Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

João Lousada: “Nasci num mundo com astronautas na lua. Queria dar o próximo passo”

Ana Baião

O astronauta análogo português, que em fevereiro participou na expedição AMADEE-18, permanecendo isolado várias semanas no deserto de Omã, onde se simulou Marte, esteve em Lisboa para recordar a experiência. Explicou também como nasceu o gosto pelo espaço e a função que desempenha no Columbus Control Center, na Alemanha: “Estamos a aprender”

O caminho para Marte, no caso de João Lousada, passou pelo céu estrelado de Figueiró dos Vinhos. Era o tempo em que as férias na casa dos avós tornavam possíveis todos os sonhos, e nos pontos de luz onde adivinhava planetas, o miúdo vindo de Lisboa descobria o seu rumo.

Sonhava com o espaço, fronteira que nele se manteve como uma ideia fixa. “Nasci num mundo já com astronautas a andarem na lua. Para mim tratava-se de querer dar, ou ajudar a dar, o próximo passo”, diz mais de vinte anos depois, aos 29, o licenciado em Engenharia Aeroespacial e atual engenheiro de Operações de Voo no grupo internacional GMV, na Alemanha.

João Lousada não chegou a Marte. Ainda. Mas tem como missão ajudar a desbravar o caminho necessário para o Homem lá chegar e, como astronauta análogo (adiante se verá o que isso é) pisou o cenário que na Terra mais se aproxima ao planeta vermelho. Junto a outros cinco elementos, integrou a expedição AMADEE-18, que em fevereiro o levou ao deserto de Omã, perto da Arábia Saudita, onde esteve isolado durante três semanas, para realizar experiências várias, simulando as condições de Marte.

Um cenário de ficção científica

“Foi bastante realista”, disse ao Expresso esta semana, recordando a missão. João Lousada esteve em Lisboa para participar numa apresentação da GMV, o grupo de raíz tecnológica que em Portugal tem cerca de 100 profissionais e dois centros de referência, mas não falou apenas de Omã. Explicou também o seu dia-a-dia, no Columbus Control Center, na cidade alemã de Oberpfaffenhofen - “costumo dizer Munique, para facilitar, porque o nome não é fácil”, brincou.

Ana Baião

As fotografias que trouxe devolvem um cenário de ficção científica. No Centro europeu, que cumpre as mesmas funções que o seu congénere mais conhecido, o de Houston, nos EUA, João Lousada ocupa a posição ‘stratos’, que funciona em permanência.

“É uma posição fundamental para lidar com emergências”. Imaginamos que ele seja um dos primeiros a ouvir “Colombus we have a problem”, mas as urgências não têm de ser sempre sinal de missões falhadas, na essência a sua função é apoiar os astronautas nas experiências que conduzem, ajudando-os a desenvolverem os testes.

A experiência na AMADEE-18 também o ajudou a perceber melhor a importância deste apoio. A diferença é que, como astronauta análogo, João Lousada teve a chance de passar para o lado de lá.

Boas recordações

A posição teve de ser conquistada. Um astronauta análogo cumpre, fora do espaço, as mesmas funções que um astronauta ‘verdadeiro’. Tem por isso de reunir vários requisitos, que incluem a boa forma física, conhecimentos específicos, um perfil psicológico adequado, características que João Lousada provou, ao realizar “600 testes individuais” e acabar selecionado entre os cem candidatos que se habilitaram à posição. Ele foi mesmo o o vice-comandante da missão conduzida em Omã.

Sobre a experiência - uma das várias já realizadas, com vista a reunir a informação necessária para preparar uma ida real a Marte - falou ainda de forma mais eloquente a expressão de Lousada ao exibir as imagens que preparou. Um sorriso discreto, mas revelador, típico sinal de boas recordações.

“Estamos a aprender”, voltou a repetir, já depois da apresentação. “Marte é um planeta frio e não é respirável, mas sabemos que já foi diferente, com condições para ter vida. Perceber se já a teve ou se ainda a tem traz-nos muitos desafios, exige operações longas...”, explicou.

“Missões como esta, no fundo têm como objetivo falhar”, acrescentou também, “porque é preciso evoluir a partir do que correu mal e saber exatamente quais as falhas” que estão nos planos.

Ana Baião

Em Omã foram vários os contratempos, mesmo tendo planeadas dificuldades como o ‘delay’ de 10 minutos nas comunicações, mas o ambiente foi ótimo para testar várias tecnologias, desde drones a robôs. Houve também lugar a surpresas, pela positiva. “A impressora 3D revelou-se mais útil do que suponhamos, porque nos permitiu ultrapassar avarias e resolver vários problemas, e a vegetação que tínhamos de fazer crescer, para assegurar a própria alimentação, teve um comportamento que superou as expetativas e as experiências realizadas em laboratório”.

Vista de fora, a expedição tem qualquer coisa de lúdico, que se confunde com um grupo de pessoas a brincar aos astronautas, vestindo fatos prateados brilhantes (já agora, cada um pesa mais de 50 quilos, motivo porque João trouxe a Lisboa apenas uma luva), fingindo-se exploradores. Há tempo para viver um pouco dessa dimensão? “Durante a experiência nem tanto, porque temos muito para cumprir e os dias eram muito ocupados, sobrepunha-se a preocupação. Essa noção vem à posteriori, depois do dever cumprido. Até a noção de tempo era diferente. Parece mesmo que estivemos em Marte”.