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Esta é Nyah, que nasceu na bomba de gasolina porque não chegou a tempo ao hospital

Inês Duque

Nyah nasceu do lado do pendura no carro do pai, estacionado na bomba 15 de um posto de gasolina no meio da cidade de Lisboa. Nyah tinha 50 centímetros e pouco mais de três quilos. As parteiras foram duas funcionárias da estação de serviço

Tatiana Gaspar estava a atender clientes ao balcão quando pela porta entrou um homem em passo acelerado que lhe pediu para ligar ao INEM porque no carro trazia a mulher em trabalho de parto. Não houve tempo e Samira Semedo acabou por dar à luz ali mesmo: no lugar do pendura, na bomba 15 do posto de abastecimento da avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa. Duas semanas depois, Tatiana voltou a ver Nasser Camará a entrar pela mesma porta. Desta vez, menos acelerado e acompanhado de Samira e da filha Nyah.

Enquanto conta ao Expresso os acontecimentos inesperados daquele dia, o discurso de Tatiana, 23 anos, deixa de fazer sentido. As pausas começam a ser mais demoradas e perde-se no raciocínio. Tenta continuar a responder às perguntas, mas não consegue. “Ai, agora está ali a menina!” O olhar está fixo e emocionado.“Se quiser podemos parar e ir vê-la”, sugerimos. Tatiana diz que não, mas um não cheio de vontade de ser sim e de ir a correr agarrar Nyah. De agora em diante, não mais pára de sorrir. “Fiquei muito ligada à menina, nem sei explicar o que sinto”, justifica.

A 28 de maio, Patrícia Gaspar, 38 anos, estava com Tatiana. As duas funcionárias da bomba de gasolina da Galp ligaram para o INEM assim que Nasser lhes pediu. Ao aproximarem-se do carro perceberam que o parto estava bem mais avançado do que pensavam. A Samira estava despida da cintura para baixo, tapada com uma espécie de lençol, cheia de contrações. No rosto só lhe conseguia ver medo”, recorda Patrícia.

Patrícia, Nasser, Samira e Tatiana (da direita para a esquerda)

Patrícia, Nasser, Samira e Tatiana (da direita para a esquerda)

Inês Duque

Do INEM, receberam algumas instruções por telefone. Mas foram Patrícia, Tatiana e Nasser que fizeram Nyah nascer. “Num certo momento, percebemos que tínhamos de rebentar o saco amniótico, mas não sabíamos como. Pensamos em palitos, colheres de galão… Não fazia ideia do que fazer. Então, tocamos para perceber a textura e ao toque aquilo rebentou. Ficamos todos sujos, mas a cabeça da menina ficou logo de fora”, contam as funcionárias. Samira fez força duas vezes e a bebé nasceu. Eram 08h47. Tinha 50 centímetros e 3,310 quilos. Chorou logo. Todos choraram.

Nem as mãos lavamos, foi tudo muito rápido e feito com o desespero de ajudar. São momentos em que nos passa tudo pela cabeça, de bom e de mau. Se no hospital estão a ser seguidos ao minuto é por alguma razão, aqui não havia nada”, diz Patrícia. Novamente ao telefone com o INEM, Tatiana e Patrícia foram instruídas para limpar o nariz e a boca da bebé, pediram-lhes que a embrulhassem e que não mexessem no cordão umbilical. Depois, chegou a ambulância, que levou mãe e filha para a Maternidade Alfredo da Costa. Estava tudo bem.

O outro lado da história

O relógio marcava 4h00 da manhã, quando Samira Semedo, 30 anos, acordou pela primeira vez. Sentiu qualquer coisa, mas não doía. Estava quase nas 40 semanas de gestação e a filha podia nascer a qualquer momento. Não tinha contrações. Às 08h05 voltou a acordar: zero dores, zero contrações. Às 08h20, começou. “Disse logo ao meu marido que tínhamos de ir para o hospital.” Não se assustou, já tinha sido mãe antes e sabia que tudo aquilo que estava a acontecer era normal. Menos normal era o que viria a acontecer depois.

Com o marido Nasser, Samira entrou no carro. Saíram da Bela Vista, desceram a avenida Gago Coutinho em direção à Maternidade Alfredo da Costa. “Não dá, não dá. Não vale a pena. Estaciona aí na bomba de gasolina e pede ajuda”, gritou ela. E Nasser obedeceu. Entrou no posto e encontrou Patrícia e Tatiana.

Depois disto, Samira já não se lembra de muito mais. Tem apenas pequenos flashes do dia. “Vou morrer, vou morrer”, lembra-se de ter gritado. “Ela só me dizia que já sabia que a devia ter levado mais cedo para o hospital, e eu sempre a manter a calma. Depois, estava com medo de fazer força porque achava que ia deixar cair a menina”, conta Nasser. E quando Nyah nasceu, Nasser agarrou-a.

Inês Duque

A grande preocupação era o cordão umbilical, porque nas ecografias os médicos tinham visto que estava à volta do pescoço, tive medo que algo acontecesse”, diz Nasser. Mas nada aconteceu. Acabada de nascer, Nyah foi posta sobre o colo da mãe e esperou que o INEM chegasse. Seguiu-se a história pela qual todos passam: foi para o hospital, teve os cuidados médicos necessários, foi observada e dias depois teve alta com Samira.

Um dia depois de fazer duas semanas de vida, Nyah regressou à bomba onde nasceu – já lá tinha voltado para conhecer as suas parteiras improvisadas. Como nunca algo semelhante tinha acontecido num dos postos da Galp, a empresa decidiu premiar a família com a oferta de dois anos de eletricidade grátis e um cheque de mil euros em combustível. As funcionárias foram contempladas com €250 em combustível.

Esta terça-feira, durante a cerimónia de entrega, a bebé foi o centro das atenções e beneficiou de largas doses de mimos. Tatiana manteve-se atenta, preocupada para que nada faltasse à recém-nascida. Numas ocasiões corria para ir buscar uma manta, noutras perguntava se já estava na hora de mamar. “Fala com os jornalistas que eu fico com ela”, dizia Patrícia de braços esticados para pegar na menina ao colo. “Ela é afilhada mesmo que os pais não queiram”, exclamou em tom de brincadeira.

Hoje, Nyah está ao colo da mãe, sob o olhar atento do pai. Mais afastadas estão Tatiana e Patrícia que também não a perdem de vista. Nyah tem os olhos bem abertos, já mamou mas ninguém a consegue adormecer. De fitinha cor-de-rosa na cabeça fica ali ao colo descansa como se quisesse ouvir a história que está a ser contada. Uma história que, certamente, lhe será contada muitas vezes.