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#MeToo, a última luta de Anthony Bourdain

Getty Images

Nos últimos anos, Bourdain reconheceu os problemas da sua imagem de 'bad boy' e quis mudar. Começou por fazê-lo graças à namorada, Asia Argento, uma das mulheres que denunciaram Weinstein. Mas acabou por ser visto como um aliado do movimento #MeToo e um ativista que se colocava “incondicionalmente do lado das mulheres”

Teve uma vida cheia, foi cozinheiro e estrela de televisão, percorreu o mundo e ficou conhecido por isso mesmo. São muitas as facetas de Anthony Bourdain ainda por explorar, dias depois de ter sido noticiada a sua morte precoce, aos 61 anos, por suicídio. E, no entanto, nos últimos meses o chefe tinha voltado a marcar presença regular nas páginas de jornais e nas redes sociais graças a uma faceta até aí desconhecida: o ativismo como feminista e aliado do movimento #MeToo.

O 'despertar' de Bourdain para estes temas deu-se, como o próprio fez questão de dizer e repetir, quando o caso de Harvey Weinstein rebentou. Tudo porque o chefe tinha uma ligação particular ao assunto: a sua namorada, a atriz e realizadora Asia Argento, foi uma das mulheres que denunciaram o produtor de Hollywood por violação. No caso de Argento, terá acontecido nos anos 1990, tendo decidido denunciar Weinstein no final do ano passado, quando a "New Yorker" publicou a grande reportagem (vencedora de um Pulitzer) em que contava as histórias das mulheres que acusaram Weinstein.

Bourdain lamentava só ter prestado atenção e mostrado sensibilidade para o tema depois de ter conhecido o caso específico de Asia. E disse-o publicamente. No ano passado, depois de terem surgido as primeiras acusações de assédio contra chefes de cozinha (Mario Batali e Ken Friedman), admitia: "Nestas circunstâncias, temos de escolher um lado. Eu escolho sem hesitações, incondicionalmente, o das mulheres. Não por virtude, ou integridade, ou altos padrões morais — por muito que gostasse de dizer que sim — mas porque já tarde na minha vida conheci uma mulher extraordinária com uma história particularmente horrível para contar (...) Estou grato pela sua coragem, que me inspira. Isto não faz de mim mais iluminado que qualquer outro homem que tenha começado a ouvir e a prestar atenção, mas torna-me, espero, ligeiramente menos estúpido."

A reflexão sobre si próprio

Sobre Asia, Bourdain disse também que ficou impressionado pela forma "desencorajadora e nojenta" como foi tratada no seu país (Itália) pela imprensa depois de denunciar Weinstein e que percebia "porque não se denunciam estas coisas". Mas foi mais longe, e passou "muito tempo" a questionar-se sobre a razão que teria levado mulheres que também conhecia, inclusivamente do mundo da cozinha, a não confiarem em si para lhe contarem as suas histórias.

"Penso diariamente, com remorsos reais, em como o meu trabalho em 'Kitchen Confidential' [o livro de memórias sobre os bastidores da cozinha que acabaria por lhe abrir as portas para a televisão] celebrou ou prolongou uma cultura que permitia o tipo de comportamentos grotescos que estamos a ouvir", chegou a admitir.

Bourdain tinha noção da imagem que transmitia: agia como "um imbecil", mantendo a postura de chefe duro, que gritava com os empregados, o "casaco de cabedal" e o cigarro na mão, a imagem de 'bad boy'. Em entrevista à "Slate", no ano passado, explicava: "Eu alegremente fiz esse papel e alinhei nisso. Eu era um homem num mundo de homens que celebrava um sistema e estava muito orgulhoso de ter aguentado isso."

Nunca se sentira confortável no meio do que descrevia como uma cultura masculina tóxica, um "meio de broncos": "Nunca quis ser parte disso. Tive sempre vergonha quando estava com um grupo de homens e eles começavam a mandar piropos, eu estava sempre tão desconfortável." Apesar disso, dizia, tornou-se bandeira, "figura de proa de um sistema muito velho e opressivo". Por isso, "dificilmente poderia culpar alguém por não me ver como simpatizante [das mulheres com histórias de assédio]".

Apesar desse "falhanço pessoal", Bourdain acabou mesmo por ser visto como um aliado. No ano passado, depois de ter sido publicada a reportagem da "New Yorker", cozinhou um jantar — um "encontro das mentes", como lhe chamou — para Argento, Rose McGowan e Annabella Sciorra, outras duas mulheres que denunciaram Weinstein. Colocou o registo no Twitter, onde nos últimos dias muitos o recordaram como um ativista e aliado do #MeToo.

A última homenagem a Asia

No início deste mês, Bourdain viu a namorada subir ao palco no Festival de Cannes e recordar: "Em 1997, fui violada por Harvey Weinstein aqui em Cannes. Este festival era terreno de caça... (...) E mesmo esta noite, sentados entre nós, há quem ainda tenha de ser responsabilizado pela sua conduta contra mulheres, por comportamentos que não pertencem a esta indústria."

Sobre a coragem de Asia, falou assim, apenas cinco dias antes de morrer: "Eu sabia que seria uma bomba nuclear. Fiquei tão orgulhoso dela. Foi muito corajoso entrar na boca do lobo e dizer o que ela disse, como disse. Foi um momento incrivelmente poderoso. Sinto-me honrado por conhecer alguém que tem a força e coragem de fazer algo assim."