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Expresso

Sociedade

O mundo fantástico da inovação científica

Getty Images

Responsabilidade Social: 63 projetos distinguidos e €1,3 milhões distribuídos ao longo de cinco anos. São os números que contam a história daquele que é o maior prémio em Portugal, juntando investigação em saúde à proximidade social, o Programa Gilead Génese, a que o Expresso se associa. Após 32 candidaturas para a quinta edição, a cerimónia de atribuição dos prémios aos dez escolhidos realizou-se esta semana na Estufa Fria, em Lisboa. Na investigação, os projetos distinguidos incidem sobretudo sobre novas abordagens ao VIH. Já nos projetos da comunidade, destaca-se a preocupação com a sensibilização para o rastreio, prevenção e adesão ao tratamento de pessoas com hepatites virais B e C, assim como a promoção do aconselhamento e deteção precoce. Projetos com potencial para mudar vidas

Esforço, dedicação e, também, alguma glória.” Sem rodeios, foi como o diretor-geral da Gilead Sciences, Vítor Papão ilustrou o caminho que levou os dez premiados na quinta edição do Programa Gilead Génese a serem reconhecidos como “os melhores entre os seus pares.” Os distinguidos estavam presentes na Estufa Fria para ouvir estas palavras, numa cerimónia onde a investigação científica e dos projetos de proximidade junto das populações estiveram sempre sob as luzes da conversa. Porquê? Porque neles pode residir uma das chaves para o futuro do sistema de saúde como o conhecemos e que tem de responder aos desafios de novas pressões sociais e menos dinheiro disponível. No fundo, “contribuir para fazer chegar aos doentes mais e melhor saúde.”

Foi com este quadro de fundo que se procedeu à entrega dos prémios a investigadores e ativistas sociais que viram o seu trabalho reconhecido naquele que é um dos maiores programas do género em Portugal, com mais de €1 milhão atribuídos e 63 projetos apoiados desde 2013 com o objetivo primordial de incentivar a investigação, a produção e a partilha de conhecimento científico a nível nacional.

A seleção dos finalistas, a partir de 32 candidaturas, foi da responsabilidade de duas comissões independentes de avaliação, que selecionaram seis projetos de natureza científica e quatro de iniciativa comunitária, pelo seu potencial contributo para a otimização da prática clínica, da melhoria da qualidade de vida dos doentes e dos resultados em saúde. Sem esquecer o apoio da comissão consultiva da qual constam nomes como Alexandre Quintanilha, presidente da Comissão de Ética para a Investigação Clínica, ou Rosália Vargas, presidente da Agência Nacional para a Cultura Científica e Tecnológica.

Trata-se de gerar mais e melhor conhecimento para aplicar de forma efetiva até porque, como lembrou a presidente do Infarmed, Maria do Céu Machado, é preciso trabalhar para “que os portugueses tenham acesso às práticas inovadoras”.

Reter talento: o dilema da saúde

As pressões a que o Serviço Nacional de Saúde está sujeito estiveram em destaque no debate da entrega dos prémios

“A investigação clínica na otimização de cuidados de saúde nos hospitais portugueses” foi o tema que juntou alguns dos protagonistas do sector para discutir o panorama da saúde em Portugal e o que se está a fazer a caminho da sustentabilidade. Sem pruridos, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, garante que “estamos a passar uma fase complicada de desinvestimento no SNS” que vai ao encontro do que está a acontecer na maior parte das economias europeias, se bem que com algumas particularidades, lembrou, em dia de greve dos médicos.

“Estamos numa encruzilhada brutal na forma como financiamos a saúde”, defende Isabel Vaz, CEO da Luz Saúde, ao mesmo tempo que rejeita veementemente acusações de competição desleal à medicina privada e ao papel que os seus serviços desempenham dentro do sistema. “É um desrespeito para com eles”. A conversa vincou um consenso geral de colaboração entre público e privado, até porque a maior parte das pressões são comuns aos dois.

E é aqui que a investigação pode ser uma cartada essencial das instituições por ser “fundamental para o acesso a terapias inovadoras e receitas financeiras”, segundo Álvaro Almeida, professor da Universidade do Porto. Ou também como incentivo “para fixar o talento”, nas palavras do diretor do serviço de oncologia do CHLN, Luís Costa. Opção que ainda não permite aos hospitais tirar os melhores dividendos porque há “pouca autonomia”, atira José Laranja Pontes, presidente do IPO Porto. Por isso Álvaro Almeida deixou expressa a necessidade de delinear um “plano consensual que permitisse pensar a saúde a, pelo menos, cinco anos.”

