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Como é possível um bebé nascer quatro anos depois de os pais morrerem?

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Caso que aconteceu na China provocou espanto um pouco por todo o mundo. Em Portugal não seria possível suceder o mesmo - a legislação não o permite

Tiantian tens os olhos parecidos com os da mãe, mas de resto é igual ao pai. O menino nasceu em dezembro de 2017, na China, e nunca conheceu os pais. Tiantian era ainda um embrião quando os pais morreram. Nasceu de fertilização in vitro: o embrião que se transformou em feto, cresceu e se tornou um bebé esteve congelado por quatro anos – qualquer coisa como 48 meses ou 1461 dias. No ano passado, os avós conseguiram a custódio do embrião, contrataram uma barriga de aluguer e o menino nasceu.

Quando se inicia um processo de fertilização in vitro são recolhidos os ovócitos da mãe e os espermatozoides do pai. Os embriões formam-se durante aproximadamente um dia. Entre dois a seis dias depois marca-se o transplante de um ou dois embriões, os que apresentarem melhores condições ao desenvolvimento, para a cavidade uterina da mãe. Os restantes são congelados e podem ser usados para uma segunda tentativa de gravidez do casal ou até para um segundo filho. Nessa altura, o embrião é descongelado e o processo repete-se.

“Os embriões são descongelados no dia da trasferência”, explica ao Expresso Catarina Marques, ginecologista da clínica de fertilização IVI Lisboa.

De forma simplista, congelar um embrião é quase como congelar uma alimento que comprou fresco no supermercado mas que não vai cozinhar nos dias seguintes. É então congelado através da vitrificação – técnica química de congelação rapidamente e que evita a formação de cristais de gelo – e fica guardado a temperaturas muito baixas. No dia em que estava prevista o transplante do embrião para a cavidade uterina, este é deixado a descongelar. Tal como o alimento. “Claro que isto implica meios e técnicas próprias, é sobretudo uma processo laboratorial”, explica a ginecologista.

Shen Jie e Liu Xi estavam casados há dois anos quando decidiram ter filhos, mas tiveram de optar pela fertilização in vitro. Fizeram a recolha dos ovócitos e espermatozoides, os embriões formaram-se. Marcaram a data para o transplante do embrião. Dias antes, o casal teve um acidente de carro na província chinesa de Jiangsu, em março de 2013. Não houve sobreviventes.

Mas quando tudo aconteceu, já havia embrião. E os avós maternos e paternos quiseram ter o neto. Foram para tribunal, lutaram pela custódia de quatro embriões congelados numa batalha judicial, segundo a imprensa chinesa, sem precedentes.

Os avós ganharam o poder dos quatro embriões e viajaram até Laos – porque na china não é ilegal contratar uma barriga de aluguer – e escolheram uma mulher para carregar a gravidez.

A vetrificação é a técnica de congelação

A vetrificação é a técnica de congelação

BSIP/ Getty Images

Os quatro embriões de Shen Jie e Liu Xi estiveram quatro anos congelados. A pergunta é inevitável: como é possível que uma criança nasça quatro anos depois dos país terem morrido? Em Portugal, isto nunca acontecia, porque a morte de um dos dadores inviabiliza a continuação do processo de fertilização. No entanto, é possível manter embriões congelados num máximo de seis anos.

Podem ficar três anos e ser mantidos por outros três anos, se esse for o desejo do casal”, explica a ginecologista Catarina Marques. “Teoricamente, com o passar do tempo não perdem qualidade. Os seis anos são uma regulamentação legal”, acrescenta, lembrando que atualmente a probabilidade de um embrião sobreviver bem à descongelação é muito alta.

Jorge Soares, presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (CNECV), tem uma opinião diferente e diz que não há garantias de que os embriões que fiquem tanto tempo congelados sejam viáveis. “Não sabemos se um embrião que esteve congelado quatro ou cinco anos está em condições para se desenvolver. Se os dadores perguntarem a um médico se biologicamente aquele embrião é saudável, a resposta será ‘pode ser’. Ora, se pode ser, não há garantias que o seja nem que deles se desenvolva um feto normal.”

Tiantian nasceu em dezembro do ano passado em Cantão, na China. Desde então, os avós foram legalmente obrigados a provar a relação familiar com o menino através de testes de ADN.

“O projeto parental tem de ser respeitado. Vem do desejo de duas pessoas, dos dadores das células germinativas. Termina na responsabilidade dos pais o projeto parental. O que existe nos avós é a responsabilidade moral da educação da criança, não de embriões. E estes só constituem uma criança quando são transferidos para a cavidade uterina com sucesso”, defende Jorge Soares. “Esta parece-me uma história cuja veracidade me custa a acreditar, é demasiado fantasiosa. Se esta história é realmente verdade, parece-me um capricho, não foi para o bem do embrião, foi para o bem da cabeça dos avós.”

Quando crescer, os avós vão contar a Tiantian as circunstâncias em que nasceu. “Como poderias não fazê-lo?”, questiona Shen Xinan, avó paterno.

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    Avós de Tiantian venceram longa batalha judicial pela custódia dos embriões congelados deixados pelo casal sinistrado. Em janeiro do ano passado, com a ajuda de uma agência clandestina, foram ao Laos para encontrarem uma mãe. A maternidade de substituição é proibida na China