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Erasmus: sair para ver melhor

Em 31 anos, o Erasmus já levou mais de 9 milhões de estudantes a circular pela Europa, a que aprenderam a chamar casa. Pelo meio cresceu, transformou-se, alargou-se a várias idades e contextos, e tem planos para continuar. Mais do que um programa, “o Erasmus é uma atitude”

Carlos Esteves

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Há quem diga que ninguém passa incólume. “Eu chamo-lhe uma revolução sexual: um jovem catalão conhece uma jovem flamenga — apaixonam-se, casam-se e tornam-se europeus, tal como os seus filhos.” A frase é de Umberto Eco, que chamou aos estudantes Erasmus a primeira geração verdadeiramente europeia. E podia ser a história de Bruno Miguel Costa, se trocássemos o jovem catalão pelo português e a jovem flamenga por uma alemã.

Estávamos em 2008 e Bruno terminava o período de estudos em Milão, uma das capitais mundiais do design, área em que se tinha formado. À chegada a Lisboa, trazia algumas lágrimas e uma certeza: no mês seguinte iria viver para a Alemanha, para onde tinha voltado Laura, a colega do Politécnico por quem se havia apaixonado. Primeiro o coração, depois o apelido. Laura passou a ser também Costa, e o que há 10 anos era uma família de dois passou há 10 meses a ser de três. O filho deste casal está longe de estudar, ainda nem sequer fala, mas dificilmente poderia ser mais europeu. “Entre um típico nome português (João, Pedro, etc.) ou um Karl, Tobi ou Fritz em alemão, ficou mesmo com um nome italiano, para não haver discussões”, explica Bruno. Chama-se Carlo António, terá educação bilingue, uma vida pacata na cidade de Münster e um ponto de referência em Portugal. Estará a poucos quilómetros da Holanda, da Bélgica, de França. Viverá na Europa, assim como a Europa vive nele(s).

O Erasmus Impact Study, criado pela Comissão Europeia para avaliar os resultados do programa em termos de emprego, desenvolvimento e sociabilidade, mostra que um em cada quatro jovens conhece o parceiro durante o período em que estuda fora do país de origem. Em 2014, a estimativa era de que essa realidade já tivesse rendido à Europa mais de um milhão de bebés. Muitos, como Carlo António, não fazem parte desse número que se imagina cada vez maior. De todas as regiões da Europa, o sul é onde mais gente escolhe um parceiro de outra nacionalidade (37 por cento dos estudantes Erasmus, por oposição aos 13 por cento de quem não estuda fora).

Ainda que esteja nesse bloco, Portugal tem um valor relativamente baixo comparado com os vizinhos: 24 por cento dos estudantes encontram um parceiro fora do país. Em qualquer caso, os números mostram a força da mobilidade. Dizia Pia Ahrenkilde Hansen, porta-voz da Comissão durante os últimos anos do mandato de Durão Barroso, que as estatísticas dos nascimentos são “uma pequena e comovente imagem” das “várias coisas boas” que o programa criou. Bruno, Laura e Carlo são mais do que esses números: “Somos uns privilegiados por viver neste espaço da terra. Quem viajou e conhece outras culturas sabe o quão difícil é viver com fronteiras. [Não as ter] é a nossa grande arma.”

Portugueses não param de aumentar

Criado em 1987, o programa vai buscar o nome ao filósofo, teólogo e humanista Erasmo de Roterdão, que apesar do nome ligado à cidade holandesa, foi muito mais alma itinerante do que homem de um lugar só. Erasmus funciona também como acrónimo para ‘European Community Action Scheme for the Mobility of University Students’, ou, em português, Plano de Ação da Comunidade Europeia para a Mobilidade dos Estudantes Universitários. É nessa condição que o conhecemos e foi assim que ofereceu bolsas a mais de quatro milhões de universitários da União Europeia. Hoje vai muito além do ensino superior, que é para Joana Mira Godinho, diretora da Agência Nacional Erasmus+ Educação e Formação, apenas “o parente rico e mais conhecido” de um programa que permite financiar “projetos de instituições de educação e formação desde o pré-escolar até à educação de adultos”, o que faz subir para 9 milhões de pessoas impactadas.

