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A última aula do professor que nunca marca faltas

Álvaro Cunha

Luís Melo tornou-se engenheiro químico para nunca ter de vir a dar aulas, mas a vida ensinou uma saborosa lição ao catedrático de 70 anos. Na quarta-feira despediu-se da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e até deu música durante a última aula

A aula começa. Todos ouvem música, mas estão atentos. O professor está a tocar guitarra elétrica, a atuar com a banda que o acompanha. Os acordes de “Shine On Your Shoes” ecoam na sala. O professor nunca marca faltas, até porque acredita que “alguns alunos não precisam de estudar”. Ainda assim, todos quiseram marcar presença. O auditório da Faculdade de Engenharia do Porto da Universidade do Porto (FEUP) encheu-se de alunos, colegas e familiares do cientista, pintor e músico Luís Melo, durante a cerimónia de jubilação do professor catedrático. Depois dos discursos de homenagem, o experiente engenheiro biológico e químico deu início, com arte e engenho, à derradeira classe.

“Isto é uma aula. Espero que tenham trazido os blocos de notas. No final não sei se não haverá um exame”, avisou. E o Expresso esteve presente, na quarta-feira, para lhe trazer os apontamentos da carreira de um homem que não queria ser professor, mas passou com distinção na atividade como docente. Luís Melo projetou um futuro como engenheiro, confiante de que isso o desviaria de uma carreira universitária, mas a vida ensinou-lhe uma agradável lição.

Proveniente de uma família com fortes laços ao Direito, encontrou a vocação por linhas tortas. Aprendeu a gostar de ensinar, um fascínio tão preponderante como aqueles que nutre pela investigação científica, arte, filosofia e história. “Às vezes, as escolhas que fazemos para atingir os objetivos que traçamos não são tão importantes como isso. O que realmente interessa é o modo como caminhamos para esses objetivos e as pessoas que escolhemos para caminhar connosco”, afirmou o professor, grato a todos os alunos e colegas com quem se cruzou na longa jornada profissional. E, dirigindo-se para a esposa, agradeceu particularmente à “jovem” que o acompanha há mais de 40 anos.

Catedrático na ciência, magistral na produção e promoção cultural. Assim é Luís Melo, nascido no Porto há 70 anos. Começou a tocar piano aos 10, mas a adolescência acabaria por ser pautada ao ritmo das melodias dos Beatles. Aprendeu a tocar guitarra, sozinho, quando tinha 17 ou 18 anos. Durante o percurso como estudante universitário, na Universidade do Porto, foi responsável por três programas de rádio e escreveu para a revista “Mundo da Canção”, além de ter fundado o jornal de música “Memória do Elefante”.

No vasto currículo como académico destaca-se o papel pioneiro desempenhado na criação do primeiro curso em Portugal na área da Engenharia Biológica, na Universidade do Minho, em 1985. Mais tarde, ainda na UM, o engenheiro foi também um dos obreiros que contribuiu para erguer o Instituto de Biotecnologia e Química. Pelo meio, esteve igualmente na origem do primeiro grupo de investigação em Biofilmes do país.

“Alguém devia organizar uma cerimónia de jubilação para a burocracia”

Amante de jazz, Luís Melo chegou à Faculdade de Engenharia do Porto em 2000, já como professor catedrático e foi o responsável pela criação do Comissariado Cultural, tendo desempenhado um papel fulcral na origem do Grupo de Jazz, das oficinas de teatro e pintura e, mais recentemente, na génese da Orquestra Clássica da FEUP. Com uma vida profissional dedicada à investigação e à produção de massa crítica, a difusão de dinâmicas culturais esteve sempre presente. “Entre a cultura e a ciência não há grandes diferenças. Há duas características que as aproximam: o gosto pela descoberta e a criatividade”, frisou o antigo responsável pelo centro de investigação LEPABE - Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologia e Energia.

Durante a última aula, Luís Melo falou, entre outros assuntos, de vários tipos de resistências, como é o caso do atrito. Ao seu estilo, em que até as palavras assertivas saem macias, estabeleceu pontes com a sociedade, com a cultura e até com a política. “Alguém devia organizar uma cerimónia de jubilação para a burocracia”, afirmou, lamentando as amarras das universidades face ao poder central, que transforma os reitores em “executantes, quando deveriam ser executivos”.

Sem oportunidade de marcar presença na despedida de Luís Melo à Faculdade de Engenharia, o reitor da Universidade do Porto, Sebastião Feyo de Azevedo, fez-se ver e ouvir através de uma mensagem gravada em vídeo, na qual adjetivou o colega como um “exemplo de qualidade”, apresentando-o como “uma pessoa com um conjunto de valências muito raro” e realçando o “grande contributo” do ponto de visto científico e pedagógico. “Na componente cultural, deu uma dinâmica da atividade da FEUP e da universidade que é absolutamente relevante e digna de registo”, frisou ainda o reitor da UP.