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Isabel não foi nem é a menina galinha

Chamaram-lhe “menina galinha”. Nos anos 80 foi capa de jornais e a sua história contada dezenas de vezes – Manuela Ramalho Eanes, na altura primeira-dama, chegou a intervir. Isabel Quaresma tinha nove anos quando foi tirada à mãe, diziam que vivia num galinheiro rodeada de galinhas, apenas com couves e uma caneca de café. Passava lá tanto tempo que ganhara jeitos e tiques de bicho. Mas a história não é assim. Voltámos ao local onde tudo aconteceu. E descobrimos que Isabel já consegue chorar

Marta Gonçalves

Marta Gonçalves

Texto

Jornalista

Joana Beleza

Joana Beleza

Vídeo e fotos

Em 1991, o Expresso esteve com Isabel a propósito de uma reportagem sobre deficiência

António Pedro Ferreira

“Fome! Tenho fome.” Idalina clamava na rua. “Fome! Tenho fome.” Na noite de Natal, Idalina gritava: “Fome! Tenho fome”. Uma vizinha ouvia-lhe o desespero e doía. Pegou numa broa, numa manadinha de batatas e noutra de feijão - que nunca viria a ser cozido porque era preciso gastar gás - e deixou à porta de Idalina. Aos 30 e poucos, Idalina Quaresma, que ficara com lesões cerebrais por uma meningite que a apanhou em miúda, vivia na casa de pedra quase ao fundo da rua com a filha Isabel, 9 anos e deficiente profunda.

Este seria apenas um retrato de miséria e pobreza se a família Quaresma não tivesse chegado às páginas dos jornais em janeiro de 1980. Isabel foi tantas vezes chamada “menina galinha” porque teria vivido por mais de oito anos num galinheiro. Supostamente, a mãe - ao sair para trabalhar no campo - deixaria a filha apenas na companhia de galinhas, couves, milho e uma caneca de café. O tempo que estaria ali fechada era tanto que Isabel ganhara tiques, formas e traços de uma galinha, escreveu-se na época. Mas Isabel nunca viveu com galinhas. Nunca.

Já lá vãoquase 40 anos. “Não havia animais. A menina estar com as galinhas? Isso é mentira. A menina cacarejar? Não me lembro nada disso. É mito.” Manuela Brito, 76 anos, a vizinha que no dia de Natal ouviu Idalina gritar, recorda que a família era tão pobre que nem tinha dinheiro para manter uma galinha. “Não sei bem como era a casa, na altura era muita novinha. Galinhas não havia”, insiste também Fernanda Pereira, sobrinha de Idalina e prima de Isabel. Mas isso não tira um pedaço da tristeza à história da criança proibida de viver além de uma varanda. Da menina deixada ao descuido. Da Isabel que um dia foi levada para longe da mãe. “Foi a sorte dela, ainda bem que alguém lhe pegou.”

Menos de dez quilómetros separam a Devaqueira do centro da vila de Tábua, em Coimbra. No final dos anos 70 não viviam ali mais de oito pessoas. Agora “devem ser menos de meia dúzia, que ainda ontem enterrámos mais um”. Feliciano esteve muitos anos emigrado, não viu grande coisa, soube pelos jornais que a “menina galinha” era da sua terra. Os poucos que ainda lá estão sabem logo do que se fala. Lembram-se do reboliço de jornalistas. Recordam os carros, as pessoas, a visita da mulher do Presidente e a história que os levou a todos àquele lugar esquecido e escondido no centro do país.

Até aos 9 anos, Isabel ficou boa parte do tempo sozinha. Ora na varanda na frente da casa, virada para a estrada, ora numa divisão escura da casa – chamada galinheiro, curral ou forno. Estava quase sempre suja, com fome e por vezes ao frio. Passava ali horas até a mãe regressar. Nunca foi à escola.

“Só a via na varanda. Ela urinava, fazia as fezes, apanhava e comia. Não comunicava com ninguém, coitadita. Lá dizia ‘ah ah’ mas não falava. Percebia-se que tinha uma deficiência profunda. Às vezes chegava-lhe uma pinguinha de água ou um pedacinho de pão. Tirando isso não me metia, andava na minha vida”, conta a vizinha Manuela, hoje com 76 anos. “No inverno, a Isabel ficava perto do forno com o lume acesso para ficar mais aconchegada no quente. Não sei o que se passava mais.”

O dia está cinzento, frio. A humidade que cai é tanta que os pés escorregam pelas pedras do caminho irregular. O silêncio é interrompido de quando em quando pelas canções dos pássaros ou pelo cacarejar das galinhas dos vizinhos. A casa - ou o que dela sobra - não é difícil encontrar. “A da Idalina que tinha problemas? Sei, pois. É ali em baixo”, apontam. Só restam algumas pedras, paredes ruídas, janelas sem vidro e telhado sem telhas. O verdete toma o lugar do vermelho tijolo, as silvas apoderam-se do local. A entrada para o galinheiro está tapada. A varanda já não existe.

