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Até sempre, Loja

Foi contestatário até ao fim e morreu este sábado depois de uma tarde na Feira do Livro, a autografar o recém publicado “Arménia”. Era um avô que todas as segundas-feiras tomava conta do neto e um homem de paixões, causas e empenhamentos, que queria ter música cabo-verdiana no último adeus

O António Loja Neves deixou-nos. E desta vez é para sempre

O António Loja Neves deixou-nos. E desta vez é para sempre

Tiago Miranda

Tinha quatro grandes paixões: Cabo Verde, cinema, a filha Marta (35 anos) e o neto Elias de quem tomava conta todas as segundas-feiras para Marta poder ir ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Contador de histórias de trato ameno, muita maionese e outras transgressões alimentares que faziam dele um doente difícil, António Loja Neves nasceu e cresceu na ilha da Madeira, adotou Cabo Verde como pátria dos afetos, pensou ser médico – e só abandonou o curso de Medicina depois de ter passado no exame de Anatomia –, passou à clandestinidade para não ser incorporado nas Forças Armadas portuguesas e combater na Guerra Colonial, e viveu sem se privar de tudo o que mais gostava.

Desafiador de riscos, trabalhava noite dentro, ficando por vezes sozinho na redação do Expresso. Era assim antes do linfoma lhe ter sido diagnosticado no final de 2005 e foi assim depois de se reestabelecer. Ao “não comas isso que te faz mal” com que todos o brindávamos à hora do jantar na cantina da casa, respondia com mais molhos no prato.

Quando adoeceu pediu para ser internado no IPO porque sabia ser demasiado indisciplinado para fazer os tratamentos em regime ambulatório: “Esteve nove meses internado em 2006, montou um escritório no IPO, reunia com pessoas para discutir a preparação de festivais de cinema, e as enfermeiras ficavam preocupadas quando viam a luz da mesa de cabeceira apagada às 3h da madrugada; se não estava a ler, poderia não estar bem”, conta Marta.

“Sempre soube que o meu pai não iria morrer do cancro que lhe foi diagnosticado no final de 2005”. E não morreu! O coração falhou-lhe na noite de sábado depois de uma tarde animada a dar autógrafos na Feira do Livro de Lisboa. António Loja Neves tinha acabado de publicar em co-autoria com a mulher Margarida Neves Pereira, o livro “Arménia – Povo e Identidade”, editado pela Tinta da China.

Campeão de natação na Madeira

Nasceu na freguesia do Monte, na ilha da Madeira, a 5 de março de 1953, foi atleta do Marítimo e campeão de natação. No final da adolescência mudou de ilha e de arquipélago e as mornas de Cabo Verde marcaram-lhe a alma para sempre, ditando um empenhamento pela vida política e cultural dos PALOP (Países Africanos Língua Oficial Portuguesa) que o acompanharia vida fora.

O pai de António, Sílvio Reis Neves, 89 anos a ver partir o filho mais velho, era funcionário de uma empresa inglesa de cabos submarinos [Cable and Wireless], na Madeira: “A empresa tinha escritórios em várias zonas estratégicas e por volta dos 17 anos do meu pai, o meu avô foi trabalhar para Cabo Verde”, contou-nos Marta Loja Neves. “O meu pai veio da Madeira para o internato no colégio de Tomar mas chumbou a Matemática nesse ano. Eu dizia-lhe sempre que tinha sido de propósito para ir viver para Cabo Verde... para onde foi no ano letivo seguinte”, acabar o liceu.

Apaixonou-se por São Vicente a ponto de comunicar à família que queria ter música cabo-verdiana ao vivo no seu velório.

Acabou o liceu no Mindelo, no tempo em que Cabo Verde ainda não era um país independente, e matriculou-se na Faculdade de Medicina de Lisboa onde andou até decidir passar à clandestinidade para não ser mobilizado para combater na Guerra Colonial.

Militância no MRPP

Andou pelo MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido Proletariado) “no tempo da Ana Gomes e do Durão Barroso”, recorda a filha. Tudo antes do 25 de Abril de 1974, quando se podia ser preso por andar a distribuir panfletos na Universidade: “Era o já desaparecido António Cardoso, que os defendia em tribunal quando eram presos”, acrescenta Marta.

Desistiu de ser médico no meio da militância e da paixão pelos cineclubes: “Percorreu o país de Norte a Sul com uma máquina de projetar; levou o cinema a imensas aldeias, e conseguiu terminar o seu último filme que levou mais de 20 anos a fazer”, diz Marta.

“O Silêncio”, realizado em parceria com José Alves Pereira, com a consultoria da antropóloga Paula Godinho, conta o “cerco que a PIDE e a GNR montaram à aldeia transmontana de Cambedo em 1945”, diz Marta. O filme esbarrou em inúmeros contratempos, e só ficou pronto em 2017. Em agosto último foi projetado ao ar livre na aldeia de Cambedo, para quem lá vive.

Expresso, número 802, edição de 21 de maio de 1988, primeiro texto assinado por Loja Neves

Expresso, número 802, edição de 21 de maio de 1988, primeiro texto assinado por Loja Neves

Arquivo Expresso

Entrou para o Expresso em abril de 1988, depois de ter colaborado no jornal como revisor. Era um ótimo caçador de gralhas; escreveu sobre cinema, acompanhou vários festivais, fez crítica de literatura africana e acompanhou o noticiário dos PALOP.

É o autor de uma longa entrevista a Xanana Gusmão, “A população esteve logo de início contra os invasores”, que foi publicada na última edição da revista E (edição do Expresso de 30 de dezembro de 2017). Empenhado na vida do nosso jornal — foi um dos autores do Código de Conduta dos jornalistas do Expresso e membro do júri do Campeonato Nacional de Língua Portuguesa, organizado por este jornal em colaboração com a SIC e o Jornal de Letras.

Já não vai assinar a última reportagem que propôs e que o faria ir a Vila Real de Santo António para relatar aos nossos leitores o concerto com que os Dead Combo vão acompanhar a projeção do filme mudo “Os Faroleiros”, de Maurice Mariaud, cuja cópia foi encontrada na década de 90.

Até Sempre, Loja! Era assim que todos lhe chamávamos. Até a geração com menos 30 anos do que ele e que o via como o mais generoso dos decanos.

O velório é esta terça-feira das 19h às 22h no Espaço Gaivotas na Rua das Gaivotas nº 6. O corpo será cremado na quarta-feira, dia 30 , no crematório do cemitério do Alto de S. João às 13h30.