O papel da investigação clínica: Álvaro Almeida (professor daUniversidade do Porto), José Laranja Pontes (presidente do IPO Porto), Miguel Guimarães (bastonário da Ordem dos Médicos), o moderador Ricardo Costa (diretor-geral de informação da Impresa), Isabel Vaz (CEO da Luz Saúde) e Luís Costa (diretor do serviço de oncologia do CHLN) estiveram reunidos para discutir as pressões que o Serviço Nacional de Saúde enfrenta

O papel da investigação clínica: Álvaro Almeida (professor daUniversidade do Porto), José Laranja Pontes (presidente do IPO Porto), Miguel Guimarães (bastonário da Ordem dos Médicos), o moderador Ricardo Costa (diretor-geral de informação da Impresa), Isabel Vaz (CEO da Luz Saúde) e Luís Costa (diretor do serviço de oncologia do CHLN) estiveram reunidos para discutir as pressões que o Serviço Nacional de Saúde enfrenta

NUNO FOX

Dez ideias para fazer a diferença na sociedade

Projetos científicos

INSTITUTO DE HIGIENE E MEDICINA TROPICAL
(Miguel Viveiros)

A premissa desta projeto baseou-se no desenvolvimento de um método não invasivo de deteção de infeção pelo VIH. A partir daqui trabalhouse numa técnica rápida, fácil e de baixo custo baseada em nanopartículas superparamagnéticas. No fundo, funcionam como mini-ímans que, numa só amostra do doente, capturam e concentram HIV e o bacilo da tuberculose. Em vez de trabalhar com centenas de amostras negativas, este concentrador magnético permite aumentar a sensibilidade dos procedimentos, com vantagens em sistemas de saúde de países onde não há um laboratório sofisticado que permita processar eficazmente as amostras

IPATIMUP
(Nuno Rodrigues dos Santos)

Uma das novas estratégias com mais sucesso contra o cancro tem sido a imunoterapia, baseada no conceito das células de cancro, que ao adquirirem mutações genéticas produzem proteínas cuja identificação ajuda no combate à doença pelo sistema imunitário. O outro lado da moeda são as “proteínas de controlo imunitário", que aparecem normalmente em células imunitárias para impedir que as respostas a infeções se prolonguem demasiadamente. Um destes polícias maus é a PSGL-1, que se assume como a base do projeto, cujo objetivo é perceber se, ao desativar, esta proteína, impede-se simultaneamente a propagação do linfoma e aumenta-se a eficácia das células imunitárias

ICVS DA UNIV. DO MINHO
(Nuno Osório)

Tem-se tornado cada vez mais evidente que diferentes subtipos de VIH têm propriedades biológicas distintas, incluindo diferentes velocidades de progressão ou de causar inflamação. Neste projeto é feita a análise das sequências virais e dados clínicos de mais de 3000 pessoas infetadas com VIH em Portugal e no Brasil. Esta análise permite identificar a evolução e perfil genético dos vírus num modelo de análise estatística. A meta é providenciar informação que permita o desenvolvimento de novas terapias mais personalizadas, assim como facilitar a discriminação dos reservatórios preferenciais dos diferentes subtipos e fornecer dados que levem ao aumento da eficácia terapêutica

INSTITUTO DE MEDICINA MOLECULAR
(Robert Badura)

O VIH dissemina e estabelece reservatórios rapidamente durante a infeção aguda, pelo que há um enorme interesse em estudar as raras pessoas que são diagnosticados precocemente. Neste contexto, foi possível identificar dois casais em que a transmissão viral ocorreu durante a fase inicial e em que ambos iniciaram logo terapêutica antirretroviral. O estudo da dinâmica viral nestes dois casais constitui, por isso, um modelo único para a compreensão dos fatores que determinam a evolução dos reservatórios virais. Trata-se de uma abordagem inovadora que permitirá um novo olhar sobre o contributo relativo do vírus e do hospedeiro para a dinâmica dos reservatórios virais

ICVS DA UNIV. DO MINHO
(João Canto)

