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Família Paulouro despede-se do “Jornal do Fundão”

António Paulouro, no seu gabinete de trabalho

d.r.

Termina uma marcante dinastia da imprensa, que fez um jornal local saltar as fronteiras da região e do país

Foram 3470 números, publicados ao longo de 72 anos. A saga do “Jornal do Fundão” (“JF”), que se confundiu com a vida e a obra de António Paulouro (falecido em 2002), um projeto que descendentes e familiares tentaram prosseguir até poderem, chegou ao fim nesta quinta-feira. O semanário continua, agora inteiramente nas mãos da Global Media (detentora do “DN”, do “JN” e da TSF), à qual a família Paulouro vendeu a sua participação (40%).

“Fim de ciclo” é o título da nota da primeira página do “JF”, assinada por Maria Teresa Paulouro e Maria José Paulouro (filhas e herdeiras do fundador, a última delas até agora administradora do jornal, embora em minoria no Conselho de Administração) e Fernando Paulouro Neves (sobrinho de António Paulouro). É uma despedida com “mágoa”, pois “pela primeira vez a família de António Paulouro” não tem “qualquer responsabilidade nos destinos” do “JF”, escrevem os signatários.

Fernando Paulouro Neves e Maria José Paulouro

Fernando Paulouro Neves e Maria José Paulouro

d.r.

O “JF” foi criado por um homem, então com 30 anos, que amealhara “um bom dinheiro nas minas de volfrâmio”, conta a filha Maria José. Desde 1946, a lufa-lufa do periódico e a vida da família passaram a ser quase uma só. “O pai dizia que o jornal era o nosso irmão mais velho”, diz Maria José.

Se atualmente o interior é muitas vezes sinónimo de desertificação e de desgraças, houve um tempo (de maior pobreza e até miséria) em que num remoto concelho do distrito de Castelo Branco brotou um jornal que dinamizou uma região e ultrapassou em muito as suas fronteiras naturais. Atraiu à terra grandes vultos da cultura portuguesa (e brasileira) e depois levou de volta as suas palavras e ideias, espalhando-as até pelo mundo fora, em cantinhos de emigração.

Pelo “JF” passaram, como colaboradores ou responsáveis pelas páginas literárias, Alexandre Pinheiro Torres, Eduardo Lourenço, José Cardoso Pires, António José Saraiva, Nuno Bragança, Fernando Lopes-Graça, Óscar Lopes, José Saramago (muitas das crónicas de “A Bagagem do Viajante” saíram inicialmente no “JF”), Baptista-Bastos e Vítor Silva Tavares (que tomou em mãos o suplemento “&Etc”, que, já fora da órbita do “JF”, se tornou revista e depois editora). O editor Nelson de Matos desdobra a memória de quando colaborava no suplemento literário: “Íamos todas as semanas ao Fundão. Muitas vezes chegávamos a altas horas. O Paulouro recebia-nos com a lareira acesa e um bife com ovo a cavalo.” Para as páginas do “JF”, do outro lado do Atlântico, vieram os brasileiros Carlos Drummond de Andrade, Érico Veríssimo e João Cabral de Melo Neto, entre outros.

Um jornal de olhos no horizonte mas que teve, acima de tudo, um empenho total nas causas das suas gentes e dos mais frágeis: “Estaremos ao lado dos que trabalham e dos que sofrem, numa fraterna compreensão que não é de hoje mas de sempre”, escreveu Paulouro no editorial do nº 1. “A primeira guerra com a Censura foi sobre as condições de vida dos mineiros da Panasqueira”, recorda Maria José Paulouro. Muitos outros confrontos se seguiram. Uma vez, a tesoura da ditadura cortou um artigo em que o “JF” explicava como combater o bócio endémico na região.

Nos anos de apogeu, o “JF” teve tiragens a rondar os 24 mil exemplares. Agora andará pelos 7 mil. Fernando Paulouro Neves esteve ao leme durante 10 anos (2002-2012). “A ideia do jornal e o seu estatuto histórico estava a ser descaracterizado pela pressão dos acionistas maioritários”, diz, explicando a sua saída. No último editorial que assinou (28/12/2012) clamara que “não se pode pactuar com inquinações éticas ou com a mercantilização da informação”.

Maria José Paulouro fala deste desenlace como um “processo doloroso. É mais do que o fim do ciclo, é o fim do jornal. É outro jornal com o mesmo nome”.

Agora é que pararam mesmo as rotativas do sonho realizado por António Paulouro. Um projeto de toda a família. “Sabe que foi a minha mãe [Maria Cândida] quem desenhou o logótipo?”, pergunta Maria José. “Os meus pais atrasaram o casamento um ano para lançar o jornal.”