, adverte Eduardo Vítor Rodrigues

O presidente da Câmara de Gaia recorda que a escolha foi assumida em conjunto com Rui Moreira, significando “simbolicamente o lado ecuménico de D. António Francisco dos Santos, figura marcante da região e das nossas duas cidades“. Para o autarca socialista, o Bispo do Porto foi “uma ponte entre pessoas e não uma fratura”, sublinhando que Portugal é laico, mas “felizmente” não é um país anti-clerical.

À polémica, Eduardo Vítor Rodrigues responde com o facto de o país “não viver um clima de ódio à igreja nem de anti-clericalismo, como se mostra por outros nomes, nesta e noutra época: Hospital de São João, evocando um apóstolo, Hospital Padre Américo, evocando um sacerdote, ponte D. Maria, evocando a monarquia, aeroporto João Paulo II, em Ponta Delgada, ponte Luís I, estação Santa Apolónia ou aeroporto Francisco Sá Carneiro”.

O autarca de Gaia, avesso à troca de nome, admite que têm surgido várias propostas, entre as quais designações como o incontornável Cristiano Ronaldo, Manoel de Oliveira, Jorge Nuno Pinto da Costa, D. António Ferreira Gomes ou mesmo Amália Rodrigues. “Felizmente temos muita gente insigne, mas a opção foi tomada de forma consciente, o que não impede que cada um possa exprimir livremente a sua opinião”., diz.

No Porto, também Rui Moreira resiste à pressão da alteração do nome da ponte que vai custar aos dois municípios 12 milhões de euros, remetendo a justificação do nome da nova travessia para o dia em que foi anunciada, no passado dia 12 de abril, pelos dois autarcas: uma homenagem a D. António Francisco dos Santos, “a personalidade que melhor corporiza e simboliza as pontes entre os dois municípios - Porto e Gaia”.

Para o autarca independente, o facto de Portugal ser um estado laico, significa que nenhum cidadão deve ser descriminado positiva ou negativamente pela sua orientação religiosa. “Excluir um bispo por ser católico seria, isso sim, uma violação constitucional. Dom António Francisco dos Santos foi escolhido pela sua dimensão humana e capacidade de fazer pontes, conforme foi dito no anúncio, não pela sua orientação religiosa”, avança Rui Moreira.

O movimento de cidadãos e as associações apologistas da mudança adiantam ao Expresso que vão aguardar por uma resposta pública das duas autarquias. No caso de “se manter o silêncio absoluto”, Carlos Esperança equaciona enviar um manifesto à Presidência da República e à Assembleia da República.