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Longa marcha de Aníbal começou com um cerco

Os famosos elefantes de Aníbal a atravessar os Alpes não passam de uma lenda

d.r.

Ao cercar e conquistar Sagunto, na atual província espanhola de Valência, Aníbal Barca obteve uma base decisiva para o controlo do Mediterrâneo Ocidental e a organização da sua lendária marcha sobre a Itália. Mas como o conseguiu fazer?

Em 219 a.C., ao fim de oito meses de cerco, as tropas de Aníbal Barca conquistaram a cidade de Sagunto e o seu porto. Vinha aí a II Guerra Púnica mas, tanto as circunstâncias desta conquista como o que se lhe seguiu (a travessia dos Alpes a caminho de Itália, ameaçando Roma) ainda levantam muitas interrogações, sobretudo se tentarmos interpretar os acontecimentos do passado pelos olhos de hoje.

Foi este o tema da 5ª sessão do curso livre de História Militar Grandes Cercos do Mundo Antigo, dedicada a Sagunto. Esta iniciativa do Centro de História da Universidade de Lisboa decorre naquela faculdade todas as quartas-feiras até 2 de maio (exceção feita ao feriado do 25 de abril) na Faculdade de Letras. O orador foi José Varandas, docente e investigador do referido Centro.

A primeira dúvida relativamente ao cerco de Sagunto, entre Valência e Barcelona, tem – conforme explicou o conferencista – a ver com o desencadear desta segunda guerra entre Cartago e Roma. “Alguma historiografia, nomeadamente britânica, lê os acontecimentos através dos códigos do século XIX.” Ou seja, invoca-se um casus belli (o ataque cartaginês a uma cidade-estado da qual os romanos queriam fazer um protetorado) para apresentar um ultimato e justificar a declaração de guerra a Cartago. Ora, basta pensar no tempo que naquela época um mensageiro levava de Roma a Sagunto para perceber que este modelo não funciona.

Cidade estratégica bombardeada por Hitler

Talvez se percebam melhor os acontecimentos se olharmos para o que Sagunto representava. Desde logo uma posição estratégica importante, tanto na costa (porto militar e comercial) como na estrada para os Pirenéus que permaneceu até aos nossos dias e lhe valeu ser bombardeada pela aviação nazi durante a guerra civil espanhola (1936/39). Além disso na Ibéria do século III a.C. Sagunto era um importante centro de comércio aonde afluíam minérios e cereais, para além de estar fortificada e possuir tropas e armamento. Logo e como disse José Varandas, “para uma operação contra Roma a conquista da cidade e do porto de Sagunto era uma condição prévia”.

d.r.

Ao atacar Sagunto Aníbal Barca enfrentava dois problemas. O primeiro é que não tinha grande experiência de guerra de cerco. E o segundo é que se os combates se eternizassem haveria sempre o risco de poder chegar uma força de socorro romana.

“No mundo antigo” – referiu o conferencista – “talvez 80% dos cercos tenham terminado com a retirada dos sitiantes”. Isto porque a coberto das muralhas um número inferior de defensores pode aguentar os ataques de uma força muito superior desde que não faltem a comida e a água. Já quem cerca tem que dispersar forças a fazer a contravalação das muralhas e a manter aberta a linha de abastecimento, resignar-se a ter baixas horríveis nas tropas de assalto e tentar manter a higiene no acampamento sob pena do aparecimento de epidemias.

Nem torre, nem elefantes

Sagunto tinha muralhas concêntricas, sucessivos níveis interiores de defesa e assentava num esporão rochoso. Políbio e outros autores romanos falam numa gigantesca torre de cerco da altura das muralhas mas nem a arqueologia encontrou vestígios de tal arma, nem o declive do terreno tornava provável a sua utilização.

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Em vez disso, defendeu Varandas, Aníbal terá procurado pontos fracos na muralha exterior, provavelmente com troços em taipa e madeira, e tentado abrir aí uma brecha, nomeadamente através do fogo. Ainda assim oito meses de cerco dão uma ideia da força das sucessivas linhas de defesa existentes.

Políbio diz que Aníbal perdeu metade da força atacante (5000 homens), massacrou toda a guarnição e destruiu a cidade. O conferencista desconfia da lógica desta descrição por três razões: este nível de baixas teria privado o comandante cartaginês das suas melhores tropas para o posterior avanço sobre Roma e o seu interesse não era arrasar Sagunto, mas pô-la ao seu serviço.

O que levanta um problema interessante e pouco estudado, o da dimensão de Aníbal não só como general mas também como político e estadista. Esta vai ter que manifestar-se durante a travessia dos Pirenéus e sobretudo dos Alpes ao negociar com as tribos locais, nomeadamente gaulesas, não só o direito de passagem como o recrutamento de guerreiros.

Aníbal levantará uma hoste heterogénea com tradições militares, armamentos e culturas completamente diferentes mas que precisamente por isso, “ao introduzir heterogeneidade e imprevisto no campo de batalha surpreenderá os comandantes romanos, muito agarrados aos seus cânones de combate”.

d.r.

Já os famosos elefantes a atravessar os Alpes parecem relevar mais da lenda e da reencenação dos acontecimentos pelos olhos do século XIX que outra coisa, “tanto mais que a arqueologia nunca encontrou o mínimo vestígio de animais tão grandes”. De resto há que ser prudente a interpretar o que é desenterrado. José Hermano Saraiva chegou a falar da descoberta de ossos de um gigante que teria combatido em Aljubarrota quando, como depressa se confirmou, se tratava do esqueleto de um cavalo. Um gigante tão diáfano como os discursos recentes sobre as “vitórias portuguesas” feitos ao mais alto nível do Estado sobre o centenário do desastre de La Lys.