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Portugal, um país para estrangeiro viver?

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Portugal é o país que mais bem recebe e foi considerado o quinto melhor destino a nível mundial para estrangeiros residentes. O que nos distingue dos outros e faz deste o lugar com melhor qualidade de vida?

O que leva alguém a sair do seu país e a instalar-se noutro lugar? E o que o leva a ficar? As perguntas são muitas para os que não arriscam a mudança, mas para os que se propõem sair da zona de conforto — ou a procurá-la, se não for no seu país que se sentem bem — também não existe uma resposta certa. É do todo que se constrói a nova vida e há lugares que parecem ter tudo o que um expatriado precisa.

O Bahrain é o melhor destino para estrangeiros fixarem residência, seguido pela Costa Rica, México, Taiwan, Portugal, Nova Zelândia, Malta, Colômbia, Singapura e Espanha, numa sintonia de vários fatores que fazem dele o sítio ideal para os que decidem fixar residência no estrangeiro. Qualidade de vida, facilidade de adaptação, trabalho no exterior, vida familiar, finanças pessoais e o Índice de Custo de Vida são os principais tópicos em análise na altura de coroar um país e este ano trouxe grandes mudanças ao relatório anual da InterNations (considerada a maior comunidade de pessoas a viver fora do país de origem e composta por três milhões de membros).

As subidas e descidas são algo normal num relatório como este, que depende da opinião das pessoas num mundo em constante mudança, mas talvez não se esperassem alterações tão significativas no espaço de um ano. A Malásia, que em 2016 ocupava a 38ª posição, subiu 23 lugares rumo à 15ª, a par da Noruega e Portugal (que agora são 20º e 5º, respetivamente), numa lista de vencedores onde também figuram a Dinamarca, o Cazaquistão, a Suécia, o Bahrain, a Holanda, os Emirados Árabes Unidos e a Colômbia. São boas notícias para os 10 países que apresentaram melhores resultados face ao período homólogo anterior, mas também há quem tenha perdido o seu estatuto na lista. A Austrália, a Polónia e a Ucrânia foram os três países que mais desceram, num ranking a apresentar piores resultados do que em 2016, do qual também fazem parte o Equador, o Panamá, o Uganda, o Reino Unido, a Áustria, a Hungria e os Estados Unidos da América.

As experiências de quem muda a residência para o estrangeiro são na maior parte das vezes positivas, mas também haverá fatores a melhorar. O problema não parece estar no primeiro contacto — a maior parte dos estrangeiros diz que não se sentiu indesejado e mesmo os que tiveram experiências negativas referem que estas foram num número muito pequeno —, nem ter que ver com fatores demográficos (88% dizem nunca ter tido problemas por causa da idade). O problema poderá estar em questões como a orientação sexual (embora o inquérito da InterNations não inclua nenhuma pergunta direta e de carácter obrigatório sobre o assunto).

De acordo com o “Expat Insider”, “dos participantes do inquérito, são [apenas] 7565 os que estão numa relação séria e que deram informação (opcional) sobre o seu género e do seu companheiro, com 3,5% a estarem numa relação com alguém do mesmo sexo”, pelo que é difícil aferir com precisão qual a relação dos países de acolhimento com esta matéria. Ainda assim, e dentro deste subgrupo, “64% dizem que nunca se sentiram mal-recebidos por causa da sua orientação sexual”, ao passo que 17% o sentiram muito raramente e 14% disseram que por vezes foi um problema. Ainda assim, 3% afirmaram que a orientação sexual é um problema frequentemente e 2% consideraram que se sentem “sempre mal-recebidos por causa da orientação sexual”.

