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O dia em que Zuckerberg foi quase igual ao resto dos utilizadores do Facebook

Não haverá muito mais gente tão poderosa, influente e omnipresente como ele (e haverá ainda menos gente que congregue tudo isso em simultâneo): Mark Zuckerberg. Mas todos prestam contas algures nas suas vidas e o dono do Facebook teve de fazê-lo durante dois dias consecutivos perante o congresso dos EUA: primeiro foi ao Senado, depois à Câmara dos Representantes. Este é o resumo do segundo dia, no qual ficámos a saber - ou pelo menos foi o que ele disse - que Zuckerberg tem algo que o aproxima do resto dos utilizadores do Facebook: também lhe roubaram dados

LEAH MILLIS

Facebook/Cambridge Analytic

“Também os seus dados foram vendidos maliciosamente a terceiros?”, perguntou Anna Eshoo, congressista democrata do estado da Califórnia.

“Sim. Também a minha informação pessoal foi vendida a entidades insidiosas ”, respondeu Mark Zuckerberg.

A afirmação confirmou o que o perfil do criador do Facebook está entre os afetados pelo roubo de dados da Cambridge Analytic, acusado de ter "saqueado" dados para ajudar Trump a vencer. Uma vez mais, insistiu que o incidente com a Cambridge Analytica aconteceu antes de o Facebook ter melhorado “amplamente” as ferramentas de proteção de dados e que hoje em dia já não seria possível acontecer a mesma falha.

“Já os banimos da plataforma e vamo-nos certificar que ficam sem os dados a que tiveram acesso”, disse, acrescentando que há mais investigadores de Cambridge a fazerem investigação académica do género à que deu origem à fuga de informação e, por isso mesmo, é preciso ver o que se passa na Universidade de Cambridge.

Questionado se o Facebook está a pensar processar a Cambridge Analytic, Zuckerberg respondeu: “É algo que estamos a avaliar”.

Acesso, partilha e venda de dados

LEAH MILLIS

Há algo que ficou bem claro nas mais de cinco horas de audição na Câmara dos Representantes: a maioria parece ver com bons olhos a regulamentação a ser esboçada pela União Europeia para a proteção de dados privados. E, por isso, os congressistas levantaram várias vezes essa questão. Zuckerberg nunca se mostrou totalmente a favor, mas também não se opôs.

“Acho que vamos identificar aquilo que queremos pôr em prática e daqui a uns anos vamos voltar a estar aqui e saber muito mais. Mas acho que isso vai demorar muito tempo.. Já na terça-feira, perante o Senado, sublinhou a importância de saber como fazer essa regulamentação de forma acertada.

“É preciso ter atenção à regulação porque às vezes as empresas maiores têm mais recursos e podem facilmente cumprir com essa regulação, enquanto uma startup não consegue”, alertou.

Também repetidamente os congressistas perguntaram sobre os dados a que o Facebook tem acesso e quem os consegue ver. As respostas foram sempre as mesmas, apenas com alguma nuances: “cada pessoa tem total controlo sobre a sua informação”, “vocês controlam os vossos dados, não têm de partilhar qualquer coisa connosco”.

Outra da garantias deixada foi que o Facebook não vende dados a empresas, sejam anunciantes ou não. E o facto de apps associadas à rede social o terem feito não faz da rede social cúmplice, defendeu Zuckerberg.

O CEO esclareceu ainda que quando alguém apaga a conta no Facebook, não é possível voltar a encontrar esses dados. “Se apagar o perfil, certificamo-nos que ninguém o encontra depois. Uma vez apagado, esse conteúdo é desmantelado e não somos capazes de voltar a disponibilizá-lo”.

Privacidade

SHAWN THEW

O objetivo do Facebook é simplificar e permitir o equilíbrio entre a “portabilidade de dados” de uma aplicação para outra quando o utilizador assim o desejar e a “privacidade de dados”. Mas esse mesmo objetivo, admitiu Zuckerberg, falhou e permitiu a que terceiros tivessem acesso a dados que não deveriam ter. “Não fizemos isso bem.”

Embora tenha referido várias vezes que o Facebook permite personalizar as opções de privacidade, Zuckerberg admitiu que boa parte das pessoas não as usa. Porquê? Talvez porque estão a receber anúncios “relevantes”, justificou.

Rússia, China e Obama

Não vemos essa atividade.” Assim respondeu o CEO do Facebook à questão se há possibilidade de a China ou a Rússia terem feito algo semelhante à Cambridge Analytica. No entanto, enquanto explicava as várias categorias de fake news consideradas pela rede social, revelou que nas últimas semanas foram desativados alguns perfis falsos na Rússia. “Tinham como objetivo influenciar a cultura russa”, justificou, insistindo que não tem “conhecimento de ter fornecido qualquer informação” aos russos.

Zuckerberg assegurou também que a ambas as candidaturas finais para as presidenciais norte-americanas de 2016 foram “aplicados todos os nossos padrões” e que nem Donald Trump nem Hilary Clinton tiverem qualquer tipo de benefício.

Quando Alexandar Kogan [o investigador da Cambridg Analytica] vendeu os dados do Facebook, violou as políticas do Facebook?”, questionou mais tarde um dos congressistas presentes. “Sim”, respondeu Zuckerberg. E o congressista voltou a perguntar: “Quando a app de Obama recolheu informação, foram violadas as políticas do Facebook?”. A resposta foi diferente: “Não”.

Em causa está uma app usada pela campanha de Obama para a reeleição, que tinha uma função semelhante para recolher informação das pessoas que tinham feito download da app e dos seus amigos – mesmo que estes não tivessem feito download da aplicação.

Conteúdos e terrorismo

SHAWN THEW

No Facebook trabalham cerca de 200 pessoas numa espécie de unidade contra o terrorismo. O Facebook estima ter conseguido eliminar 99% do conteúdo terrorista de grupos extremistas como o Daesh e a Al-Qaeda.

“Acho que temos capacidade para trabalhar em 30 línguas, além disso temos uma série de ferramentas de inteligência artificial que estão a ser desenvolvidas para acrescentar àquelas que já temos”, explicou.

Zuckerberg lembrou que para fazer um melhor controlo dos conteúdos publicados é preciso combinar as pessoas com os sistemas de inteligência. “Nunca o número de pessoas que possamos contratar vai ser suficiente. Temos de confiar em sistemas e precisamos de mais.”

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    A habitual t-shirt cinzenta foi trocada por um fato escuro e uma gravata azul. Em vez de palavras escritas numa publicação no Facebook, Mark Zuckerberg teve de ir esta terça-feira ao Congresso norte-americano – é a primeira de duas audições – para responder a dúvidas sobre o escândalo Facebook/Cambridge Analytica. Listamos 19 momentos de Zuckerberg que explicam o fundamental de cinco horas de depoimento e de uma forma de estar naquele que é o mundo destes dias