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Onze universidades e centros de investigação querem criar primeiro Centro Nacional de Criomicroscopia Eletrónica. E custa €10 milhões

Investigadores do Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia, em Braga, a entidade portuguesa que mais patentes pediu em 2017. É aqui que vai ficar o novo centro

Rui Duarte Silva

A tecnologia vai ser aplicada às ciências da vida, abrangendo desde biomoléculas, células e tecidos celulares até novas formulações farmacêuticas. E o novo centro ficará instalado no Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL) em Braga

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

O Laboratório Ibérico Internacional de Nanotecnologia (INL), localizado junto ao campus de Braga da Universidade do Minho, vai ter o primeiro Centro Nacional para a Criomicroscopia Eletrónica do país, aplicada às ciências da vida e saúde. O projeto implica um investimento de oito a dez milhões de euros, envolve sete universidades e quatro instituições de investigação portuguesas. E várias empresas manifestaram já o seu apoio e interesse na futura utilização deste centro.

A iniciativa conta com a participação de cientistas da Universidade NOVA de Lisboa, Universidade do Porto, Instituto Gulbenkian de Ciência, INL, Universidade do Minho, Universidade do Algarve, Universidade de Coimbra, Universidade de Lisboa, Universidade da Beira Interior, Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge e Fundação Champalimaud.

Paulo Ferreira, diretor do Departamento de Microscopia Avançada, Imagens e Espectroscopia do INL, afirma ao Expresso que a instituição "tem todas as competências e infraestruturas adequadas para a instalação do novo centro" e explica que o investimento se destina à compra de dois microscópios eletrónicos. O centro vai ainda incluir um terceiro aparelho deste tipo, de última geração, que já existe no INL, onde trabalham 230 investigadores de 30 nacionalidades.

Ganhar visibilidade internacional

"Com esta iniciativa vamos conseguir atrair talento e empresas, nomeadamente startup's, bem como hospitais e a indústria farmacêutica", considera o professor catedrático do Instituto Superior Técnico (Lisboa). O objetivo é "criar um centro de criomicroscopia com visibilidade internacional", de modo a que "Portugal não fique para trás na investigação científica em relação aos seus congéneres europeus e internacionais". Por outro lado, “o novo centro irá ter um efeito profundo na investigação em ciências biológicas, permitindo a realização de projetos com alto impacto científico, tecnológico, social e económico, em particular na região Norte”.

Mas afinal o que é a criomicroscopia eletrónica? Basicamente é uma forma de microscopia eletrónica na qual a amostra biológica é observada a temperaturas muito baixas. Em Portugal, as aplicações de microscopia eletrónica em ciências biológicas e dos materiais estão muito difundidas. No entanto, os desenvolvimentos mais recentes não estão acessíveis à comunidade científica nacional.

Há microscópios eletrónicos utilizados para estudo de amostras biológicas em instituições como o Instituto Gulbenkian de Ciência em Oeiras, a Universidade do Porto e a Universidade de Coimbra, mas não têm as capacidades dos instrumentos de última geração, que têm dado origem a descobertas muito promissoras.

1600 imagens por segundo

Os três microscópios eletrónicos do novo centro do INL "vão ter acoplados sistemas que tiram 1600 imagens de 100 megabytes cada por segundo" (46 milhões de imagens por dia de trabalho) , revela Paulo Ferreira, que foi até há pouco tempo professor catedrático na Universidade do Texas em Austin (EUA). "Por isso vamos precisar de uma sistema computacional de elevada capacidade e uma das hipóteses em estudo é o uso do futuro Centro de Computação Avançada do Minho" (MAAC), da Universidade do Minho. "A criomicroscopia eletrónica vai ser aplicada às ciências da vida, abrangendo desde biomoléculas, células e tecidos celulares até novas formulações farmacêuticas", acrescenta o diretor do Departamento de Microscopia Avançada do INL. No âmbito desta iniciativa, o INL acolhe amanhã, sexta-feira, em Braga um encontro entre decisores políticos, docentes e investigadores, bem como representantes de empresas ligadas ao sector da saúde.

Como explica um comunicado do INL, "a criomicroscopia eletrónica é essencial para uma melhor compreensão dos processos fundamentais em biologia e imprescindível para que as áreas da saúde e biomedicina em Portugal possam contribuir para o tratamento de muitas das doenças existentes e para melhorar a qualidade de vida da população". A tecnologia esteve na origem do prémio Nobel da Química 2017, atribuído a três cientistas precisamente pela sua contribuição fundamental para o desenvolvimento da criomicroscopia eletrónica aplicada a materiais de origem biológica: Richard Henderson, Jacques Dubochet e Joachim Frank.

As metodologias desenvolvidas por estes cientistas foram acompanhadas de uma revolução tecnológica que está na base do grande desenvolvimento da aplicação da criomicroscopia eletrónica a sistemas biológicos. Por exemplo, a criomicroscopia eletrónica de partículas isoladas é utilizada para determinar a estrutura tridimensional de biomoléculas e vírus isolados, estudos que abrem caminho ao desenvolvimento de novas terapias para múltiplas doenças.