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“A batalha de La Lys não foi uma vergonha”

Partida de Lisboa das tropas portuguesas

O famoso desastre militar português em França, sobre o qual passam cem anos no dia 9, representa a tomada de consciência do verdadeiro peso de Portugal, diz Filipe Ribeiro de Meneses

Luís M. Faria

Jornalista

O historiador Filipe Ribeiro de Meneses, que vive na Irlanda, ocupa-se da I Guerra Mundial há 25 anos. A sua tese de doutoramento foi sobre o assunto. Mais tarde, a preparação de uma biografia de Afonso Costa levou-o a explorar o modo como a nossa participação na guerra fora pensada pela elite intervencionista de então, e deixou-o interessado no Corpo Expedicionário Português (CEP). Percebeu que não era possível falar dessa experiência sem consultar a documentação britânica sobre o assunto, que já tinha sido analisada por historiadores britânicos como portugueses - há uma velha divergência de base nas interpretações sobre a batalha - mas que ele se propôs ver com uma nova atenção (refere uma "compreensão simultânea" por parte de vários historiadores portugueses contemporâneos). Daí nasceu o livro agora publicado pela editora Dom Quixote.

d.r.

"De Lisboa a La Lys" tem na capa a foto de uma multidão de prisioneiros de guerra portugueses, que de certo modo representa o falhanço português. La Lys (a derrota portuguesa, que fez centenas de mortos e milhares de prisioneiros, aconteceu logo ao princípio da batalha maior que leva esse nome) representa uma página trágica na nossa História. Mas Ribeiro de Meneses nega que tenha sido uma vergonha - além de recusar a própria ideia que um historiador deva fazer esse tipo de juízos. "Foi um fenómeno que aconteceu", diz simplesmente. O seu propósito foi tentar perceber os factos, as causas e os efeitos. Desde o início, preconceitos mútuos entre ingleses e portugueses – alguns dos quais remontavam às Guerras Peninsulares, um século antes - não ajudaram. Alguns desses preconceitos, em especial os que dizem respeito à má qualidade de muitos oficiais portugueses e à sua escassa preocupação com o bem-estar dos seus soldados, pareceram geralmente confirmar-se em 1917.

AS VÁRIAS VISÕES

“Há uma interpretação portuguesa do que foi a participação na batalha de La Lys. Começa com o próprio relatório do general Gomes da Costa sobre a batalha. Depois ele escreve um artigo para a Ilustração Portuguesa e a seguir as suas memórias, mas fixa uma interpretação que será em grande parte seguida pelos historiadores militares.

Muito do que foi escrito por oficiais que participaram na guerra tem o intuito de mostrar que afinal valeu a pena. De apresentar uma imagem do soldado português como entendendo as razões da intervenção, como tendo interiorizado a República, como sendo agente quase voluntário do projeto intervencionista. É um aproveitamento político.

Existe uma diferença grande entre o que lemos na documentação oficial sobre a experiência dos soldados e esta visão dos portugueses que eram muito amigos dos ingleses e também dos civis franceses, que se davam bem com toda a gente, que punham as raparigas francesas a dançar o vira, que ensinavam o fado aos canadianos, o jogo do pau aos canadianos... Enfim, fica-se com uma ideia bastante diferença ao consultar a documentação.”

(Nota: entre vários testemunhos diretos, o livro cita o de um soldado que diz, numa carta que não chegou ao destino por ter sido intercetada: "Por aqui sempre fixe, pois o cagaço não me deixa adoecer, o que nesta ocasião estimava bem, que isto por aqui é muito lindo e muito patriótico mas só para que lá ficou, pois esses figurões, os patriotas, não fazem a menor ideia").

“Houve relatos terríveis, feitos por soldados em recuperação, que saíram logo durante a guerra no jornal A Capital. Mais tarde, isso seria impensável. Durante o Estado Novo, até devido a um conflito entre o poder civil e o poder militar, a participação na guerra pertence ao exército. As comemorações do 9 de abril cabem-lhe a ele. Faz parte das fundações da Revolução Nacional. O exército diz que conseguiu encarnar a vontade da Nação e tem o direito moral de fazer a Revolução porque fez a guerra.

Há o forjar de um novo entendimento dentro do exército. A própria descrição do 28 de maio, o facto de ele ser comandado - exteriormente, pelo menos - por Gomes da Costa, é apresentado ao público como a continuação de um esforço de recuperação nacional iniciado pelo exército em 1917-18 em França. Ao cumprir o seu dever, o exército assumiu uma superioridade moral sobre os civis. Depois, com a falta de instabilidade a que se assiste em Portugal nos anos 20, os civis vão perdendo cada vez mais terreno.

O exército é a última reserva da nação, e tem forçosamente de agir para salvar o país do abismo. Não pode deixar que os sacrifícios tenham sido em vão.”

