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Albaneses escolhem Portugal como porta de saída da Europa

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São os estrangeiros mais vezes apanhados com documentos falsos. Portugal é país de trânsito para a América

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

A viagem de três mil quilómetros entre Tirana e Lisboa, mesmo com escalas e paragens a meio caminho, não é a rota mais previsível para alguém que queira fugir da Europa. Mas tem sido escolhida por centenas de jovens adultos albaneses, homens e mulheres, muitos deles detetados nos aeroportos portugueses quando se preparavam para sair ilegalmente do país.

Nos últimos três anos têm sido os albaneses a liderar, de longe, os casos de estrangeiros apanhados pelas autoridades com documentos falsos. De acordo com o último Relatório Anual de Segurança Interna só em 2017 foram intercetados 130 cidadãos indocumentados de um dos países mais pobres da Europa, mais do dobro dos angolanos na mesma situação, país com muito mais afinidades sociais, económicas e culturais com Portugal.

Operacionais de várias forças de segurança ouvidos pelo Expresso revelam que as redes internacionais de imigração ilegal albanesas são “extremamente organizadas” e estão “montadas em vários países”, incluindo Portugal. Os líderes destas máfias aproveitam-se da fragilidade de milhares de jovens de Tirana e arredores. “São pessoas desesperadas e fogem da pobreza mesmo que tenham de percorrer milhares de quilómetros”, resume uma fonte policial. É em território italiano onde quase sempre tudo começa. “Quase todos os albaneses falam italiano ou já estiveram em Itália”, frisa outra fonte próxima da investigação.

Quando chegam a Portugal trazem consigo bilhetes de identidade ou passaportes italianos, gregos ou romenos “contrafeitos ou furtados”, normalmente em branco. “A documentação destas três nacionalidades é mais fácil de falsificar e é enviada do estrangeiro (sobretudo de redes de falsificação italiana) para Portugal”, garante uma fonte dos serviços de segurança.

Ao Expresso, o gabinete de comunicação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) garante: “Os documentos detetados na posse de cidadãos albaneses não são falsificados em Portugal. As investigações, muitas delas lideradas pelo SEF, indicam que os cidadãos albaneses já chegam a Portugal com os documentos falsos ou falsificados e permanecem aqui poucos dias, o tempo suficiente para tentarem embarcar para os países de destino referidos.”

A Albânia tem desde há pouco tempo um novo passaporte biométrico que permite aos cidadãos viajar pelo espaço europeu sem precisarem de visto de turismo, embora o país não pertença à União Europeia nem faça parte do espaço Schengen. Só que este passaporte tem um problema: não permite a estes imigrantes entrarem pela via legal nos países onde pretendem um dia viver.

As viagens aéreas com destino aos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Irlanda são os mais procuradas pelos albaneses que têm sido barrados nos aeroportos de Lisboa, Porto Faro, sobretudo em voos low-cost. “À saída do Espaço Schengen, utilizam documentos falsos ou falsificados de países da União Europeia, facultados por redes internacionais organizadas”, confirma o SEF.

Ou seja, entram no país com um passaporte verdadeiro mas ao tentarem sair usam documentação falsa. Portugal é considerado “um país de trânsito” para aqueles quatro países. E o fenómeno não é um exclusivo nacional. O Serviço de Estrangeiros e Fronteiras lembra que as fraudes dos cidadãos albaneses “é generalizada” a todos os estados Schengen.

Primeiras pistas

Um relatório oficial produzido no ano passado dava as primeiras pistas sobre o fenómeno. “Não obstante a reduzida representatividade da comunidade albanesa em Portugal, assistiu-se a um aumento da atividade criminal perpetrada por indivíduos desta nacionalidade”. As máfias albanesas que “facilmente se deslocam a Portugal” dão “apoio logístico” a imigrantes daquele país.

As autoridades identificaram também “métodos de atuação distintos” entre os traficantes de pessoas de Tirana e redes de outros países. “As máfias albanesas não são as mais poderosas, mas são seguramente das mais ativas”, garante uma fonte policial.