A Devaqueira é habitada atualmente por “meia dúzia de pessoas”

A Devaqueira é habitada atualmente por “meia dúzia de pessoas”

Joana Beleza

Nem família nem vizinhos sabem ao certo quem é o pai de Isabel. “Apareceu grávida, ela andava por aí assim…” Mais tarde, Idalina engravidou outra vez e nasceu Paula, também com deficiência mental.

Hoje, Isabel tem 47 anos. Em julho fará 48. Continua a parecer bem mais nova do que é. O rosto, que tantas vezes foi descrito como o de uma galinha, é parecido com o da mãe Idalina e da irmã mais nova Paula, ambas institucionalizadas em centros sociais em Tábua.

As três Quaresmas são parecidas: cabelos espessos e escuros com poucos centímetros de comprimento, faces alongadas e afinadas, olhos amendoados. A cabeça de Isabel é a mais pequena, o corpo o mais curvado. É a mais baixa. A instituição onde está internada há 22 anos, na zona centro do país, não quer expô-la por uma questão de “respeito à privacidade e dignidade humana”. Prefere manter a menina – como insistem em chamá-la – longe dos curiosos, dos jornalistas que noutros tempos tanto a fotografaram e dos investigadores que tanta sede têm de a conhecer. Os pedidos de estudo chegam de académicos nacionais e internacionais. O centro recusou sempre.

Isabel anda devagarinho. Fala por gestos. Come com colher. Faz jogos e pinturas. Pede e dá beijinhos. Acalma-se com abraços. Vive na mesma casa que outras 90 mulheres com deficiência. Tem o nível cognitivo de uma criança de quatro ou cinco anos. Quando precisa de alguma coisa, pede através de sons muito altos. Aquilo que parece um momento de aflição é, na verdade, apenas um pedido de ajuda para se levantar da cadeira. Isabel quer ir dar um beijinho à amiga. Isabel “está bem, é feliz”.

Nos anos 80, a menina foi descrita pelos médicos como “profundamente triste no seu sentir” e não chorava porque chorar “é a primeira forma de comunicação do ser humano e ela levou a sua curta existência votada ao mais completo dos abandonos”. Hoje, quando está triste, já chora. Quando está feliz, bate palmas.

Foto tirada a Isabel em 1991

Foto tirada a Isabel em 1991

António Pedro Ferreira

“Foste e és muito importante para mim”

Em 1976, Isabel foi levada pela tia ao hospital de Torres Vedras. Tinha seis anos. A fisionomia e o grau de desenvolvimento mental inferior ao esperado para a idade despertaram a curiosidade. Aos poucos, a história da menina que vivia fechada num galinheiro foi-se espalhando. E chegou até Maria João Bichão, na altura técnica de radiologia e muito à frente para o seu tempo.

“A mãe punha a menina no galinheiro, onde havia uma arca de salgar os alimentos. Foi esta a história que me contaram”, diz ao Expresso Maria João Bichão. Sem parar para pensar, pediu ajuda a um bombeiro e foi buscar Isabel.

Agora com 73 anos, os detalhes já não correm frescos na memória de Maria João, mas se hoje visse a casa onde esteve não teria qualquer dúvida. Pára para pensar um pouco. Uns segundos de silêncio e, de olhar distante, como se estivesse a rever cada uma dos segundos daquele momento, Maria João começa a descrever. Nos degraus das escadas de acesso à casa de Idalina estava uma criança sentada, os vizinhos apareceram para ver o que estava a acontecer. Maria João entrou na casa e desceu umas escadas, chegou a uma divisão de chão em terra e escuro. Um lugar para os animais, não para uma menina.

“Encontrei-a no galinheiro. Pequenita, a brincar. ‘Raios partam quem a fez’, pensei e agarrei-a. Apareci a uma hora que ninguém contava. Estava mal vestidita, de roupa clara. Não estava bem. Sei que lhe dei uma bolacha e tive de a partir para ela vir à minha mão buscá-la.”

A capa do jornal “A Capital” de 28 de janeiro de 1980, uma das muitas em que Isabel foi protagonista

A capa do jornal “A Capital” de 28 de janeiro de 1980, uma das muitas em que Isabel foi protagonista

Arquivo

Ninguém disse nada a Maria João. Mas Maria João disse “coisas muito feias e que não se podem repetir” à mãe de Isabel. “Leve, leve que é a sorte dela”, disseram-lhe os vizinhos quando voltou à rua com a menina aninhada no colo. “O cenário era triste, a criança não tinha saúde. Era muito magrinha, não era normal.”

Isabel e Maria João não falaram. Conheceram-se pelos gestos, pelo afetos, pelo mimo. Por dez dias, talvez 15, Isabel viveu em Póvoa de Penafirme, Torres Vedras. Tomou banho, brincou, aprendeu a comer com talheres. Foi vista e acompanhada por médicos, primeiro em Torres Vedras, depois em Lisboa, no Hospital de Santa Maria.