A BATALHA

O CEP tinha vindo a melhorar a sua prestação. Estava lentamente a aprender a fazer a guerra. Em 9 de abril, é confrontado por uma nova maneira de fazer a guerra, que nem britânicos nem portugueses esperavam. As táticas usadas pelos alemães surgiram como uma enorme surpresa, e os portugueses não mostram capacidade de reação. Ficam paralisados, em parte pela barragem de artilharia, pelo gás venenoso, pelo nevoeiro e pela falta de ordens. As linhas telefónicas tinham sido cortadas, era impossível contactar fosse quem fosse, e há muitos oficiais que ficam à espera de ordens, sabendo de antemão que elas não vão chegar. É quase uma desculpa.

Foi a primeira experiência que aqueles soldados tiveram de uma grande ofensiva. Isso eles nunca tinham visto: a violência descomunal da barragem, o pavor que isso provoca. Depois, as táticas alemãs de infiltração colocam soldados alemães por trás dos portugueses. Assim que uma força militar se sente cercada, dá-se uma desmoralização. Tudo se conjugou para criar essa onda de pânico. Havendo ainda a considerar o facto de eles pensarem que no dia seguinte iam embora. Tinham passado a noite de 8 para 9 de abril a encaixotar armas, munições, papéis, mapas, tudo.

Alguns oficiais britânicos diziam os alemães tinham sido informados disso por desertores portugueses. O Gomes da Costa diz que são civis franceses que fazem parte de uma rede de espionagem. Mas os alemães controlavam todos os pontos altos, e por isso tinham uma visão sobre o que se passava em geral dentro das linhas aliadas. Sabiam melhor o que se passava lá do que vice-versa. Não foi preciso um grande empurrão para toda a máquina desabar.

De qualquer modo, também acontece que as divisões que ladeiam o CEP têm destinos diferentes. A sul, a 55ª divisão britânica aguenta. Fica praticamente no sítio onde estava antes da batalha. A norte, a 40ª divisão sofre muito, em termos de mortos e prisioneiros. Como o CEP, é obrigada a recuar. Mas recua combatendo. Mantém algum espírito de disciplina, uma ideia de manobra, tenta obedecer aos planos previamente estabelecidos, e quando estes mostram não estar a funcionar muda a sua postura na batalha. Mas mantém alguma coesão, e o comando mantém um controlo sobre o que está a acontecer.

No CEP, ao fim de algumas horas, estamos perante uma debandada. Há cerca de 400 mortos mas quase 7 mil prisioneiros. Isso indica que muitos se renderam e muitos fugiram. Há os que morrem atingidos pela artilharia, e muito pontualmente há pequenas unidades que vão combatendo até mais tarde. Nalguns pontos há resistência, mas pouco afetam a batalha, pois os alemães estão a insistir numa guerra de infiltração. Já não são ataques maciços de infantaria. Se há um ponto que oferece resistência, passa-se à volta e deixa-se para as tropas que vêm na retaguarda. O que interessa é continuar a avançar.

A nova forma de fazer surpreendeu tanto os britânicos como os portugueses, mas aqueles conseguiram reagir e os portugueses não. Deixou de ser uma batalha em que o comando central tinha algum controlo sobre o que se passa. A iniciativa passa para oficiais subalternos, para sargentos ou até para soldados. A maioria não mostra essa iniciativa. Decide que a guerra já não é deles, acabou ali, parte para a retaguarda. Não se deixa reorganizar. E quando o general Haking, por volta da hora de almoço, pede para ao menos ajudarem a defender a linha dos rios, na retaguarda, Gomes da Costa é forçado a dizer, não, não consigo, já não tenho mão sobre estes homens.”

OS ERROS DOS REPUBLICANOS

Foi um cálculo muito mal feito. Em primeiro lugar, que se podia ir para a guerra não para a ganhar, porque o CEP nunca iria ganhar a guerra por si só, mas para atingir outros fins, de política interna e externa. O CEP está lá para fortalecer a República, para lhe melhorar a imagem, para resolver toda uma série de questões políticas. Mas também para dar mais independência a Portugal, para libertar Portugal daquela tutela britânica que os republicanos sentiam como uma ofensa.

Porém, quanto maior é o CEP, quantos mais homens são enviados, maior é a dependência se torna, porque são os britânicos que o pagam, que o alimentam, que o municiam, que o equipam, que lhe asseguram o reforço. E isso é algo que Afonso Costa e Norton de Matos não percebem. Ao enviar o CEP, não estamos a tornar-nos independentes dos britânicos, mas muito mais dependentes. Estamos a dar-lhes a faca e o queijo e a deixar que eles decidam na nossa vida e tenham uma intromissão muito grande em tudo o que diz respeito a Portugal.
Isso facilita a tarefa de Sidónio Pais. Sem a participação militar e sem as dúvidas britânicas sobre ela, seria muito mais difícil Sidónio ter agido [isto é, levado a cabo o seu golpe militar em dezembro de 1917]. E entre os oficiais vai nascendo um sentimento contra a República.”

O SIGNIFICADO

O 9 de abril significa a tomada de consciência do nosso real valor. O fim de qualquer ilusão sobre a nossa possibilidade de sermos contados entre as grandes potências. É uma lição que temos de ir aprendendo de vez em quando, ainda não [sempre] a este nível.