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A Inteligência Artificial faz-nos mais felizes ou não passa de uma ilusão?

Estamos a dar poder a software inteligente demasiado simples, que não usa padrões morais

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Não se dá por ela, é uma tecnologia invisível, mas está a entrar cada vez mais nas nossas vidas, como se fosse um fenómeno viral. Controla funções dos nossos telemóveis, trata doenças crónicas, reduz acidentes de automóvel, torna o uso da energia mais sustentável, deteta poluição nos oceanos, previne ameaças à cibersegurança. Mas esta semana a Inteligência Artificial (IA) tornou-se bem visível, porque foi notícia em duas iniciativas europeias.

Um grupo de conhecidos cientistas desta área propôs numa carta aberta a criação de um grande instituto europeu para a investigação em IA, de modo a reter os melhores talentos, que estão a ser contratados massivamente por grandes empresas tecnológicas americanas. Chama-se ELLIS (European Lab for Learning and Intelligent Systems) e o seu objetivo é empregar centenas de cientistas que coloquem a Europa na liderança da investigação na IA, hoje detida pelos EUA e pela China.

Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia apresentou uma série de medidas “com o objetivo de colocar a IA ao serviço dos cidadãos europeus e de estimular a competitividade da Europa neste domínio”, o que passa por “aumentar o investimento público e privado, preparar as mudanças socioeconómicas e garantir um quadro ético e jurídico adequado”. O comissário do Mercado Único Digital, Andrus Ansip, afirmou que a Europa precisa “de investir pelo menos €20 mil milhões até ao final de 2020”.

São boas notícias? Nem por isso. Luís Moniz Pereira, o investigador português de IA com maior projeção internacional, está preocupado e diz que “a proposta dos cientistas europeus é um grande erro, porque há questões éticas que estão a ser metidas debaixo do tapete”. O projeto do ELLIS aposta no desenvolvimento da machine learning (aprendizagem máquina), “que está no coração de qualquer revolução tecnológica e societal da IA, com grandes implicações para a competitividade futura da Europa”, sublinha a carta aberta dos investigadores europeus. A machine learning é uma componente da IA que se baseia na ideia de que os sistemas podem aprender com o grande volume de dados que hoje existe, identificar padrões e tomar decisões com o mínimo de intervenção humana.

IA sem decisões éticas

“Isto é restringir a Inteligência Artificial ao que está na moda, porque tem muitas aplicações devido ao grande volume de dados armazenados que hoje existe. Mas ignora a noção de causalidade e de lógica, a explicação das decisões que são tomadas de forma automática, sem intervenção humana”, argumenta Luís Moniz Pereira. O professor catedrático da Universidade Nova de Lisboa alerta que esta “é uma aposta perigosa, porque está a dar poder a software demasiado simples, que toma decisões com base no reconhecimento de padrões, mas que não explica as razões que levaram a essas escolhas”, ou seja, “não há decisões éticas”. Uma iniciativa como esta “devia abranger toda a Inteligência Artificial”.

Hoje há mesmo “um uso maléfico da IA”, conta Moniz Pereira: “Há empresas que utilizam software inteligente para o recrutamento de pessoal que decide se chama alguém para uma entrevista de emprego com base em dados que podem ser enviesados, como a morada em bairros problemáticos ou a cor da pele.” O software faz a comparação de padrões, “mete cada pessoa numa gaveta, mas não explica as razões da escolha”. Só que cada pessoa “deve ter direito à explicação e a poder argumentar contra um programa de recrutamento deste tipo”

O progresso tecnológico “tem de corresponder a um progresso social, mas estamos a assistir a uma regressão social, porque estas questões não estão a ser investigadas e discutidas”, considera o professor. Hoje temos “programas muito sofisticados para conduzir aviões ou comboios, mas isso não acontece no software que pretende abranger aspetos éticos, onde ainda não há linguagens de programação para especificar os comportamentos morais, um pré-requisito para que um programa dê certo e não faça disparates”.