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Comprar a granel é uma forma de poupar plástico. Mas como e onde?

A Maria Granel, em Lisboa, foi uma loja pioneira na venda a granel

mário joão

As lojas a granel ou as secções de produtos avulso nos supermercados têm conquistado cada vez mais espaço em vários países europeus, incluindo Portugal. Umas vendem massas, arroz, especiarias e frutos secos, outras têm detergentes e algumas aceitam os sacos de pano e os frascos de vidro trazidos de casa. Entre as medidas a discutir no grupo de trabalho do Governo para redução do consumo de plástico em Portugal estará a redução do IVA dos produtos a granel

Há muitas dúvidas que surgem ao longo dos 40 dias do desafio lançado pela Quercus de tentar viver sem plástico descartável. E muitas dessas dúvidas estão relacionadas com a forma como habitualmente fazemos as compras, sobretudo nos supermercados e hipermercados.

Uma das primeiras perguntas é esta: como evitar os sacos de plástico mais finos usados para pesar a fruta e legumes? Nos casos em que é possível pesar na caixa, é mais fácil: bastará pôr tudo no carrinho ou então, caso a loja o permita, colocar em sacos alternativos de pano, rede ou até plástico reutilizável levados de casa. Se o cliente tiver de pesar a fruta e legumes colocando-lhes as etiquetas, o desafio é maior. Depois surge outra pergunta: e como comprar arroz, massa, farinhas ou cereais sem um pacote?

A resposta chega rapidamente: a venda a granel (ou seja, avulso) é uma solução. E tem estado a ganhar terreno em muitos países da Europa, incluindo Portugal, sendo já hoje possível comprar uma série de produtos a peso e em muitos casos permitindo aos clientes usar os seus próprios sacos ou frascos, evitando assim o uso de mais plástico.

Maria Granel, pioneira do desperdício zero, é uma das lojas

Maria Granel, pioneira do desperdício zero, é uma das lojas

E onde são?

Há lojas a granel em várias cidades e Ana Milhazes Martins, autora do blog 'Ana, Go Slowly' e embaixadora do movimento Lixo Zero Portugal, começou por juntar toda a informação. “À medida que comecei a pesquisar mais, fiz um email-tipo para enviar a cada loja que descobria e fui reunindo a informação num Excel”, conta Ana, 33 anos, que em 2016 se lançou de cabeça no desafio de praticamente não produzir lixo, indo assim muito além de uma mera redução do plástico.

Com base nessa informação recolhida sobre as lojas, Catherine Francisco, membro do grupo do facebook Lixo Zero, criou o site www.agranel.pt, que vai atualizando, e a partir do qual é possível saber que lojas existem, onde e que tipo de produtos vendem. E é também dá para ir adicionando as novas lojas que surgem. Para o conseguir, entre muitos outros desafios, passou a ser cliente assídua das lojas a granel.

Os supermercados têm estado atentos à tendência e alguns já têm secções de produtos avulso. Um deles é o Jumbo, que lançou as primeiras lojas com mercado a granel na Maia e em Almada, tendo já alargado a todos os hipermercados, com uma média de 1560 produtos que a empresa diz querer ainda alargar. O Pingo Doce ainda só tem frutos secos a granel mas lançou recentemente um serviço de reenchimento de água. Já o Lidl junta aos frutos secos a secção de padaria, frutas e legumes a granel.

DR

Como pesar ou transportar os produtos?

A terceira pergunta surge quando se começa a comprar mais a granel: o que fazer quando nestes estabelecimentos é obrigatório usar um saco de plástico para pesar os produtos? É isso que por enquanto acontece no Jumbo, mas está agora a ser negociada a introdução de um saco de papel kraft.

“Estamos também a estudar a utilização de embalagens reutilizáveis para encher na loja, mas para já, e por questões de segurança alimentar, não será possível trazer de volta a embalagem de casa e voltar a encher”, explica Ana Rita Cruz, gestora de sustentabilidade e ambiente da Auchan, acrescentando estarem também a testar a exposição de algumas frutas e legumes que até agora eram vendidos em cuvetes de plástico. A mudança implica uma adaptação dos fornecedores ao terem de arranjar alternativas de transporte, pelo que tem primeiro de ser testado.

