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Cerco de Tiro, a vitória da engenharia militar

d.r.

Quatro séculos antes de Cristo as tropas de Alexandre o Grande tiveram que se adaptar a um combate para o qual não estavam preparadas: a guerra de cerco contra a ilha fortificada de Tiro, que só caiu ao fim de sete meses de campanha

Estamos em 332 a.C. Alexandre o Grande já tinha conquistado a Grécia e derrotado por duas vezes as tropas persas na Ásia Menor. Contudo, para poder avançar sobre o Egito tinha que resolver um problema chamado Tiro. Das duas uma: ou deixava forças importantes a bloquear a cidade e o porto, ou arriscava uma guerra de cerco longa e sangrenta. Optou pela segunda hipótese e quando finalmente venceu exerceu uma vingança bárbara sobre os defensores. Mas como conseguiu ter sucesso num tipo de guerra que nunca travara?

Eis a súmula da sessão desta semana do curso livre de História Militar Grandes Cercos do Mundo Antigo, dedicada ao maior cerco da Idade Clássica. Esta iniciativa do Centro de História da Universidade de Lisboa decorre naquela faculdade todas as quartas-feiras até 2 de maio (exceção feita ao feriado do 25 de Abril). O orador desta terceira sessão foi José das Candeias Sales, docente da Universidade Aberta e investigador do referido centro.

A primeira dificuldade na análise do cerco de Tiro decorre das fontes, como explicou Candeias Sales. Todas as crónicas sobre os feitos de Alexandre foram escritas 500 anos depois dos factos a que se referem e, de resto, são textos visando a glorificação do grande general. É o caso das obras de Arriano, Deodoro ou Quinto Cúrsio, “que representam a passagem a escrito de uma longuíssima tradição oral, resta saber com que exatidão”.

A conquista de Tiro representava um sério problema tático, pois a cidade, melhor dizendo a Nova Tiro, estava poderosamente fortificada e situava-se numa ilha a 900 m da costa, rodeada por águas com dois a cinco metros de fundo. Tendo optado pelo ataque, Alexandre galvaniza as suas tropas revelando-lhes um sonho em que o semideus Hércules lhe entregava a cidade. “Isto, convenientemente interpretado pelos adivinhos de Alexandre, significava que a conquista era certa mas que seria tão esforçada como os 12 trabalhos de Hércules”, explicou o conferencista.

Um pontão de 900 metros

Num esforço digno da futura engenharia militar romana, Alexandre manda construir um pontão na direção de Tiro, ao longo do qual iam avançando duas torres de cerco em madeira da altura das muralhas. Material de construção não faltava, desde a madeira dos cedros do Líbano às ruínas da cidade velha de Tiro.

Contudo a reação dos defensores, que dois séculos antes já tinham superado um cerco de 13 anos do rei da Babilónia Nabucodonosor, foi certeira. Lançaram a coberto do tiro das catapultas e dos arcos um barco não tripulado em chamas que acabou por incendiar as torres e o pontão.

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Tirando as lições do insucesso, Alexandre refaz a estratégia atacante. O pontão é refeito, mas mais largo e mais protegido das correntes marítimas. Vai buscar duas frotas, uma fenícia e outra das antigas colónias gregas da Ásia Menor, totalizando 200 navios, com os quais flagela as muralhas em diferentes pontos para dividir os defensores. E, sobretudo, tem a intuição de que é preciso aquilo a que hoje chamaríamos um novo sistema de armas. E este surge: torres de cerco flutuantes, cada uma apoiada em diversos navios, e equipadas com armamento que até então não fora experimentado, as catapultas de torção.

Estas catapultas, semelhantes a arcos gigantes, atiravam pedras ou projéteis de ponta metálica a 200 m com bastante precisão, desde que se conseguisse resolver o problema da estabilidade destas plataformas flutuantes de tiro.

Um vencedor sanguinário

Atacada por vários lados, a muralha acabou por abrir uma brecha, para a qual convergiram todos os meios ao dispor de Alexandre. Ao fim de sete meses, Nova Tiro caía e a fúria do conquistador revelou-se terrível: todos os defensores foram executados e dos jovens da cidade, 2000 foram crucificados na praia e os restantes vendidos como escravos. A hecatombe só não foi maior porque antes do cerco a maior parte das mulheres e crianças fora enviada de barco para a colónia africana de Cartago. E porque, num gesto de magnanimidade, o conquistador poupou os poucos que se tinham refugiado no templo de Hércules.

Uma barbaridade pelos padrões de hoje, vista pelos cronistas de então como um ato de dissuasão de futuras veleidades de resistência. Estas resumiram-se a Gaza, cujo cerco durou dois meses e nada mais, pois os sátrapas persas que governavam o Egito fugiram e os greco-macedónios foram acolhidos como libertadores.

A vitória no cerco de Tiro resultou, como resumiu Candeias Sales, de uma conjugação perfeita de três fatores: o comando, a ocasião e o armamento. Alexandre entrava na lenda e o mito começava a superar o homem, tão depressa visto como misericordioso como cruel, sábio ou louco, virtuoso ou depravado, consoante os povos e as circunstâncias. “Além de moldar as mentes, moldou também a geografia, pois o pontão usado para invadir Tiro acabou por constituir a espinha dorsal do istmo que transformou a ilha numa península”, concluiu o conferencista.

Uma boa razão para que Camões, ao glorificar os feitos lusos escrevesse: “Cale-se de Alexandre e de Trajano/a fama das vitórias que tiveram/que eu canto o peito ilustre lusitano/a quem Neptuno e Marte obedeceram” (Os Lusíadas, canto 1, estrofe 2).