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Mensagem numa garrafa: um alerta de 35 metros desenhado no areal da praia do Mindelo

Durante duas horas e meia, um artista francês desenhou na areia da praia do Mindelo em Vila do Conde uma mensagem gigante, parte de uma iniciativa em seis países europeus alertando para o efeito que o plástico tem nos animais marinhos

É preciso aproveitar a maré baixa para que a areia tenha a consistência certa e o mar recue dando espaço suficiente. O francês J.Ben – nome artístico do webdesigner e especialista em construção na areia Jehan-Benjamin de 35 anos – levou duas horas e meia a deixar impressa na praia do Mindelo em Vila do Conde uma mensagem com 35 metros de diâmetro. Nela vê-se uma garrafa de plástico com uma baleia morta lá dentro e o título “Message in a Bottle” (Mensagem numa garrafa), deixando um recado direto: o plástico que consumimos está a poluir as águas e a afetar os animais marinhos.

Na sequência do desafio europeu de viver 40 dias sem plástico descartável, divulgado pela Quercus, Portugal foi um dos seis países escolhidos pelo European Environmental Bureau (EEB) a ter uma mensagem ‘impressa’ numa praia nacional. Espanha, França, Alemanha, Holanda e Reino Unido são os outros cinco países a receber estas “obras de protesto” contra a poluição de plástico no oceano. “É nosso objetivo sensibilizar para o problema e alertar para a necessidade de mudar hábitos de consumo, assim como separar corretamente os resíduos e encaminhá-los para o ecoponto amarelo, por forma a poder reciclar este tipo de materiais”, explica Carmen Lima, coordenadora para os resíduos na Quercus, que se associou à iniciativa.

O artista francês esteve pela primeira vez em Portugal e durante a manhã desta terça-feira deixou desenhada a mensagem no areal.

É a primeira vez que está em Portugal e esteve esta manhã a desenhar na praia do Mindelo. Como correu?
Foi mais difícil do que em França porque a areia é um pouco menos fina. Portanto, foi preciso trabalhar mais depressa para conseguir fazer o desenho e depois tirar as fotografias porque o sol e o vento faziam secar a areia muito depressa Mas mesmo assim correu muito bem e tivemos bom tempo. A praia era magnífica, tínhamos uma ótima paisagem e foi toda a gente muito acolhedora. Só tenho pena não conseguir ficar mais tempo.

Quanto tempo foi preciso para fazer o desenho na areia?
Duas horas e meia durante esta manhã. Foi tudo feito hoje. Ontem estive apenas na praia perceber as condições do local onde iria fazer o desenho.

Como foi decidida a imagem que iria desenhar?
Para este projeto, o desenho foi decidido em colaboração com o European Environemental Bureau, que me convidou para participar. Decidimos fazer uma baleia morta dentro de uma garrafa de plástico para sensibilizar para a mensagem dos efeitos da poluição marinha. Definimos isto em conjunto e depois eu trabalhei a ideia no papel precisamente como o iria fazer na praia. Em todas as praias onde vai ser passada esta mensagem há um desenho diferente, embora a ideia se repita assim como a frase ‘Break free from plastic’ [Liberte-se do plástico, em português].

Como é feito o trabalho na areia?
Primeiro decidi que o desenho teria 35 metros de diâmetro. Normalmente é tudo planeado e preparado em papel, mas algumas vezes faço o desenho diretamente na areia sem o ter planeado antes. Neste caso tinha o desenho pronto. Depois para o fazer na areia uso apenas um ancinho e para conseguir os círculos perfeitos utilizo uma corda. Enquanto trabalho, não tenho tempo para fotografar por causa da maré, do vento e do sol. Em média passo cerca de três horas até ter o desenho pronto e só no final é que fotografo.

É possível fazer um trabalho destes em qualquer praia?
Não. Só é possível fazer em praias onde a maré chegue. Ou seja, o que faço é esperar que a maré baixe e recue para poder trabalhar sobre a areia molhada. Ao passar com o ancinho, levanta-se a areia e é isso que faz o contraste. Portanto, só a areia molhada me permite trabalhar, o que também significa que é preciso fazer o desenho rapidamente.

Há quanto tempo faz estes desenhos?
Há quatro anos e meio, desde 2014. Foi quando descobri o trabalho de um americano e vi as fotografias das obras dele. Achei magnífico. Comecei a tentar fazer o mesmo para ver se conseguia. Creio já ter feito cerca de 150 desenhos em diferentes países – a maioria em França, porque é onde vivo, mas também fiz nos Estados Unidos, Marrocos, Holanda, Inglaterra e agora pela primeira vez em Portugal.

Qual é o impacto que estes trabalhos na areia têm nas pessoas?
Eles permitem passar uma mensagem. Faço-os para particulares, empresas e associações. Há quem me peça para desenhar pedidos de casamento e fazer comunicações de empresas ou associações.

E o que tem de diferente este tipo de mensagem?
Em primeiro lugar é uma forma de arte que não é muito conhecida. Quando as pessoas veem acham impressionante, até porque tem um tamanho muito grande. O que fiz hoje em Portugal tinha 35 metros de diâmetro mas pode chegar a ter 50 metros dependendo da maré. Tem esse lado impressionante pelo tamanho, mas também pela originalidade e o facto de ser feito na natureza. Tenho sempre muitas reações das pessoas quando partilho as fotografias finais. Sinto que estas imagens têm um efeito nas pessoas e creio que isso é o mais importante.