Em 2014 passou por isso a chamar-se Erasmus+, conciliando ações da Comissão Europeia com outras geridas pelas agências de cada país. No total, 14,7 mil milhões de euros são distribuídos por 33 países até ao fim do programa, em 2020. Depois disso, a ideia é manter o nome, pelo qual é já reconhecido, e duplicar o financiamento, para aumentar a cobertura de estudantes universitários, secundários e do ensino profissional, e de professores e outro pessoal de educação e formação.

Portugal fez parte do primeiro grupo de países a entrar no programa. Em 1987, enviou 25 alunos. Hoje, a média é de sete mil ao ano, um número que só abrandou em 2013, no pico da crise, e que voltou a subir logo no ano seguinte. No total, serão perto de 116 mil os portugueses a ter estudado no estrangeiro através do Erasmus, valor que cresce à média de 5 por cento ao ano. Espanha, Polónia, Itália, República Checa, Alemanha e França são os destinos mais escolhidos.

E se a língua ou a proximidade geográfica e cultural ajudam a explicar algumas dessas escolhas, o que dizer de países com palavras impronunciáveis e temperaturas abaixo de zero? Carolina Félix, 20 anos, foi para Poznan sem receios. Do frio até gosta e o polaco era um desafio que queria experimentar — em quatro meses, aprendeu o suficiente para “ser educada” e cumprimentar as pessoas na rua. Confessa que o custo de vida mais baixo pesou na decisão, mas agora que acaba de voltar a Peniche, onde estuda Gestão Turística e Hoteleira, sabe que as viagens, as culturas, a história deste e de outros países e os amigos que fez no caminho são variáveis que não cabem em números. Na Polónia, Carolina deixou entrar histórias e sair estereótipos, como na ceia de Natal que dividiu com os colegas estrangeiros. Ao ver o espanto com que um dos amigos turcos olhava para a pequena árvore montada pelos portugueses, percebeu: “Eu nunca tinha estado ao pé de alguém que não soubesse o que era o Natal.”

Chegar, ver e querer ficar

Sylwia Solczak Melo fez o caminho inverso, da Polónia até Bragança. Não veio para fazer Erasmus, mas foi um Erasmus português em Koszalin, perto do mar Báltico, que a trouxe até Trás-os-Montes em 2006. Foi até hoje. Para quem sabia muito pouco sobre a língua, ser aluno regular no Instituto Politécnico de Bragança (IPB) era uma luta diária. “Eu acho que não teria ficado se não fosse o acolhimento que encontrei aqui”, explica Sylwia, agradecendo aos professores que pouco depois eram já amigos. A polaca é hoje responsável pelo Gabinete de Relações Internacionais do Politécnico e diz que a proximidade entre as pessoas é uma das principais diferenças que encontrou. Na cidade, mesmo quem não fala inglês está habituado aos vários sotaques, principalmente o espanhol, que tem quota alta por aqui.

Para Sylwia, em Bragança “a vida de estudante é perfeita”. “Como não é uma cidade grande, dá para ir a pé para qualquer lado, há muitos cafés, discotecas, as pessoas encontram-se sempre nos mesmos sítios e acabam por criar amizades assim”, conta ao Expresso. A pacatez e o (pouco) trânsito ajudam quem pelo meio deu à luz duas bragantinas e procura uma vida familiar equilibrada. É por isso que a grande dificuldade soa a bizarria… o frio. “Aqui as casas, principalmente as de estudantes, não têm aquecimento como lá, são frias, e o inverno em Bragança não é propriamente quente”, ri-se Sylwia, que reconhece que essas continuam a ser as principais queixas de quem chega.

