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Empresta-me um abraço

Ilustrações João Carlos Santos

Marcelo disse no final do ano passado que o país tem de resolver até 2023 o problema das pessoas que vivem sem abrigo - “é prioridade nacional”. Disse-o num dia em que passou a noite em Lisboa com os que têm pouco ou nada, que encontram na rua a casa que nunca poderá ser casa digna. Marcelo foi esta semana ao Porto repetir o que fez na capital e nós já o fizemos em Lisboa ao longo das últimas semanas. Há 3059 histórias de sem-abrigo em Portugal por contar: “A desgraça é sempre a mesma”, há de dizer-nos um dos 3059

M. ocupa um beco em Xabregas, Lisboa. “Estar vivo é um milagre, já chegou a vomitar sangue dias seguidos… não sabemos como aguenta”, descreve Paulo Morais, da Comunidade Vida e Paz. Imigrante de leste, alcoólico, M. já fez várias passagens por hospitais mas acaba por fugir e voltar à rua. Os voluntários que o conhecem nem queriam acreditar quando souberam a sua idade. “Diz ter 40, é impossível confirmar, mas parece ter pelo menos mais 20.”

M. está sentado numa pequena cadeira articulada ao pé do colchão onde dorme, no chão. O beco é escuro e não deixa perceber muito bem as suas feições. Os voluntários querem saber se já comeu alguma coisa, perguntam-lhe como se sente, mas só obtêm respostas vagas. “Tens de te tratar”, dizem-lhe. M. promete que vai voltar ao hospital, já está combinado, e que desta vez vai mesmo para um centro, onde poderá dormir numa cama. Mas não dá para confiar.

Noutro ponto da cidade e com a disciplina mecânica das coisas certas, há um grupo diferente que se junta, numa das esquinas junto à rotunda do Saldanha. É assim todos os dias. Chegam, fazem fila e depois esperam pacientemente a passagem dos voluntários da associação Casa, que lhes trarão comida. No Saldanha estão homens e mulheres de várias idades, desta vez pouco mais de duas dezenas, e nota-se que alguns já se conhecem, pela forma familiar como conversam, embora outros prefiram manter os olhos no chão, rodando nas mãos as asas dos sacos de plástico que trouxeram.

Nem todos estão em situação de sem-abrigo. Há uma mulher alentejana, de 63 anos, que vive numa casa em Monte Abraão. É a escassez de recursos que a obriga a procurar ajuda e a vinda ao Saldanha já se tornou um hábito, explica. Não chega a dizer o nome, mas é dos poucos presentes que aceita falar, talvez pela necessidade do desabafo. Não tem água ou luz em casa. Ambos os serviços foram cortados - “como é que eu, com uma reforma tão pequena, conseguia pagar?” - e o telemóvel também se foi. Nem tudo o que conta parece fazer muito sentido, mas a lógica é muitas vezes um enredo particular, que escapa a quem a ouve apenas em palavras soltas. Fala de um ex-marido francês, de um cunhado “com uma vida muito boa”, referências vagas que se atropelam no discurso, sem conduzir a qualquer conclusão.

Vive sozinha e queixa-se muito de uns vizinhos, que a “tratam mal”, que a provocam “com palavras feias”. Baixa o tom de voz, para as repetir, meio envergonhada, e afirma que foram eles que “fizeram uma puxada de luz, ou lá o que isso é”, aumentando a sua fatura. Mas a grande preocupação é o filho. “Tem 33 anos, chama-se Telmo e não sei nada dele. Pode escrever aí o nome? Não o vejo há oito meses, veja lá...”

Encostado a uma parede, Armando olha em volta, com pose descontraída. Não terá mais de 25 ou 26 anos e chegou a Lisboa vindo do Norte, do Porto. Dorme há já algum tempo num recanto abrigado, que antecede a entrada de uma das várias agências bancárias da zona e não perde o sorriso ao descrever a situação. O problema de que mais se queixa é o de um polícia lhe levar as mantas todos os dias. “Que diferença lhe faz? Até um colega já lhe disse para me deixar em paz, mas não serve de nada.”

E está na rua porquê? Encolhe os ombros, sem dar muitos pormenores. “A desgraça é sempre a mesma”, responde evasivo.

Há muitas razões para se perder o teto, mas, no caso de Armando, ter deixado a companheira foi, nas suas palavras, o que o deixou sem casa. Interrompe depois a conversa para perguntar a uma das voluntárias se lhe consegue arranjar roupa, “umas calças davam jeito”. Mas roupa de homem não é o mais fácil, explicam-lhe. Fica a promessa: “Vou ver o que temos”.

MAIS DE 3000 SEM-ABRIGO EM PORTUGAL

Pouco falta para as 21h. À mesma hora, em várias zonas da cidade, há outros grupos que se juntam e mais gente sem casa a quem será servida uma refeição. São roteiros meticulosamente cumpridos pelas várias associações que prestam apoio a quem vive na rua e, por norma, percursos que escapam à Lisboa turística e ensolarada das fotos nas redes sociais.

