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Os nutricionistas estão chateados com o Governo, desafiam Centeno e vão fazer a volta a Portugal

A bastonária da Ordem dos Nutricionistas vai visitar 40 instituições. Quer “conhecer profundamente o contexto profissional dos colegas” e apresentá-lo depois “à tutela”

Foto José Caria

Acham que são poucos no Serviço Nacional de Saúde, que isso prejudica o país e que se está a desvalorizar estudos e investigações que comprovam como se morre por causa de maus hábitos e más dietas. Os nutricionistas estão preocupados

No dia em que iniciou um ciclo de visitas pelo país para fazer o “levantamento da situação profissional” da especialidade, a bastonária da Ordem dos Nutricionistas partiu com uma certeza: “o número de nutricionistas do Serviço Nacional de Saúde é claramente insuficiente” para as necessidades e é preciso que isto se altere.

Talvez por isso, para tornar mais expressivo o alerta, o calendário das deslocações de Alexandra Bento começou na região de Lisboa e Vale do Tejo. “É um paradoxo”, diz ao Expresso a bastonária. “Estamos na capital do país, numa zona geográfica densamente povoada, e esta é precisamente aquela que menos nutricionistas disponibiliza nos cuidados de saúde primários.”

Até novembro, Alexandra Bento percorrerá também as regiões do Alentejo, Algarve, Centro, Norte e Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira. Visitará centros hospitalares, mas não só. No total, passará por 40 instituições, o que lhe permitirá - assim espera - “conhecer profundamente o contexto profissional dos colegas, nomeadamente que dificuldades sentem, se são longas as listas de espera, se estão a ser feitos os rastreios de saúde necessários”.

A iniciativa corresponde a um anseio manifestado pelos próprios profissionais da especialidade, explica a bastonária, que antecipa muitos dos problemas que lhe vão ser relatados.

Tiago Miranda

“Apesar de nunca ter sido tão evidente a relação entre alimentação e saúde”, com estudos e investigações que comprovam como se morre por causa de maus hábitos e más dietas, “a realidade não se tem alterado no nosso país”, sublinha Alexandra Bento. “O ministro das Finanças afirmou recentemente que desde 2015 o número de profissionais de saúde aumentou em mais de 8 mil contratações, mas a verdade é que nesse grupo estão zero nutricionistas.”

A falta de planeamento paga-se cara, diz ainda a bastonária, recordando a dimensão e o impacto financeiro no país de doenças como a diabetes e hipertensão, “para citar apenas algumas das que estão relacionadas com maus hábitos alimentares”.

Apenas 123 nutricionistas nos cuidados primários de saúde

Alexandra Bento passa em revista os números do descontentamento. Quando o ideal seriam 500 nutricionistas colocados nos centros de saúde, esse total não é sequer atingido globalmente. “O Serviço Nacional de Saúde tem apenas 416 nutricionistas - 123 nos centros de saúde e 293 nos hospitais, o que dá uma média de 97 camas para cada um deles. O ideal seria não ir além das 75.”

Daí que a bastonária gostasse de ter começado este ciclo de visitas com uma boa notícia. No dia em que esteve reunida com o presidente da Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e Vale do Tejo, Luís Pisco, “seria simbólico” haver luz verde para a abertura do concurso que prevê a criação de 40 vagas para a colocação de nutricionistas nos centros de saúde. São lugares previstos no Orçamento do Estado, diz, e aguardados “com expectativa”. Isto depois de no ano passado o Ministério das Finanças “ter chumbado um outro concurso, que abria vagas para 55 nutricionistas”. “Pode ser que ajude ir para o terreno.”

O ciclo de visitas da Ordem é subordinado ao tema “O Nutricionista no Serviço Nacional de Saúde” e, assim que termine, será feito um relatório “com o retrato encontrado”. Para que os próprios nutricionistas o conheçam e “para que chegue ao conhecimento da tutela”. Na próxima deslocação, Alexandra Bento rumará para o Norte.