Quanto ao género, as diferenças estão a esbater-se, mas ainda existem e são evidentes em alguns territórios. Se quase todos os homens se sentiram sempre bem (94%), a percentagem desce para os 79% no caso das mulheres e continuam a existir lugares onde estas não são de todo bem recebidas. O Kuwait, a Índia, o Qatar, a Arábia Saudita e o Japão ficam mal na fotografia. No Qatar e a título de exemplo, expressa a InterNations, “46% das mulheres nunca se sentiram bem-recebidas por causa do seu género”, com a situação no Kuwait a apresentar-se também bastante gravosa. “Uma em cada 11 mulheres expatriadas no Kuwait diz que se sente sempre mal-recebida”, algo que em média acontece apenas em 1% dos casos. No emirado árabe independente, situado no nordeste da península arábica, 22% das mulheres estrangeiras sentem-se insatisfeitas com a sua vida em geral no país. Apesar de ter uma grande percentagem de mulheres que já se sentiram indesejadas por causa do género (50%), a situação nipónica é bastante diferente da vivida no território árabe. O Japão é o 34º território em que as mulheres se sentem mais satisfeitas.

O idioma continua a ser a maior barreira na altura de mudar de país e é esta a principal causa de problemas na chegada ao destino para 42% dos expatriados — que se sentiram indesejados no seu novo país por causa deste fator. França, Áustria, Dinamarca, República Checa e Alemanha foram os países em que o idioma ou a pronúncia mais foram apontados como problema na integração, com a nação francesa a mostrar-se menos aberta à diferença. De acordo com o mais recente estudo sobre o assunto, 62% dos estrangeiros em França sentiram-se mal-recebidos por causa da língua, algo que 15% dos inquiridos afirmam acontecer “frequentemente ou sempre” (contra a média de 7% a nível mundial). Aprender a língua nativa do país é sempre uma alternativa mas nem sempre é fácil para quem chega. Ainda assim, a percentagem de estrangeiros residentes a falar a língua do país que escolheram para melhorar já chega aos 24%. Os locais agradecem (e alguns até retribuem).

BEM-VINDOS A CASA

Portugal é o país com a melhor qualidade de vida do ranking elaborado pela InterNations e tornou-se também, na última edição do estudo internacional, o país que mais bem acolhe os expatriados. “Quase todos os residentes estrangeiros que vivem no país (94%) avaliam positivamente a atitude da população local em relação aos expatriados”, lê-se no inquérito anual “Expat Insider”, que aponta a “calorosa receção” nacional como motivo para que “mais de um terço dos expatriados em Portugal (36%) se sintam em casa quase de imediato”. Será mesmo assim? A verdade é que o trabalho conta com dados de cerca de 13 mil pessoas, oriundas de 188 países e territórios, e foi realizado pela maior rede mundial de pessoas que vivem e trabalham no exterior.

A ligação aos residentes nacionais parece ser um dos fatores que levaram Portugal ao topo, com a grande maioria dos estrangeiros residentes (79%) a verem os portugueses como acolhedores e mais de metade (53%) a considerarem o povo português extrovertido. O sentimento de comunidade e partilha — “29% dos expatriados que vivem em Portugal têm como amigos os residentes locais (em oposição a 19% no resto mundo)”, expressa a InterNations — parece ter uma grande influência na adaptação dos novos residentes ao país, que após meio ano por terras lusas “começaram a sentir-se em casa no novo país de residência” (53%), quando a média global é de apenas 41%.

A hospitalidade nacional é reconhecida além-fronteiras e o facto de o país estar na moda pode dar alguns pontos extra, mas é de uma grande conjugação de elementos que se chega a um resultado como este. A Portugal, único país europeu nos lugares cimeiros, seguem-se lugares tão diferentes como Taiwan, México, Camboja, Bahrain, Costa Rica, Omã, Colômbia, Vietname ou o Canadá, prova de que a hospitalidade não se encontra na semelhança. Está presente nas mais diversas culturas e lugares do mundo e pode ser vista nas mais diversas situações quotidianas. Os participantes do estudo avaliaram 43 diferentes aspetos da vida no exterior (numa escala de um a sete) e foi a partir destes dados que se chegou a várias conclusões sobre a vida fora de portas. Quase metade dos que se mudam para Portugal (47%) pondera ficar a viver no país para sempre. Já não é um país para inglês ver. É para estrangeiro viver.