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“O dinheiro não chega e o desgraçado é sempre o motorista”

Nuno Botelho

Domingos Pereira Camionista e sócio da Associação Nacional das Transportadoras Portuguesas (ANTP)

Na estrada há mais de 30 anos, Domingos Pereira é camionista e dono da própria empresa transportadora — mas fala sobretudo como cidadão. A semana de negociações com o Governo, as paralisações e outras formas de pressão serviram para exigir “melhores condições de trabalho” mas não trouxeram soluções imediatas. A braços com o aumento constante do preço dos combustíveis, o sector está num impasse.

O que significa, exatamente, melhores condições de trabalho?
Significa, por exemplo, os camionistas não serem obrigados a descarregar nos centros logísticos, nomeadamente do grupo Sonae, e noutros pontos de descarga dos grandes supermercados.

Porque é que isso acontece?
Algumas empresas para poderem ganhar os serviços fazem com que sejam os motoristas a descarregar e não facultam ajudantes. Não digo que são todas, mas está a acontecer. O motorista faz o seu horário de trabalho e depois vai para dentro de um armazém agarrar e puxar paletes.

Significa que os motoristas também pararam por causa das empresas?
Os motoristas que decidiram parar não estão todos contra as empresas, mas alguns também estão. Temos aqui um problema no sector e, se ele não for regulado, não vai acabar.

E como se regula?
O Governo deveria criar uma portaria que protegesse o motorista neste sentido. Quando ele dissesse não, dentro da lógica, era não. Hoje essa prática é ilegal, mas se o motorista se for queixar, é um motorista contra uma empresa. Além disso, é preciso acabar com os contratos a termo. Não há possibilidade de defender a pessoa que trabalha. Portanto, isto tem que ver com os salários e com a profissão, que é de desgaste muito grande, a nível de saúde, de visão, do tempo que se está longe da família. Eu tenho um filho de 33 anos e em bebé e adolescente nunca convivi com ele.

E enquanto empresário, onde está a responsabilidade das transportadoras?
Aí é que está: é preciso criar mais condições às empresas para que elas próprias possam dar mais condições aos seus motoristas.

Que condições são essas?
É preciso indexar o preço do combustível na fatura [valor do frete]. Aumenta o combustível, aumenta a fatura, baixa o combustível, baixa a fatura. Não queremos ser injustos para ninguém.
Mas o preço dos combustíveis não afeta só os camionistas, afeta toda a gente.
Por isso é que o caderno de reivindicações tem vários pontos direcionados à população como um todo, como a redução do preço dos combustíveis, regulando e baixando o valor do ISP, que é para toda a gente. E o que é direcionado ao transporte é indexar o preço de referência do combustível à fatura. Nós estamos a faturar muito abaixo do preço que já está tabelado como referência do combustível.

Que reflexo é que isso tem?
O dinheiro não chega e, desculpe a expressão, o desgraçado é sempre o motorista. O ordenado não é justo, nem tem os aumentos que devia ter. Se as empresas tiverem mais poder económico vão ser obrigadas a aumentar os salários dos funcionários.

Então porque é que nem todos são a favor da paralisação?
Umas pessoas serem contra e outras a favor acontece em tudo na vida. Eu conversei com uma engenheira que me disse: “Era bem feito parar isto tudo.” E eu fiz-lhe uma pergunta: “É preferível entrarmos num confronto e se calhar até partirmos para a violência, sem explicar a ninguém e sem dizer sequer o que queremos, ou é preferível criar um caderno como um todo e que esteja de acordo com a exigência de todos?”
Mas até agora não tem havido violência.
Para mim é violento chegar aqui e ‘trancar’ uma estrada e estar aqui a estorvar todos os que não têm nada a ver com isto, que até tinham coisas para fazer e ficaram aqui parados na estrada. Isso para mim é violência, não?

Esta semana houve conversas com o Governo. Saiu satisfeito?
Não saí de lá com nada, não fico satisfeito. Acha que ter um memorando para estudar até ao fim do ano, para analisar e tentar aprovar leis e ajustar algumas, é sair dali com alguma coisa?

Será possível o Governo atender a todos os pedidos?
Eu não gosto de especular. O que não queremos é meter memorandos na gaveta. Porque aí, garanto-lhe, que isto para tudo e só arranca quando estiver tudo resolvido. E aí vai ser muito complicado para o país.

Quando diz resolver tudo é mesmo todas as exigências?
Uma negociação é tal e qual como uma dívida. Se não a conseguimos pagar toda de uma vez, vamos fazer aqui um plano com a parte lesada. Há vários acordos possíveis. Mas tudo o que eu dissesse a partir de agora seria mera especulação.