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Jiadista portuguesa presa por forças curdas quando fugia dos combates

Há mais de 20 mulheres e filhos de jiadistas na Síria

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Mulher já tinha sido identificada pelo SIS e está retida em campo de refugiados situado no norte da Síria

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Roj não é um campo de prisioneiros nem de refugiados. Pelo menos é o que dizem os ‘moradores’. Este acampamento do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) foi montado no norte da Síria, o chamado território do Curdistão, entre a Turquia e o Iraque. E aqui vivem perto de 500 famílias de 20 nacionalidades, sobretudo mulheres e crianças que pertenciam ao autodenominado Estado Islâmico (Daesh) e que foram capturadas nos últimos meses pelos soldados curdos.

Entre elas está uma jiadista portuguesa já identificada e acompanhada há algum tempo pelo Serviço de Informações de Segurança (SIS). As ‘secretas’ já reconheceram que há mais de 20 mulheres e crianças portuguesas nos territórios do califado. Esta mulher é uma delas.

O Expresso não conhece a sua identidade mas sabe que não se trata de Ângela Barreto, de 23 anos, que viajou para o ‘califado’ no verão de 2014 para se casar com Fábio Poças. Além desta luso-holandesa, há uma mulher de 40 anos chamada Catarina Almeida, com família na Guarda e que vivia em Trappes, perto de Paris, antes de se juntar ao Daesh, onde já se encontrava o filho, Dylan Omar de Almeida. Dado o extenso contingente de jiadistas que partiu de França, é provável que esta prisioneira que se encontra em Roj possa ser uma lusodescendente e ex-companheira de um combatente daquele país.

Recentemente, foi entrevistada para a rádio parisiense Europe 1 e revelou, num francês escorreito, que tentava fugir das zonas onde eram travados os combates, juntamente com um grupo de mulheres e crianças, mas nada correu como havia imaginado. À jornalista, garantiu ter pago a contrabandistas para os levar até Idlib, província situada na zona noroeste da Síria que nos últimos dias tem recebido milhares de pessoas de Douma. Na altura da fuga, Idlib não era, de acordo com o testemunho desta jiadista, uma região afetada pelos bombardeamentos. E era lá que pretendia viver.

Só que os homens em quem confiou para atravessar o país em guerra não eram na verdade contrabandistas mas, aparentemente, aliados das forças curdas que lutam contra a organização terrorista liderada por Abu Bakr al-Baghdadi. E todo o grupo acabou por ser preso pelo YPG (Unidades de Proteção Popular).

O campo de Roj acolhe atualmente outras jiadistas ocidentais de países como os Estados Unidos, Alemanha e França. Segundo a reportagem do canal francês, estas mulheres, todas elas mães de crianças que vivem com elas no deserto, encontram-se numa espécie de limbo do Direito internacional: as autoridades não as encaram como criminosas mas limitam-lhes os movimentos. Mal conseguem falar com as famílias e com os advogados, vivendo com a incógnita permanente de saber se algum dia serão acolhidas nos países de origem. Caso o sejam, receiam chegar com o rótulo de prisioneiras de guerra.

Acolher mulheres e crianças

Na última semana, o Expresso revelou que os serviços de informações defendem que estas mulheres e respetivos filhos devem ser recebidos sem qualquer tipo de hostilidade. Ou seja, em vez de serem detidos (como acontecerá a cada um dos jiadistas portugueses que é alvo de um mandado de captura internacional), a aposta será na reinserção. E podem até pedir a nacionalidade portuguesa quando chegarem a Lisboa, uma vez que muitas das que casaram com os terroristas portugueses são estrangeiras.

As forças de segurança anteveem, no entanto, alguns problemas sociais e judiciais. Na Europa tem sido necessário perceber o grau de envolvimento das companheiras dos combatentes nos palcos da Jihad. Mesmo que não tenham pegado em armas, recairá sempre a suspeita de que possam ter contribuído para o financiamento, o recrutamento ou a apologia do grupo terrorista.

O caso dos menores que se encontram na zona de conflito também é complexo. O último relatório de segurança interna alerta para a possibilidade de regresso de “jovens sem antecedentes” mas já “enformados pela ideologia jiadista” e “expostos durante anos” à violência dos soldados do Daesh, considerando as suas práticas como “normais, legítimas e adequadas”. Serão eles futuros jiadistas ou apenas vítimas do terrorismo?