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Concelhos em perigo pedem mais vigilância

Os 20 concelhos sinalizados como de maior risco têm todos planos municipais de defesa da floresta contra incêndios. Mas em Portugal, ainda há 40 municípios que não os têm, entre os quais Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Coimbra, Aveiro e Pombal

Prevenção. Nos municípios onde há mais probabilidade de haver um grande incêndio faz-se o trabalho de casa

De cada um dos cem mil pinheiros dos baldios das Terras de Aquilino brotam 40 cêntimos de resina por ano, riqueza que é reinvestida na floresta. Em Moimenta da Beira, os estradões que travam as chamas são em calçada de granito e as matas estão limpas. Há vida e rendimento em todo o perímetro. Nos últimos dois anos, o município investiu um milhão de euros em prevenção florestal, os bombeiros gastaram meio milhão em viaturas e há 78 voluntários e 19 profissionais nos bombeiros, a que se juntam duas equipas de sapadores florestais. Os investimentos começaram logo após os grandes fogos de 2013 e desde então as ignições são residuais, 57 incêndios por ano em média e área ardida inferior a 100 hectares. Mas conhecem-se os riscos e pede-se pré-posicionamento de meios e mais fiscalização.

Segundo a carta de risco elaborada por investigadores da Universidade de Lisboa — cruzando informação do Centro de Estudos Florestais (CEF/ISA), Centro de Estatística e Aplicações e do Instituto Dom Luiz — a Moimenta da Beira ocupa o décimo lugar entre os 20 concelhos do país (ver caixa) que enfrentam uma maior probabilidade de vir a sofrer um grande incêndio em 2018. José Eduardo Ferreira, o socialista que preside à Câmara, não esconde o espanto “tendo em conta que os dados do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas revelam uma menor perigosidade” e que “o estudo não teve em conta os investimentos feitos”. E apela: “Se é este o risco, queremos aqui o pré-posicionamento de meios”, criticando o facto de os helicópteros de combate a incêndios estarem a 15 quilómetros, em Armamar e Meda; e os aviões em Viseu, a 30.

No terreno, Eduardo Seixas, diretor do gabinete técnico florestal, aponta as conquistas. “Há charcas de água, a rede primária foi alargada, duas equipas de sapadores florestais garantem vigilância armada e tudo está limpo.” A limpeza dos terrenos custou caro. “Em cada hectare foram abatidas 80 árvores”, o que significa “rentabilidade tirada à floresta”, lamenta o autarca que está contra a transferência “de verbas da agricultura para a floresta”. José Eduardo Ferreira lembra que “a gestão florestal precisa dos mosaicos agrícolas para impedir a progressão dos fogos e se nós desviamos verbas da agricultura para a floresta estamos a permitir a desertificação”. O concelho vive da maçã (metade da que o país consome) e das vinhas. “O interior precisa das pessoas e isso só se faz com agricultura porque se não tivermos rendimento só aumentamos a desertificação. A floresta não é inimiga, nem do país nem da agricultura, e é preciso que se perceba que desviando dinheiro para a floresta podemos perder a lavoura”, reforça.

Atentos aos sinais de fumo

Gilberto Ramos, presidente dos Baldios das Terras de Aquilino concorda. “Os nossos 700 hectares de floresta rendem 40 mil euros por ano e empregam sazonalmente 50 pessoas.” Neste baldio, há uma carrinha com um tanque de água e um trator para combater as chamas. “Todos sabem onde estão as chaves e em caso de fogo o primeiro a chegar vai proteger a floresta.” O problema, retoma o autarca, “é a falta de vigilância”. José Requeijo, comandante dos bombeiros exemplifica: “Nos Borralhais, em Vila Nova de Paiva, tivemos 27 incêndios o ano passado. Ninguém patrulhou e no último incêndio arderam 500 hectares”, alerta. Havendo sensibilização e resposta inicial preparada, o problema é a vigilância. Gilberto Ramos já garantiu que uma das equipas de sapadores seja colocada no perímetro de Caria, atenta aos sinais de fumo.

“Mostrar os locais mais problemáticos de modo a que as autoridades no terreno definam onde colocar os meios, focar a vigilância ou apertar a dissuasão do uso impróprio do fogo” foi o objetivo deste estudo coordenado por José Cardoso Pereira, do Instituto Superior de Agronomia. O mapa, que identifica os 20 concelhos de maior risco, foi feito com base “num modelo estatístico que usa como variáveis o número médio de anos desde o último fogo, a área queimada em 2017, a média da área queimada anualmente nos últimos 40 anos e o índice de perigo meteorológico” à escala nacional, mas não tem em conta o que foi ou está a ser feito em termos de prevenção.