Mesmo após anos de terapêutica antirretroviral contínua, doentes infetados com VIH estão sempre expostos a um risco aumentado de complicações, como eventos cardiovasculares, obesidade, diabetes e osteopenia/ osteoporose. O ponto de partida deste projeto é, deste modo, estudar a atividade do sistema imunitário com recurso a amostras de sangue dos doentes além das células que regulam o “estado de alerta” do sistema imunitário, as chamadas células T reguladoras (Treg). Tudo para tentar relacionar alterações das células Treg com os níveis dos compostos no soro e explorar cenários de melhoria do sistema imunitário dos doentes através da manipulação destas células

UNIVERSIDADE DO PORTO
(Eliane Pimenta da Silva)

Há relativamente pouco tempo, foi identificada uma nova forma de hepatite C, designada como infeção oculta pelo vírus da hepatite C (OCI). Uma das grandes dificuldades em identificar pessoas ou doentes que têm este tipo de infeção é de que estes têm uma quantidade relativamente baixa de vírus no seu organismo, o que faz com que seja difícil verificar a sua presença. Este projeto quer contribuir para fazer uma estimativa da prevalência de OCI em doentes que fizeram transplante renal e com anticorpos contra a hepatite C, no sentido da prevenção e aumento da qualidade e esperança de vida dos doentes e do “novo rim”

Projetos Comunidade

ASS. DE INTERVENÇÃO COMUNITÁRIA, DESENVOLVIMENTO SOCIAL E DE SAÚDE
(Cristina Mora)

O ComREDE trata-se de um projeto de intervenção comunitária para o rastreio das hepatites virais B e C junto de utilizadores de drogas intravenosas e de retenção e adesão ao tratamento nos municípios de Amadora e de Sintra. A promoção será assegurada pelos mediadores com visitas aos locais habituais de consumo para fazer uso da relação de confiança estabelecida, sempre de acordo com os hábitos diários da população. Será a forma mais eficaz de garantir a assiduidade às consultas e outros exames, bem como, do cumprimento da toma da terapêutica prescrita. A meta é conseguir que a maioria dos abordados realizem o rastreio

ASSOCIAÇÃO BUÉ FIXE
(Mónica Salas Corrigan)

O projeto Com Consciência pretende sensibilizar os mais novos para a importância da prevenção do vírus VIH e transformá-los em verdadeiros agentes sensibilizadores para a doença (como criadores e difusores de conteúdos educacionais multimédia) através de atividades que promovam a participação ativa, inclusão e igualdade entre pares. A meta é que o impacto positivo não só se evidencie junto da população mais nova, mas também nos trabalhadores sociais, que podem ver reforçadas as suas capacidades. Sem esquecer os vários agentes e promotores de educação ou membros de entidades com responsabilidades importantes na tomada de decisões

LIGA PORTUGUESA CONTRA A SIDA
(Gonçalo Bento)

O Projeto Interliga-te é um projeto inovador de deteção precoce e de apoio ao tratamento da infeção por VIH e SIDA e outras infeções sexualmente transmissíveis (IST), destinado à população com idade igual ou superior a 50 anos. Foi desenvolvido em articulação com os Cuidados de Saúde Primários (CSP), através do ACES LouresOdivelas e visa proporcionar um aumento dos serviços dos CSP com um espaço de atendimento especializado, direcionado para as IST. Aumentar a literacia dos utentes, sensibilizá-los para a adoção de práticas preventivas e facilitar a compreensão dos planos de tratamento estão entre as metas traçadas

MOVIMENTO DE APOIO À PROBLEMÁTICA DA SIDA
(Fábio Simão)

Dá pelo nome de Testa-te! e pretende promover o aconselhamento e deteção precoce da infeção pelo VIH, vírus da hepatite B e C, junto da comunidade algarvia, onde, a seguir a Lisboa e Porto, se regista uma das mais altas taxas de casos novos identificados. O plano passa por intervir em diversos contextos, através duma unidade móvel e uma equipa multidisciplinar com formação e experiência na realização de testes rápidos, deslocando-se às várias localidades do Algarve. A esperança é que haja um crescimento real nos comportamentos preventivos e saudáveis, através de uma resposta de proximidade, ajustadas às reais necessidades da comunidade local

Textos originalmente publicados no Expresso de 12 de maio de 2018