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Hospitais. Santa Maria e Pulido Valente em risco de perder formação de pneumologistas

Tiago Miranda

Médicos internos asseguram sozinhos urgências, incluindo nos cuidados intensivos. Ordem afirma que a decisão “afeta de forma inadmissível” os clínicos e a assistência aos doentes e avisa que vai impedir a especialização

O ditado popular diz que "à terceira é de vez" e será desta que a Ordem dos Médicos vai cumprir os avisos feitos aos hospitais de Santa Maria e Pulido Valente, em Lisboa, de impedir que continuem a formar pneumologistas e de agir disciplinarmente contra os responsáveis. As duas unidades são o maior centro da especialidade no país mas estão a violar as normas, colocando os médicos ainda em formação sozinhos na assistência às urgências externas, internas e até de cuidados intensivos.
As escalas irregulares envolvem os 25 internos de pneumologia das duas unidades, integradas no Centro Hospitalar de Lisboa Norte (CHLN), e foram denunciadas pelos próprios formandos há mais de um ano. Depois de reuniões com todos os internos e especialistas de pneumologia do CHLN, de uma visita do colégio da especialidade e de um aviso escrito da Ordem, ficou tudo na mesma. "Apesar das tentativas efetuadas de forma reiterada (...) certo é que as mesmas não surtiram qualquer efeito, tendo-se deparado com uma total indiferença por parte da direção de serviço e da direção clínica", e o bastonário cansou-se de esperar.
Na missiva agora enviada à administração dos hospitais, Miguel Guimarães 'corta a direito'. O bastonário sublinha que "não é aceitável que continuem a existir equipas do serviço de urgência interna da pneumologia a serem asseguradas apenas por médicos internos da especialidade, sem presença física ou de prevenção de qualquer médico especialista". Refere ainda ter tido "conhecimento de que os médicos internos são chamados a realizar sem qualquer supervisão ou tutela todo o tipo de atos próprios da especialidade, incluindo procedimentos invasivos". E deixa um aviso: "A situação, arrasta-se já há demasiado meses, é manifestamente ilegal e eticamente condenável."
O bastonário sublinha que o 'tratamento' dado aos internos de pneumologia "afeta de forma inadmissível os médicos em formação e os cuidados de saúde prestados aos doentes". Por outras palavras, "é uma questão de segurança clínica para os doentes e para os médicos. E perante tamanha ameaça, a Ordem contra-ataca: "A situação coloca seriamente em causa a idoneidade e capacidade para formar novos especialistas, o que, a manter-se, obriga a suspender de imediato a formação, a responsabilizar disciplinarmente os responsáveis e a divulgar publicamente tal situação como forma de proteger os doentes e os próprios médicos internos."
No Santa Maria e no Pulido Valente, mantém-se o silêncio. A administração do CHLN faz apenas saber que "foi questionada sobre o assunto pela Ordem dos Médicos (OM), estando a preparar a sua resposta", pelo que "não faz sentido, e não seria ético, responder à comunicação social antes de dar resposta à OM". Seja qual for a justificação a apresentar, os dois hospitais vão ser alvo de uma avaliação detalhada. Vários internos contaram ao Expresso que a prestação de cuidados 'sem rede' vai ainda mais longe. "Desde o meu segundo ano que faço urgência interna sozinho nos dias de escala em Santa Maria e tive colegas que também faziam consultas sem o tutor ou um especialista a quem pudessem recorrer, por exemplo para tirar uma dúvida", conta um formando agora na reta final.
"Como não se está a resolver nada, temos de avançar para uma visita para avaliar a idoneidade formativa ou para uma auditoria", adianta o bastonário. O presidente do colégio de pneumologia, Fernando Barata, não revela como vão atuar mas explica que, "no imediato, não poderemos colocar mais internos e temos de tentar que a situação nas urgências seja resolvida rapidamente". Caso contrário, "pode acontecer que o CHLN não receba internos em 2019, o que é drástico num centro como este, ter de retirar formandos de um momento para o outro".
Em Portugal há 22 centros de formação de pneumologistas, 18 dos quais com capacidade reconhecida pela Ordem para prepararem os especialistas durante todo o internato. Para o ano, o colégio da especialidade prevê autorizar a abertura de 36 a 37 vagas para formar novos pneumologistas.