No Lidl também é possível pesar as frutas e legumes na caixa sem ser necessário usar um saco de plástico. “É permitida ao cliente a utilização de outras formas de transporte destes artigos, sejam sacos reutilizáveis, de pano, ou as nossas caixas de cartão vazias, uma alternativa adotada por muitos clientes”, esclarece Pedro Monteiro, diretor-geral de compras do Lidl Portugal.

Se for impossível arranjar alternativa ao saco, a verdade é que já está a ser poupada a embalagem original, pelo que o importante é reciclar o saco colocando-o no ecoponto amarelo.

Marcos Borga

Mais produtos a granel?

Se a venda de produtos secos a granel tem vindo a tornar-se mais comum, ainda é raro encontrar produtos de limpeza vendidos sem embalagem de plástico. “A venda de produtos de limpeza a granel implica uma reflexão análise muito cuidada e aprofundada, devido às características específicas destes produtos (alguns são considerados substâncias perigosas, como é o caso da lixívia)”, responde o gabinete de comunicação do Pingo Doce, que faz parte do grupo Jerónimo Martins.

A Unilever Fima, representante de marcas de produtos de limpeza como o Skip ou o Cif, alerta para a mesma questão, sublinhando que a venda a granel destes produtos “pode originar perda de qualidade ou até contaminação”. A curto prazo, portanto, essa ideia não faz parte dos planos, apostando antes nas recargas.

Já o Jumbo pondera trazer para Portugal essa possibilidade, à semelhança do que já acontece nas lojas Auchan em França e em Itália, aponta a gestora de sustentabilidade e ambiente.

getty

Novos incentivos?

Reduzir a taxa de IVA dos produtos vendidos a granel é uma das possibilidades a serem abordadas no grupo de trabalho criado pelo Governo no início de fevereiro para estudar novas medidas para a redução do consumo de plástico em Portugal, segundo confirmou ao Expresso o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins.

"Será certamente abordada no seio do grupo de trabalho. As vendas a granel não são aplicáveis em muitos dos produtos, por razões de segurança alimentar. É necessário aguardar por propostas que tenham a visão integrada de todas as dimensões que o novo paradigma da economia circular nos trazem."

O grupo de trabalho criado pelos ministérios do Ambiente, da Economia e das Finanças visa, "numa visão alargada dos aspectos ambientais, económicos e fiscais, formalizar propostas de ação que permitam concretizar o objetivo de redução do uso de materiais plásticos", segundo o secretário de Estado. "A apresentação das principais conclusões e recomendações, bem como as medidas tendentes à sua concretização, deverão ser conhecidos num evento técnico a realizar em junho." O Governo tem como objetivo conseguir reduzir o plástico em Portugal, "não só em embalagens, mas num vasto conjunto de situações onde possa haver alternativas de redução ou de substituição de materiais".

Nuno Fox

Para lá da venda a granel

A Quercus apresentou ao Ministério das Finanças uma proposta de aumento do IVA dos produtos descartáveis e, pelo contrário, de redução do IVA nos produtos reutilizáveis. O fim da louça descartável também esteve em discussão na Assembleia da República no início de fevereiro, mas os vários projetos de lei baixaram à comissão sem votação para serem negociados.

O PAN propôs interditar a comercialização destes materiais, enquanto o Bloco de Esquerda e os Verdes defenderam a sua substituição por materiais biodegradáveis. O PCP defendeu a obrigatoriedade de disponibilizar aos consumidores alternativa à distribuição de utensílios de refeição descartáveis, tanto em eventos abertos ao público como em estabelecimentos comerciais.

Apesar de esses diplomas não terem sido votados, foi aprovado o projeto de resolução do PSD, recomendando ao Governo a promoção de estudos sobre as alternativas à utilização de louça descartável de plástico e a realização de campanhas de sensibilização no sentido de reduzir o seu uso.

texto atualizado às 19h09