Em Portugal, de acordo com os dados avançados no início deste mês, existem 3059 sem-abrigo, um número que deverá crescer “em breve”, quando for apurado o total de pessoas que se encontram em “risco”, conforme disse o Presidente da República, no Porto, onde participou na quarta reunião no âmbito da ENIPSSA (Estratégia Nacional para a integração das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo).

Lançado há pouco menos de um ano, o novo programa de ação foi estabelecido para o período 2017-2023 e assenta em vários objetivos estratégicos, que visam a promoção do conhecimento do fenómeno, informação, sensibilização e educação, o reforço de uma intervenção promotora da integração desta população, bem como um trabalho de coordenação e monitorização.

Uma das medidas já anunciadas é a de que as secretarias de Estado da Segurança Social e da Habitação vão assinar um “protocolo” para integrar as pessoas sem casa, disponibilizando-lhes habitação. O problema não está confinado a Lisboa. Marcelo Rebelo de Sousa insistiu que fosse prioridade nacional.

Nas imediações da Praça Marquês de Pombal, vários outros homens aguardam a equipa do Casa. São presenças regulares por ali e o aspeto de alguns denuncia a sua condição. Falam por si as roupas puídas, os cabelos e barbas em desalinho, o torpor físico de quem já não anda mas se arrasta. Aproximam-se do carro assim que este estaciona e trocam palavras de circunstância com os elementos recém-chegados. “Então hoje o que trazem?”

Nas caixas guardadas na bagageira há pão e bolos, recolhidos nos estabelecimentos que colaboram com a associação, e ainda algumas embalagens com refeições (são cozinheiros voluntários que as preparam) que os homens se apressam a recolher, afastando-se uns passos e comendo de imediato. Há quem o faça com visível sofreguidão, voltando ao carro para pedir mais. Esquivam-se a conversar. Um deles aponta para alguém que está deitado uns metros adiante: “É melhor deixar alguma coisa de comer ao pé dele”.

Os voluntários conhecem a maioria pelo nome. Geralmente são bem recebidos, embora o ‘ofício’ também inclua ter de lidar com situações mais tensas, sobretudo se as pessoas estão alcoolizadas ou se são toxicodependentes, explicam. Procuram dar-lhes atenção, mas “nem sempre é possível conhecer as suas histórias, saber se são verdadeiras, ou entender o que dizem, porque acontece terem já um discurso pouco coerente”, explica Edgar Ventura, voluntário no Casa desde 2014. Mais tarde Edgar dirá também que este é um problema que lhe parece ser de muito difícil resolução, por envolver múltiplos aspetos.

Os efeitos de viver na rua degradam a capacidade de sociabilização, já se sabe, e “a liberdade a que se habituam”, mesmo que à força, torna complicada a adaptação a qualquer solução “que lhes dê acesso a uma cama mas que exija compromissos e disciplina de horários, por exemplo”.

ALEXANDRE, O JARDINEIRO

Alexandre Rodrigues acaba de fazer 59 anos. Vive na rua e não se importa de falar nisso, de dar o nome. Tem um ar cuidado, barba aparada, um blusão verde ‘kaki’ com aplicações nas mangas e uns olhos verdes muito brilhantes, que sobressaem no rosto algo envelhecido mas não demasiado. Nasceu em Alter do Chão, terra dos cavalos lusitanos, mas o Alentejo ficou lá para trás há muitos, muitos anos. Não tem família, foi um filho tardio de um segundo casamento do pai e fez-se à vida logo após cumprir o serviço militar, aos 18 anos.

Alexandre já fez de tudo e até 2004 ou 2005 não era homem de se queixar. Tem “apenas a quarta classe”, mas foi encontrando trabalho e o que ganhava dava para os gastos. “As coisas pioraram quando começaram a chegar muitas pessoas de leste, a trabalharem barato. Passou a ser mais difícil ser aceite até na construção civil.”

A sua principal ocupação, a que mais o entusiasma, é a manutenção de jardins. O seu orgulho é o jardim do restaurante “Pastorinha” - “aquele na praia… fui eu que o fiz há 16 anos” -, e que foi o seu ganha-pão mais regular durante muito tempo, até o espaço ser vendido.

O habitual era trabalhar entre maio e outubro, depois “mais nada”. No ano passado, o antigo patrão cedeu-lhe “uma casita velha que tinha para os lados da Castanheira”. Alexandre mudou-se e passou a tomar conta do lugar. Em troca tinha um teto, adaptou-se. Mas os incêndios passaram por lá. “Um inferno, tudo a arder, e olhe que já fui bombeiro, vi muita coisa.” As chamas passaram demasiado perto e acabou internado em Coimbra durante 29 dias, por causa da inalação dos fumos. “Estive muito mal”, recorda. Quando recuperou, não havia casa, não havia um rumo: “Voltei para Lisboa com a roupa do corpo e estou na rua desde então”.

Alexandre dorme desde outubro na zona de Alcântara, embora vá mudando de poiso com frequência. ”Não gosto de ficar muito tempo no mesmo sítio”, diz à laia de justificação, encolhendo os ombros à sua sorte: “Muita gente ficou pior que eu. Alguns perderam a vida nos fogos, outros perderam os familiares”.