O Politécnico de Bragança compensa a baixa temperatura com um acolhimento caloroso. Além do programa de que se fala, a instituição recebe estudantes ao abrigo de protocolos internacionais, vindos de países como Índia, Nepal ou Brasil. Gerido pelo padre da cidade, Calado Rodrigues, nasceu um centro multirreligioso dentro do Politécnico, “um espaço bastante neutro”, explica Sylwia, sem cruzes ou qualquer referência religiosa, que é uma tentativa de aproximar jovens de vários credos. As orações variam consoante as disponibilidades da sala, que já abriu portas para sessões multiculturais e multirreligiosas e é um exemplo de boas práticas na instituição.

Uma crise de meia-idade?

Como é que esta Europa é a mesma que vê crescer nacionalismos, partidos eurocéticos e que se prepara para o primeiro abandono da União Europeia? Filipe Araújo estudou em Itália em 1999 e diz que, quase 20 anos depois, “já era hora de se começar a sentir de outra forma o peso e o legado desta primeira geração Erasmus na tomada das grandes decisões”. O presidente francês, Emmanuel Macron, é a prova de que este grupo já começou a chegar ao poder. Porém, alerta Filipe, “não nos esqueçamos de que a Europa, tal como qualquer país, é feita de pessoas. E que as pessoas não só são altamente permeáveis como têm geralmente muito medo daquilo que desconhecem”. Apesar do alargamento das bolsas e dos vários ciclos de estudo, lembra o produtor e realizador que o programa Erasmus está ao alcance de uma minoria, que não chega aos 4 por cento de jovens europeus.

Ainda não é clara a forma como o ‘Brexit’ vai alterar as perspetivas dos estudantes britânicos na Europa. Vivienne Stern, diretor da unidade de internacionalização das universidades do Reino Unido, escreve que o valor de estudar fora “é incalculável” e que os alunos precisam de ser esclarecidos sobre o futuro do programa. Mais de 300 mil britânicos já foram beneficiados e para o responsável os efeitos são claros: “Maior empregabilidade, melhores resultados nos cursos e salários mais altos, especialmente para os de origens desfavorecidas”, escreveu num artigo publicado no “The Guardian”.

A 2 de novembro do ano passado, a organização lançou a campanha “Go International: Stand Out” (“Vai para fora: destaca-te”) para dobrar o número de universitários britânicos que estudam, trabalham ou fazem voluntariado no estrangeiro durante os cursos. Professores, reitores, empresários e até políticos subscreveram a ação por considerarem que o Reino Unido precisa de diplomados com o tipo de competências que a mobilidade potencia. Jo Johnson, ministro com a pasta da Educação, garantiu que os protocolos estão assegurados até ao ano letivo 2019/2020. Depois disso, sobram dúvidas. Para Viviene, dadas as questões que envolvem o ‘Brexit’, seria fácil esquecer a mobilidade estudantil, “mas ela importa”.

Foi a partir de inquietações como esta que Filipe Araújo, premiado pelo filme “A Sétima Vida de Gualdino”, decidiu filmar “O Projeto Erasmus”, um documentário “que se serve do programa como desculpa para refletir sobre a primeira geração de europeus e a Europa à luz de duas décadas de conquistas, euforias, perdas e desilusões”. A história de um reencontro acidental entre dois grandes amigos de Erasmus serve também como pretexto para o próprio cineasta rever “velhos companheiros de aventura”, volvidas precisamente duas décadas (a produção deverá começar na segunda metade de 2019).

Da passagem por Itália, Filipe guarda quase tudo, até porque “o Erasmus não é aquele tipo de experiência que se vive, se arruma depois a um canto e se esquece”. Está em cada passo, no que fica dos serões em que se sentava à mesa com a Europa. “O Erasmus é uma atitude”, diz Filipe, que se pergunta se estas derivas não são afinal uma crise de meia-idade. Sem saber, leva-nos num círculo ao início do texto, fazendo eco das palavras do escritor: “a ideia do Erasmus deveria ser obrigatória, não apenas para estudantes, mas também para taxistas, canalizadores e outros trabalhadores.” A construção dessa Europa segue dentro de momentos.