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Os kamikazes de Massada

Peter O'Toole no papel do comandante romano Lucius Flavius Silva

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Era uma fortaleza erguida num local inexpugnável e guarnecida por extremistas religiosos, decididos a bater-se até ao último suspiro. Contudo, quando a engenharia militar romana abriu caminho até às muralhas, os defensores preferiram-se matar-se ritualmente e Roma só encontrou cadáveres nas muralhas de Massada

Seis séculos antes de Cristo, Sun Tzu escreveu que a verdadeira finalidade da guerra não é destruir o inimigo mas levá-lo a agir segundo os nossos interesses. A tese do estratega chinês não se aplicou ao conflito entre judeus e romanos de 66 a 74 d.C., que foi uma verdadeira guerra de extermínio e cujo ponto final correspondeu à conquista da fortaleza de Massada pela X Legião de Lucio Flavio Silva.

Foi este o tema da derradeira sessão do curso livre de História Militar Grandes Cercos do Mundo Antigo, dedicada a Massada. Esta iniciativa do Centro de História da Universidade de Lisboa decorreu às quartas-feiras entre 14 de março e 2 de maio na Faculdade de Letras. O orador foi Paulo Santos, doutorando daquele Centro.

Uma mistura explosiva de fanatismo religioso, arrogância imperial e falta de tato político fez deflagrar uma das mais terríveis guerras da antiguidade, opondo revoltosos judeus ao ocupante romano. Tudo começou em 66 d.C. no reinado de Nero, quando os abusos do procurador Géssio Floro, que escarnecia dos costumes locais e desrespeitava sistematicamente o sinédrio, levaram a uma revolta contra a presença romana. A gota de água foi a profanação do templo de Salomão e o roubo de parte do tesouro deste para a conta pessoal do romano e o depauperado tesouro de Nero. Perante os primeiros sinais de revolta, Floro não só não tentou a via do apaziguamento, como ordenou o saque da cidade alta, durante o qual mais de três mil habitantes terão sido mortos.

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Estava desencadeada uma engrenagem infernal. A guarnição romana foi cercada no palácio de Herodes e na fortaleza de Antonia. Quando se quiseram render foram todos massacrados. Daí em diante a guerra seria sem quartel, o que ia ao encontro dos desejos dos fanáticos religiosos que havia do lado judeu, nomeadamente sicários (assim chamados por fazerem atentados com facas curtas chamadas sicas) e zelotas, muitas vezes embrenhados em guerras intestinas.

“A ironia da tomada de Massada é ter ocorrido quando a guerra estava praticamente terminada e era claro que o poder militar romano saíra vencedor”, explicou Paulo Santos. O sucesso romano neste cerco resultou de um prodígio de engenharia militar: a construção durante um ano de uma gigantesca rampa de 91 metros de desnível, permitindo o acesso das tropas de assalto e das máquinas de guerra até ao planalto onde se situava a fortaleza.

Azeite a ferver

Contudo e como explicou o conferencista, fora este aspeto Massada nem sequer foi o mais exemplar cerco romano desta guerra. Este ocorrera no ano 67 com o ataque à cidade de Jotapata. Aí a arte romana de cerco esteve ao seu mais alto nível, com a construção de rampas, utilização de máquinas de cerco e bombardeamentos com a artilharia neurobalística da época (onagros, escorpiões, balistas, etc).

Os sitiados responderam com contratáticas à altura: uso de materiais derrapantes para tornar impraticáveis as rampas de assalto ou azeite a ferver para evitar o assalto pelas brechas abertas na muralha. Sabemos tudo isto porque o comandante judeu acabou por se passar para os romanos e sob o nome de Flavio Josefo escreverá a crónica da campanha, naturalmente feita pelos olhos dos vencedores.

Em Massada parecia não haver testemunhas quando, ao fim de um ano de cerco e convencidos da inutilidade da resistência e da dimensão da vingança que os romanos não deixariam de exercer, os zelotas, sicários e outros defensores da fortaleza decidiram matar-se ritualmente, começando pelas mulheres e crianças. Contudo duas mulheres e cinco crianças esconderam-se para escapar ao massacre e foram as únicas que sobreviveram para contar aos romanos o que se tinha passado.

Para os israelitas modernos Massada simboliza a resistência até ao fim e é nas ruínas da fortaleza que é feito o juramento de bandeira dos recrutas, fazendo votos para que Massada não volte a cair.