O roteiro do Casa tem de prosseguir. Vai fazendo mais frio à medida que as horas avançam, mas a esta equipa ainda falta passar na Praça da Alegria para distribuir o resto dos mantimentos (entregam, em média, 400 refeições por noite). É lá que está B., um sérvio a quem é difícil adivinhar a idade, deitado no canto de uma montra, bem perto da entrada para o Parque Mayer. Queixa-se de lhe terem roubado tudo, um problema frequente entre os sem-abrigo, já que “basta voltar costas cinco minutos e quando voltas não tens nada”. Foi-se a roupa que lhe deram e precisa de mais cobertores, porque está mesmo muito frio. Mas a conversa é interrompida quando as perguntas se tornam pessoais. Não quer falar sobre a sua vida passada. “Não gosto de pessoas curiosas”, diz secamente, num português carregado de sotaque. Depois puxa o edredão velho, tapa a cabeça e diz “boa noite”.

LEVAR COMIDA E UM POUCO DE ATENÇÃO

A Comunidade Vida e Paz está também diariamente no terreno. Tem por missão “ir ao encontro e acolher pessoas em condição de sem-abrigo ou em situação de vulnerabilidade social, ajudando-os a recuperar a sua dignidade e a (re)construir o seu projeto de vida, através de uma ação integrada de prevenção, reabilitação e reinserção”. Tarefa difícil, portanto, assente em ações de proximidade que humanizem o gesto de ajudar, conforme descreve Ana Mota. Levam comida, sim, “mas sabemos da importância de ficar um bocadinho, conversar, dar um abraço ou ouvi-los com atenção”, explica a consultora imobiliária de profissão, há 10 anos ligada à Vida e Paz.

As voltas noturnas das equipas da Comunidade são geralmente longas, várias horas percorridas nas carrinhas da casa. Saem quatro todas as noites, de acordo com um trajeto pré-definido por zonas e batizado com letras. De vez em quando levam companhia: jornalistas que lhes pedem para acompanhar os percursos, políticos, ou, muito recentemente, o próprio Presidente da República, empenhado em dar visibilidade à causa.

As voltas da Comunidade Vida e Paz são convertidas em relatórios, onde ficam registadas as ocorrências e todas as situações a que é preciso dar atenção, como o caso de um dos homens habitualmente acompanhados e que nesta noite não encontram. Foi internado e terá fugido do hospital. Na zona que frequentava não o veem há dias, dizem no café a quem pergunta por ele. É preciso tomar nota, tentar perceber o que se passa.

A carrinha circula agora numa rua apertada, ali para os lados da Travessa do Adro, na zona dos Olivais. Abranda a marcha ao passar junto de uma casa velha, com restos de pintura branca, os vidros das janelas substituídos por plásticos e cobertos com mantas. Na parede está inscrita uma frase curiosa, “empresta-me um abraço”, que os voluntários há muito conhecem. Alcançam pelo postigo as sandes e um iogurte ao homem que espreita, meio estremunhado, e que pergunta também se trouxeram comida para os seus cães. Trouxeram.

A equipa já o conhecia da rua. Agora ocupou esta casa, que estava vazia, e recusa qualquer outra ajuda, apenas pede comida, conta Paulo, voluntário há mais de nove anos e esta noite o condutor da carrinha.

As paragens estão pré-definidas. Há que continuar.

UM CHEIRO INSUPORTÁVEL

Junto à Gare do Oriente, onde geralmente se junta um grupo de gente mais nova, está Manuela. Tem 74 anos e três filhas, “mas sabe o que é não ter ninguém?” “A D. Ana é a minha família. Foi Deus quem me fez conhecer esta santa”, diz, dando a Ana Mota mais um abraço, para depois lamentar o problema na anca - ‘herança’ dos maus-tratos recebidos do ex-companheiro, “o pior homem do mundo” - e os escassos quarenta e poucos euros que ganha de reforma. “Costumava ir vender na Feira da Ladra a roupa boa que apanhava dos contentores, mas agora não tenho ido, preciso mesmo de vir aqui buscar para comer.”

Já é tarde. Em muitos dos lugares por onde a carrinha passa há gente já a dormir, junto de quem é deixada a comida. Nas traseiras da estação do Rossio o cheiro a urina é insuportável. Cinco homens estão deitados, alguns tapados com mantas, embora um esteja despido, visivelmente alcoolizado. A equipa não se demora: “Isto aqui é mais pesado”, comenta um dos voluntários. Deixam sacos com comida também junto a dois sem-abrigo que dormem na entrada da Sé de Lisboa. Sabem que um deles costuma andar armado, pelo que todo o cuidado é pouco, para deixar as sandes sem o acordar, evitando assustá-lo.

No regresso à sede da Comunidade, com o Tejo à direita, ali bem perto ao longo do caminho, descobrem-se abrigos improvisados: montanhas de papelão, plástico, restos de cartão amontoados, que só ao segundo olhar deixam descortinar a função que cumprem. Há gente que dorme lá dentro, enquanto os carros circulam, quase a tocar as ‘paredes’ desta espécie de casulos. Passa da uma da madrugada. As desgraças serão de facto sempre as mesmas?