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Lince que desapareceu do Alentejo percorreu mil quilómetros e foi encontrado na região de Barcelona

Libertado no Vale do Guadiana em 2015, o macho Lítio foi agora encontrado a deambular na região de Barcelona. Percorreu cerca de mil quilómetros

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Alguns exemplares de lince-ibérico estão cada vez mais dispersantes. Já há meses desaparecido do ‘radar’ no Vale do Guadiana, porque o colar emissor deixou de ter bateria funcional, o macho Lítio foi agora detectado a passear num campo de cerejeiras na região de Barcelona. Nascido no centro de reprodução em cativeiro de Acebuche, em Espanha, e libertado nos montes alentejanos em 2015, terá percorrido perto de mil quilómetros até ao novo habitat. “É a primeira ocorrência de lince na Catalunha desde os princípios do século XX”, sublinha o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), em comunicado.

Lítio foi identificado e fotografado por técnicos do Servicio de Fauna y Flora do Governo catalão e do projecto LIFE+ Iberlince que promove a recuperação da distribuição histórica de lince ibérico em Portugal e Espanha.

O macho, agora com quatro anos de idade, já antes fizera outras incursões ao lado de lá da fronteira. Em 2016 tinha dado um passeio entre Mértola e Gibraelon, Huelva. Na altura, indica o ICNF, “apresentava sinais de debilidade e de doença” e foi levado para recuperação num centro para espécies ameaçadas em Huelva. Depois de recuperado, voltaram a tentar integrá-lo na população de linces do Vale do Guadiana.

Mas Lítio sempre teve alma de viajante e não ficou pelo Alentejo, tendo sido avistado na zona ocidental do Algarve. Nas deslocações nos dois países já terá percorrido mais de mil quilómetros. Agora, os técnicos vão tentar capturá-lo e tentar perceber por onde andou nos últimos dois anos.

“As grandes deslocações de alguns exemplares de lince, capazes de atravessar toda a Península Ibérica, podem ter uma função de conectividade muito importante para o futuro da espécie”, explica o ICNF em comunicado, salientando que “esta capacidade de movimentação permite que possa vir a existir um fluxo genético entre as populações a nível ibérico e a espécie possa funcionar como uma metapopulação”. Este é o objetivo do projeto Iberlince que desde 2013 vem promovendo a reintrodução da espécie em Portugal e em Espanha “com sucesso”. Cofinanciado pelo programa LIFE da Comissão Europeia, o projeto reúne 22 parceiros públicos e privados, portugueses e espanhóis.

Antes dele, já outros quatro linces percorreram milhares de quilómetros entre Portugal e Espanha, entre os quais Kentaro e Khan, dois irmãos nascidos no centro português de reprodução em cativeiro de Silves (CNRLI) e libertados do lado de lá da fronteira, que voltaram a território português. Mas nem todos tiveram finais felizes.