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No reino do sabonete

A nova tendência mundial de consumo são os produtos com memória. Os sabonetes e as colónias de marcas portuguesas tradicionais converteram-se em objetos de luxo e desejo

A história da nossa perfumaria nunca foi dada às fragrâncias complexas e intensas, criadas e elaboradas para sobressair no brilho dos salões. Por tradição, a história da perfumaria nacional sempre foi feita à base dos aromas simples e maturados ao sol, traduzidos nos cheiros suaves das águas de colónia e dos sabonetes embrulhados em papéis sofisticados. Se pronunciarmos as palavras lavanda, verde pinho, água de rosas ou musgo real, o que imediatamente nos vem à memória são os cheiros intemporais.

Nesta narrativa olfativa estão impressas as assinaturas de marcas e fábricas centenárias, que sobreviveram ao tempo e cuja identidade foi construída durante todo o século XX, renovando-se e transportando-se para o século XXI, e que se tornaram referências no mercado nacional. São disto exemplo casas como a Claus Porto, fundada em 1887 e adquirida em 1918 pela Ach. Brito; a Perfumaria e Saboneteira Confiança, fundada em 1894 e que atravessou as décadas seguintes com vários sobressaltos e também foi adquirida pela Ach. Brito em 2009; ou a Benamôr, especializada em cremes de beleza, que nasceu em 1925 e oito anos depois foi comprada pela Sociedade de Perfumarias Nally.

Loja Benamôr, em Lisboa

Loja Benamôr, em Lisboa

Durante a primeira metade do século XX — praticamente até à década de 80, quando se assinou o contrato de adesão ao mercado comum e os produtos internacionais invadiram as prateleiras das perfumarias e dos supermercados —, estas foram as marcas que lideraram o consumo dos portugueses, como os sabonetes e as colónias da Claus Porto, que sempre estiveram fora dos escaparates das drogarias, porque era uma marca de luxo, com os seus sabonetes envolvidos em embrulhos com desenhos e padrões magníficos, ou os eternos cremes de barbearia e a colónia Lavanda, da Ach. Brito, que se converteu em aroma de intensa nostalgia.

Linha de produção de sabonetes na fábrica de Sacavém na primeira metade do século XX

Linha de produção de sabonetes na fábrica de Sacavém na primeira metade do século XX

Também os cremes Benamôr, como o Alantoíne, de frescura cítrica e o mais famoso da gama, considerado o “nívea português”, e que acompanharam gerações de portugueses, estiveram praticamente esquecidos e regressaram agora ao mercado, com uma linha de rosto e de mãos renovada.

O novo clássico

Hoje, que os objetos vintage estão na moda, a perfumaria nacional rompe no mercado com o seu lastro de produção artesanal e um portefólio de grafismos e de memórias. Assim, os sabonetes, cremes e águas de colónia com assinatura de distinção nacional são agora elevados a objetos de desejo. “A tendência do mercado são os produtos de nicho, contra a globalização. As pessoas querem saber o que estão a consumir e querem histórias únicas. Neste sentido, Portugal tem grandes tesouros no sector da perfumaria, porque conservou marcas que souberam construir um património centenário e único que ficou impresso na memória coletiva”, revela Pierre Starck, administrador da Sociedade de Perfumarias Nally, que detém a marca Benamôr. Este parisiense, que durante vários anos trabalhou no marketing do grupo L’Oréal e foi o responsável em Portugal por marcas como Lancôme ou Biotherm, apaixonou-se pela história da empresa de cosmética que ainda conserva a sua fábrica em Sacavém, acabando por adquiri-la em finais de 2015. Desde então, já conseguiu romper fronteiras, e a sua intensão é transportá-la pelo mundo.

Lançamento da coleção de uma das marcas mais emblemáticas da empresa Ach. Brito, a Musgo Real, numa publicidade de 1936

Lançamento da coleção de uma das marcas mais emblemáticas da empresa Ach. Brito, a Musgo Real, numa publicidade de 1936

Na nova loja, inaugurada em novembro de 2017 no Campo das Cebolas, em Lisboa, os rótulos das embalagens ligeiramente retro brilham no mármore da grande bancada que ocupa o centro da sala. Nas paredes foram emolduradas fotografais antigas e uma carta da rainha D. Amélia, então no exílio, a falar sobre os cremes que usava. Pierre, que mergulhou no arquivo para conhecer a marca, entre os imensos registos de publicidade “de criatividade imbatível” e as fotografias de época, descobriu as máquinas antigas de fabricar o sabão, que novamente pôs a funcionar. E é neste trabalho de recuperar o que foi feito, preservando-o e reconstruindo-o com um modo de fazer contemporâneo, que está o segredo da longevidade.

Entrada da loja Claus Porto, na Rua da Misericórdia, em Lisboa

Entrada da loja Claus Porto, na Rua da Misericórdia, em Lisboa

É também nesta direção que se move a Claus Porto, que pela primeira vez na história da casa abriu duas lojas, uma no Porto e outra em Lisboa. Visitando o espaço recuperado desta última, na antiga farmácia da Rua da Misericórdia, em Lisboa, podemos ver os eternos frascos de colónia Musgo Verde e as caixas de coleções de sabonetes alinhadas nas prateleiras. Os cheiros, a que nos habituámos, foram recuperados em fragrâncias de aromas mais subtis, que são os que compõem agora a perfumaria contemporânea. A loja, que ocupa dois pisos, tem um espaço reservado, com apontamentos museológicos, trazidos do extraordinário arquivo, que também se pode percorrer nas páginas do livro comemorativo dos 130 anos da casa.