“Mostrei-lhe um sardão. Não sei se já alguma vez tinha visto um.” Maria João não era casada, partilhava ainda casa com amigos. À noite, Isabel dormia na sua cama e reagia assim quando via Maria João: “Oão, Oão”. “Tentei brincar, tentei ensinar. Era uma luta para tomar medicamentos. Ria-me, brincavam com a bola. Tentava que ela jogasse. Já pegava nuns bonecos. Dei tudo o que tinha à Isabel.”

O tudo não foi suficiente. Maria João, que trabalhava por turnos e ainda não tinha a vida organizada, percebeu que talvez não tinha o que era preciso para cuidar de Isabel: faltava-lhe o tempo, o dinheiro também e talvez a maturidade. Foi ter com as Irmãs de S. José de Cluny e entregou-lhes Isabel.

Era fim do dia quando a noite começava a cair e teve de se despedir. “Disse-lhe ‘foste e és muito importante para mim’.” E virou costas. De Isabel não guardou nada. Nem roupa nem a bola com que brincavam. “Não fui mulher naquela altura. O termo exato é acagacei-me. Faltou-me força, tive medo e não adotei a Isabel. Não fui mulher e aos 30 e poucos anos uma mulher já não é pequena.”

Isabel voltou depois a ser entregue à mãe. Regressou à varanda e ao galinheiro.

Um tacho dentro das ruínas da casa onde Isabel morava

Um tacho dentro das ruínas da casa onde Isabel morava

Joana Beleza

Mesmo longe, Maria João não sossegou quando soube que Isabel tinha regressado à mãe. Alertou o “Diário de Notícias” que havia uma menina a viver num galinheiro em Tábua. A história interessou e o jornal publicou a primeira reportagem sobre Isabel Quaresma, a “menina galinha”. Poucos dias depois, outros jornalistas quiseram saber mais detalhes, o país também.

Manuela Ramalho Eanes, que à época era primeira-dama, também ouviu falar do caso e não ficou indiferente. A mulher que viria a fundar o Instituto de Apoio à Criança, em 1983, ainda antes da Convenção dos Direitos da Crianças ser aprovada pelas Nações Unidas, foi até à Devaqueira buscar Isabel.

“Lembro-me que comprámos um urso enorme para lhe dar. E lembro-me que quando a fomos buscar ela estava muito suja, muito mal cuidada. As janelas do carro vieram abertas o caminho até Lisboa porque não se aguentava o cheiro”, diz ao Expresso Manuela Ramalho Eanes.

À época, escreveu-se que o rosto de Isabel tinha traços semelhantes aos de uma galinha, a cabeça demasiado pequena para o corpo, os olhos grandes e rasgados, os lábios e os dentes tinham-se desenvolvido como se fosse um bico. “Uma criança de corpo disforme, subnutrida, aparentando uma idade que não tem, gesticula ao colo de uma senhora”, descrevia “A Capital” a 28 de janeiro de 1980.

“Não tenho desta menina uma história colhida segundo as normas da objetividade que nós, médicos ou psicólogos, geralmente colhemos. Não posso, portanto, confirmar se a criança foi ou não criada nas condições referidas pelos jornais. Em relação ao passado da criança, não posso pronunciar-me com objetividade”, afirmava na altura João dos Santos, pedopsiquiatra, que acompanhou Isabel a pedido de Manuela Ramalho Eanes.

Foi um dos primeiros médicos em Lisboa que esteve próximo da menina logo após ter sido retirada à mãe. “Trata-se de uma criança com uma insuficiência mental muito provavelmente por motivo de abandono afetivo e social. O comportamento da Isabel situa-se num nível biológico elementar, isto é, das ações e reações primárias de um ser animal ou humano”, descrevia João dos Santos a 8 de fevereiro de 1980 ao “O Jornal”. Isabel reagia às pessoas, pedia colo, queria atenção independentemente de quem fosse (“o que não aconteceria com uma criança normal da sua idade num meio desconhecido”).

Na Devaqueira, a casa da família está em ruínas

Na Devaqueira, a casa da família está em ruínas

Joana Beleza

Em Lisboa, Isabel foi internada no Centro Ocupacional Luís Rodrigues, na zona das Janelas Verdes, onde esteve perto de 15 anos - a instituição foi entretanto fechada pela Segurança Social.

Maria João Bichão ainda esteve com Isabel na capital. Anos mais tarde, voltou a encontrá-la. Hoje, vai sabendo dela através de amigos. “Tirei uma fotografia à Isabel? Não. Porquê? Não quis uma foto da Isabel naquele estado. Queria uma foto da Isabel como está agora, como a vi há alguns anos, gordinha… Assim é que queria uma fotografia da Isabel.”

Isabel Quaresma não foi a menina galinha. Não, Isabel Quaresma não é uma mulher galinha. A Isabel é a Isabel. E a Isabel está bem.