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MP investiga roubo de anabolizantes do Hospital de Santa Maria

Judiciária e PSP chamadas a deslindar o desvio de dezenas de lotes de medicamentos ilegalmente utilizados em culturismo

Os culturistas são os maiores utilizadores de hormonas para o aumento muscular excessivo

Os culturistas são os maiores utilizadores de hormonas para o aumento muscular excessivo

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A Autoridade Nacional do Medicamento emitiu na terça-feira um alerta sobre o roubo de vários lotes de medicamentos numa farmácia comunitária em Lisboa. Os fármacos desviados do stock são hormonas para aumentar a massa muscular, utilizadas de forma ilegal principalmente por praticantes de culturismo e musculação, e também outros atletas. O caso surge depois de no final do ano passado ter sido notificado um desaparecimento semelhante na farmácia que abastece o Hospital de Santa Maria.

O roubo de dezenas de anabolizantes, 34 lotes no total, está a ser investigado pelo Ministério Público. “Existem investigações a correr termos no Departamento de Investigação e Ação Penal de Lisboa. Num inquérito, o Ministério Público está a ser coadjuvado pela PJ e noutro pela PSP”, adiantou ao Expresso a Procuradoria-Geral da República. Até ao momento, não há arguidos constituídos.

Os responsáveis da farmácia de rua e do Hospital de Santa Maria desconhecem as circunstâncias em que os lotes desapareceram, mas sabem que alguém terá tido acesso aos stocks e desviado os medicamentos. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde e o próprio Infarmed estão a analisar o que terá acontecido.

No Hospital de Santa Maria o caso teve consequências imediatas: o afastamento de três elementos. A administração do Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), que integra o Santa Maria, sublinha que, “tratando-se de matéria em investigação, não se pronuncia”. Ainda assim explica que “no final do ano 2017 houve um desfasamento de alguns fármacos entre o stock físico e o stock informático”. E, “alertado sobre o assunto, o conselho de administração de imediato comunicou ao Ministério Público, ao Infarmed e à IGAS que têm tomado as diligências convenientes”.

A identificação precisa de todos os fármacos desviados da farmácia comunitária e do Santa Maria — 34 lotes de hormonas, quase todas injetáveis, mais nove de anticonvulsivantes — estão na posse do Infarmed. A autoridade já enviou os dados para as entidades internacionais. A diligência funciona como uma espécie de ‘Interpol dos medicamentos’ para que possam ser intercetados caso entrem no circuito comercial ou surjam em ações de fiscalização no mercado negro.

Furto à escala internacional

Segundo o Infarmed, estes são os primeiros casos notificados em Portugal, revelando que o furto deste tipo de medicamentos começa a chegar ao país, à semelhança do que se verifica noutros países europeus, como Itália. “A nível internacional está a registar-se um incremento de situações relacionadas com o furto de medicamentos. Deve-se, por um lado, ao facto de estas situações detetadas no circuito legal passarem a ser divulgadas através da rede de alertas de qualidade, levando a uma partilha célere e permanente de informação entre os países.”

Os peritos explicam que “assim que uma situação, seja de furto ou de falsificação, é identificada, é imediatamente reportada via alerta rápido. Habitualmente, a nível interno para os parceiros do sector, como farmácias, distribuidores, fabricantes, hospitais e outras unidades de saúde; e externamente”. Os peritos garantem que, “até ao momento, nunca foi identificada a entrada de nenhum medicamento furtado ou ilegal no circuito legal”.

A análise dos alertas emitidos pela autoridade do medicamento — um em janeiro e outro nesta semana, depois de verificado que houve roubo — revela que os fármacos desviados têm preços de tabela de quatro a mais de 200 euros. O diretor do Centro de Estudos de Medicina Baseada na Evidência, da Faculdade de Medicina de Lisboa, explica que os culturistas usam este tipo de hormonas para dopagem muscular.

“É preciso ser dopado para conseguir ter os músculos que aparecem nas fotografias. Grandes massas musculares, como as que se veem, não se conseguem com nenhum exercício físico. É preciso dopagem para que as fibras musculares venham ao de cima e haja atrofia de toda a gordura na superfície na pele”, explica António Vaz Carneiro. As consequências são más e a médio prazo. “Além de graves disfunções sexuais, surgem problemas hepáticos e cardíacos, com o aparecimento de doença coronária ainda na faixa etária dos 30 anos. O aparecimento de cancros também é favorável, desde logo pelo brutal estímulo a nível endócrino.”