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Gulbenkian falha venda dos petróleos a empresa chinesa

Isabel Mota

Luís Barra

“A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu pôr termo à negociação que decorria com a CEFC para a venda da Partex”, informa a instituição. Em causa problemas reputacionais dos possíveis compradores, cujo presidente está sob investigação

Negociações terminadas. A Fundação Calouste Gulbenkian anunciou esta manhã que já não vai vender a Partex, empresa que concentra os seus ativos petrolíferos, aos chineses da CEFC. As negociações haviam já conduzido à assinatura de um memorando de entendimento, que assim é "rasgado".

"A Fundação Calouste Gulbenkian decidiu pôr termo à negociação que decorria com a CEFC para a venda da Partex", informa a instituição num curto comunicado enviado esta manhã às redações.

"Na sequência das notícias recentes vindas a público sobre a situação do grupo chinês e face à incapacidade desta empresa em as esclarecer cabalmente junto da Fundação, concluiu-se que não existem condições para continuar as conversações." A Gulbenkian invoca assim questões reputacionais da empresa chinesa para pôr fim ao acordo, cujo desfecho se previa para esta primavera. Faltavam os detalhes finais, incluindo o preço definitivo, embora já existisse uma ordem de grandeza definida.

Recorde-se que, no início de março, foi noticiado que Ye Jianming, fundador e presidente da CEFC China Energy, está sob investigação das autoridades na China. A Reuters avançava então que em causa estão suspeitas da prática de crimes económicos. Na altura, a publicação chinesa "Caixin" descrevia a CEFC como uma "empresa que se destaca tanto pelo seu sucesso, como pela opacidade da sua estrutura". E acrescentava: "A direção é altamente dividida e informação raramente circula entre diferentes segmentos do grupo".

No ano passado, uma proposta de 100 milhões de dólares (92 milhões de euros) da CEFC pela empresa financeira norte-americana Cowen Group foi travada pelo governo dos Estados Unidos por motivos de segurança nacional. Também nos EUA, uma investigação anticorrupção chamou a atenção para o grupo, após Chi Ping Patrick Ho, que geria uma organização não-governamental em Hong Kong financiada pelo CEFC, ter sido acusado por um tribunal de Nova Iorque de corrupção e lavagem de dinheiro.

O Departamento de Justiça norte-americano acusa Ho de ter subornado funcionários do Chade e do Uganda em troca de contratos para uma empresa de energia chinesa. Registos públicos indicam que Ho representava a CEFC China's China Energy Fund, em 2011.

Desaire

No mesmo comunicado da Gulbenkian, de apenas três parágrafos, a instituição liderada por Isabel Mota conclui: "Mantendo inalterada a sua opção estratégica relativamente à nova matriz energética, a Fundação dará continuidade ao processo de venda da Partex, tendo em conta os melhores interesses da Fundação e da empresa".

A decisão de venda dos petróleos mantém-se mas volta à estaca inicial. Em entrevista am Expresso publicada no final de fevereiro, Isabel Mota, presidente da Gulbenkian, explicava que a fundação estava a preparar o futuro “enquanto era pós-petróleo”, salvaguardando que “o que faz o ADN da fundação não são as suas formas de financiamento, é a sua forma de atuar e de intervir na sociedade”.