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“É emocional, impulsivo, há uma motivação altruísta”: uma pessoa caiu ao mar, duas tentaram salvá-la, desapareceram as três

RUI MINDERICO/ Lusa

São momentos em que não se pensa, em que o instinto de ajudar é mais forte, em que o raciocínio não existe. Dois homens entraram esta segunda-feira no mar, no Meco, para salvar uma amiga que caiu na água enquanto fazia parapente - qualquer um deles sem preparação ou sem pensar nas consequências. Atiraram-se apenas. Desapareceram os três, um já foi declarado morto. O que é que nos diz a psicologia sobre o nosso instinto: porque é que há quem se atire à água nestas circunstâncias e outros chamam as autoridades?

É um voo livre: ali no ar toma-se o total controlo da asa, escolhe-se o caminho, como e quando se volta a tocar no chão. Pode ficar-se a pairar por longas horas. O parapente é uma modalidade muitas vezes praticado em zonas costeiras, perto de penhascos. A praia do Moinho Baixo, no Meco, em Sesimbra, costuma ser uma das zonas escolhidas. E foi também a escolha de um grupo de amigos. Uma delas, austríaca de 36 anos, voou, controlou tudo mas no momento de aterrar algo não correu como devia: a asa poisou na água, junto à rebentação e foi puxada bruscamente para o mar. Quase sem pensar, dois amigos correram para a salvar.

“Foi daqueles acidentes absurdos mas que acontecem”, explica ao Expresso o comandante Luís Lavrador, da Capitania do Porto de Setúbal. Os dois homens, de 51 e 34 anos , entraram para resgatar a mulher austríaca, de quem eram amigos, mas não conseguiram. Pouco passava das 12h quando as autoridades foram alertadas para três pessoas caídas ao mar.

RUI MINDERICO/ Lusa

“Em momentos como este, não há um processamento cognitivo. A parte racional não funciona, sobretudo com as pessoas conhecidas e que são próximas.” Rute Agulhas, psicóloga clínica e forense, explica ao Expresso que um habitual processo de decisão é feito em sete passos, mas em momentos de catástrofe não há tempo. “Primeiro, é preciso identificar o problema, depois as alternativas de resposta, seguem-se a avaliação das vantagens e desvantagens de cada uma das alternativas, a antecipação das consequências, entretanto começa a tomar-se uma decisão, só depois surge a questão: como vou fazer isto? A última etapa é a reflexão, que acontece já numa fase posterior. Portanto, isto é algo muito racional, que demora e implica equilíbrio emocional.” Os dois homens que correram para salvar a amiga não tinham nada disso.

Teoricamente, quando mais demora a tomada decisão, mais acertada é. Mas isso é a teoria. “Se vejo alguém a cair ao mar, não penso, ajo. É emocional e impulsivo. Há uma motivação altruísta que é muito interessante e que é boa porque é humana”, refere a psicóloga clínica.

RUI MINDERICO/ Lusa

Para o comandante Fernando Fonseca, do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN), estes são acidentes particularmente difíceis de explicar, em que o que deveria ter sido feito quando a mulher caiu ao mar seria chamar as autoridades e esperar. “Havia um carro de patrulha ali perto, devido ao reforço previsto para este período da Páscoa. É preciso pedir sempre ajuda e não assumir comportamentos de risco”, diz.

Bloquear as emoções é possível e profissionais como bombeiros e polícias, por exemplo, aprendem a fazê-lo. No entanto, quando se é chamado para lidar com um acidente em que um dos envolvidos é um familiar, amigo ou conhecido, a capacidade de ação muda. O distanciamento e a calma para que foram tão treinados desaparece. “A emoção sobrepõe-se”, explica a psicóloga.

Esta segunda-feira, já perto da 13h, o homem de 51 anos foi resgatado em paragem cardirrespiratória - morreu no areal. Dos outros dois, nada se sabe. “Continuamos à procura, as operações prolongam-se até ao pôr do sol, depois vamos reavaliar”, esclarece o comandante da Capitania do Porto de Setúbal. Não é a primeira vez que histórias com traços como esta acabam mal. “É normal as pessoas irem em socorro, sobretudo sendo amigos. É uma reação humana e relativamente frequente.”

Há um ano morreu Valdir, que “tinha muita coragem física e psicológica”

Valdir Tavares, 31 anos, foi uma das quatro pessoas que morreram a 1 de maio do ano passado nas praias portuguesas. Tinha ido até à Costa de Caparica, em Almada, para passar um bom bocado com os amigos. Aproveitar o feriado e o bom tempo. Eram 13h quando entrou no mar.

Os surfistas aperceberam-se que estavam três pessoas na água e foram socorrê-las. Quando se aproximaram, quem estava em melhores condições físicas era o homem que viria a morrer. Foram puxados pela corrente”, explicou o capitão do Porto de Lisboa, Paulo Isabel. “As testemunhas no local indicaram que o homem [Valdir] tentou salvar o casal que estava na água”, acrescenta.

Com o aparato dentro de água, os surfistas aproximaram-se. Conseguiram resgatar o casal, mas perderam Valdir de vista por uns minutos. Quando o reencontraram, estava em paragem cardiorrespiratória. No areal, tentaram a reanimação. Foi levado para o Hospital Garcia de Orta, mas Valdir não resistiu. Às 15h40 foi dado como morto.

Sei que morreu heroicamente a tentar salvar um casal. Não vou procurar mais detalhes porque não é o mais importante”, contou ao Expresso João Narciso, amigo de Valdir. “Morreu fiel aos seus princípios, gostava de ajudar os outros e, perante uma situação daquelas, o Valdir era incapaz de ficar quieto. Tinha muita coragem física e psicológica.”

Planeava regressar a Cabo Verde. Pediu uma licença sem vencimento, que foi aceite - trabalhava na área de recursos humanos na Administração Central do Sistema de Saúde. Tinha-se despedido dos colegas de trabalho na sexta, viu o Benfica no sábado. Formado em Gestão de Recursos Humanos em Economia Monetária e Financeira, estava em Portugal desde 2003, quando veio para se licenciar. Foi aí que Valdir e João se conheceram.

Jogávamos futebol na equipa da universidade, foi o capitão da equipa. Ficámos amigos a partir dessa altura. Era uma pessoa alegre, bem-disposta e que nunca se queixava da vida. Era muito chegado à família e católico. Bom aluno, bom colega, bom amigo, desportista e atleta”, recordava na altura João.

Valdir era o mais novo de seis irmãos (os pais e dois irmãos viviam em Lisboa). Era filho de Benvindo Tavares, um antigo funcionário do Conselho Nacional do Partido Africano de Independência de Cabo Verde, e sobrinho de António Mascarenhas Monteiro, presidente do país entre 1991 e 2001. Mas Valdir “não gostava de falar disso”.