“Este mapa não pretende de forma nenhuma ser alarmista”, sublinha o investigador, reforçando a ideia de que os concelhos sinalizados como estando na classe mais elevada de risco representam “apenas 1,9% do país” em termos de área. Ou seja, na escala das probabilidades, se viessem a arder quase na totalidade, tal corresponderia a uma área total de 175 mil hectares, o que equivale a cerca de um terço da área devastada pelos fogos de 2017.

O mapa foi enviado para a Estrutura de Missão para a Gestão Integrada de Fogos Rurais e é considerado por Tiago Oliveira “uma informação técnica útil para apoio à decisão e que pode ajudar a definir prioridades”. Mas o Governo continua a ter os olhos postos no mapa de risco mais alargado, elaborado pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) no final de 2017, garante o secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas. O mapa de prioridades do ICNF abrange cerca de 180 concelhos e mais de mil freguesias em todo o país. Para a elaboração de faixas de interrupção de combustível (FIC) da rede primária foram identificados como prioritários metade destes concelhos (93). Até agora, foram executados 544 quilómetros de FIC (em 43 concelhos) de um total de 1343 quilómetros que deverão ser limpos até final de junho. “O que está a ser feito dá confiança para enfrentar o verão”, afirma Miguel Freitas.

Viver em cenário de risco

Confiantes também estão os autarcas de Monchique, no Algarve; e de Caminha, no Minho, que ocupam respetivamente o primeiro e o terceiro lugares na lista dos 20 concelhos sob alerta vermelho. “Temos consciência de que vivemos um cenário de alto risco e estamos preparados para isso”, assume o presidente da câmara algarvia, Rui André. Fortemente flagelado pelos grandes incêndios de 2003, que dizimaram 45 mil hectares, Monchique fez um protocolo com as associações de caçadores e com o Exército para reforçar a vigilância no terreno e a primeira intervenção. “Quando há uma ignição, fazemos logo uma triangulação e contamos com bombeiros de todo o Algarve, porque um grande incêndio aqui pode afetar toda a região como destino turístico”, sublinha o também vice-presidente da Comunidade Intermunicipal do Algarve. Para o combate, têm adquirido carros de bombeiros novos (sete em oito anos) e contratualizadas máquinas de rasto (têm 16), que considera “essenciais quando um incêndio não é controlado na primeira hora”. Na prevenção estrutural têm feito anualmente gestão de faixas de combustível e já têm aprovados 90 quilómetros dos 240 de FIC candidatadas. No concelho existem cerca de 13 mil edificações fora dos aglomerados urbanos, das quais 8820 na serra “com terrenos que se pegam a menos de 50 metros com o dos vizinhos”. Para ajudar quem não tem capacidade financeira para limpar em redor das casas, foi criado um programa denominado “casa sem fogo” e outro, “pioneiro na Europa”, para salvar animais de companhia em situação de incêndio.

O presidente da Câmara de Caminha não se surpreende com o terceiro lugar que o concelho ocupa no ranking de risco. “Sabíamos que estávamos na linha da frente no Alto Minho e temos vindo a fazer muito trabalho no terreno nos últimos dois anos”, garante Miguel Alves. Em conjunto com a Associação Florestal do Minho criaram uma equipa de sapadores municipais “que está a limpar tudo o que é faixas de combustível”. E com recurso a verbas do PDR contam com um investimento de 500 mil euros para limpeza de linhas primárias e secundárias e um plano de apoio para os proprietários que não têm capacidade financeira. “Tudo o que é da responsabilidade do município vai estar limpo até 31 de maio”, assegura. “Na Serra da Arga, onde até há pouco tempo não havia rede de telefone e há uma população envelhecida é preciso criar o instinto de autoproteção”, adverte o autarca.

O que mais alarma os autarcas é o que consideram ser o perigo de atrair incendiários ao serem identificados como hot spots. “O alerta das vulnerabilidades só devia ser feito internamente aos agentes de proteção civil, de modo a não atiçar a maldade”, defende o presidente da câmara de Moimenta da Beira. É certo que 98% dos fogos têm origem humana, mas mais de metade deve-se a negligência ou comportamentos que violam a lei, mas sem intenção de provocar grandes incêndios, como as queimas e queimadas. No terreno estão a ser desenvolvidas ações de sensibilização para reduzir este tipo de ignições.