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Vai um cafezinho (à moda nórdica)?

A moda das “coffee shops” do Norte da Europa, 
com cafés mais suaves e frutados, chegou a Lisboa 
e ao Porto. Uma viagem ao preço de um cafezinho

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Já se imaginou a viajar para um qualquer país nórdico ao preço de um café e sem sair de Lisboa? Não, não estamos a falar de teletransporte. Quem sabe, um dia lá chegaremos. Do que falamos aqui é de outra coisa. Incentivados pelo aumento do número de turistas na capital, existem cada vez mais cafés (perdão, coffee shops) que nos fazem sentir no estrangeiro, com um serviço à moda nórdica.

As coffee shops a que nos referimos trocam a típica e tão portuguesa bica, que acorda meio Portugal pela manhã (assim como o garoto, a meia de leite, o café pingado, o abatanado ou mesmo o galão), por outro tipo de cafés, com outros preceitos e origens, inspirados na cultura do Norte da Europa. E, muitas vezes, até os menus estão redigidos exclusivamente em inglês. Esta é uma variável do conceito ‘vá para fora cá dentro’. Até porque a ideia de que os turistas viajam para se confrontarem com o desconhecido e com culturas diferentes é uma treta, em muitos casos. A maioria das pessoas, quando viaja, tende a procurar os locais com que se identifica, a sua zona de conforto. Mas adiante.

Quando se entra num dos três espaços do Copenhagen Coffee Lab, em Lisboa, sente-se de imediato um intenso e suave aroma a café. E sente-se, acima de tudo, que acabámos de aterrar na capital da Dinamarca sem sair de Lisboa. E isso tanto acontece no primeiro espaço que esta cadeia dinamarquesa abriu na capital, na zona da Praça das Flores, como no que se situa na zona de Santa Clara ou na sua maior loja, com cerca de 400 metros quadrados, em Alfama. O menu em ardósia na parede ou em papel está sempre em inglês. E boa parte da clientela destes três espaços é estrangeira, entre turistas e novos residentes provenientes de vários cantos do mundo. “Os portugueses também começam a vir, principalmente os mais jovens. Mas não há ainda muitos, de facto.” Pudemos constatar isto mesmo numa destas tardes na coffee shop mãe, um espaço de design clean, onde só estavam ingleses, escandinavos, alemães, muitos deles a navegar no computador portátil, usufruindo do wi-fi, e alguns com auscultadores, a ouvir música. O café que ali se serve tem variadas origens — Brasil, Quénia ou Etiópia — e é torrado na sede, em Copenhaga.

A grande diferença no sabor é que, ao contrário do café português, que é forte, corpulento e mais torrado, o café à moda dinamarquesa é bem mais suave, do tipo arábico. Isto pelo facto de os grãos passarem por menos torrefação. Experimentamos um café expresso, da Guatemala, moído e pesado no momento. O sabor é de facto diferente, mais aromático do que o nosso, com notas de noz e limão. Falamos com a gerente do espaço, Signe, de Copenhaga, que faz má cara ao café que se bebe por cá. “O café português é demasiado torrado. E, com isso, perde-se a variedade das notas do café, há pouca diversidade nos sabores.” Além do expresso tirado na máquina, esta coffee shop tem três formas de filtrar o café, com três enigmáticos nomes: “V60”, “Chemex” e “Cold Brew”. Todos eles com filtros de formatos diferentes.

Signe, uma jovem muito loura, explica que também na forma de beber café com leite os nórdicos se distinguem dos portugueses. Vejamos então: um macchiato é um café duplo com um pouco de espuma, um flat white é um café duplo com leite mas menos espuma, um cortado assemelha-se a um pingado mas com espuma, e um café latte é parecido com o nosso galão mas com uma quantidade generosa de espuma no topo da chávena. Confuso? Está tudo na lista e na parede, mas apenas em inglês. Ou não estivéssemos ‘no estrangeiro’, num espaço para enjoy your coffee. Ao serviço de cafetaria junta-se o de pastelaria (danish pastries, para nos mantermos em solo internacional) e padaria dinamarquesa, com um pão escuro de centeio de massa lêveda (chamam-lhe sourdough bread).

Outra viagem para um destino nórdico semelhante é feita no Hello, Kristof. O espaço é minimalista, saltando logo à vista uma estante com dezenas de revistas independentes à disposição dos clientes. Magazines temáticas japonesas, espanholas, alemãs, americanas, inglesas ou romenas. Curiosamente... não há nenhuma portuguesa. Ricardo Galésio, de 35 anos, é o proprietário, muitas vezes tratado por Kristof, o nome que inventou, numa rápida pesquisa no Google, para que soasse a nórdico. Ele aposta no conceito coffee and magazines (café e revistas). “Gosto da estética nórdica, associada à função, onde não se criam adjetivos supérfluos para embelezar.”

Foi o cansaço da atividade anterior que o fez arriscar abrir uma coffee shop em Lisboa onde se imaginasse como cliente. Um espaço à semelhança de tantos que frequentou em várias cidades do mundo por onde passou como freelancer. “Usava muito os cafés para trabalhar.” E, de facto, no dia em que visitamos o seu espaço, várias pessoas estão de computador ligado, outras a ler, outras agarradas ao telemóvel. Provavelmente, a fotografarem o espaço para publicarem (ou melhor, postarem) no Instagram, como ditam as modas. O café que ali se serve é da Costa Rica, da marca Las Cañas, espécie 100% arábica, torrado na Academia do Café, em Lisboa. Há também café expresso, macchiato e flat white. O Hello, Kristof aposta ainda num serviço de pequeno-almoço e brunch, onde não falta a tosta de abacate, que neste tipo de espaços trendy é quase obrigatória (com abacate, tomate, pimenta-rosa, pistacho, por €8), assim como a tosta de queijo Chévre ou a taça de açaí. Para quem quiser, também há pão sem glúten.

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Ricardo diz que, na verdade, foi quando passou uma temporada em Nova Iorque que decidiu abrir uma coffee shop em nome próprio. “Mais do que museus, quando viajo, os primeiros sítios onde vou são os cafés. Em Nova Iorque, os meus preferidos são o Two Hands, em Little Italy, o The Elk, em West Village, ou o Happy Bones.” Assume que só por acaso encontra um português entre os muitos estrangeiros que visitam o seu espaço e que tem vontade de simplificar ainda mais a oferta para melhorar o serviço. “O nosso serviço deve ter piorado, porque, por vezes, a procura é demasiada, fazem-se filas para o pequeno-almoço.” Palavra de Kristof. Perdão, de Ricardo.

Alguns metros mais acima, no mesmo lado da rua, encontra-se outro espaço semelhante, o The Mill, aberto no final de 2016 por um australiano de Sydney, Paul Miller, e uma portuguesa, Madeline, nascida na Namíbia. O que começou por ser um lugar que combinava o serviço de uma coffee shop australiana com um wine bar fora de horas acabou por se focar mais no café, nos pequenos-almoços e brunchs, porque era o que a clientela — estrangeira, claro — mais procurava. O café expresso que estão atualmente a servir é do Quénia, 100% arábica, mas todos os meses muda. Para acompanhar há tostas, assim como saladas, sanduíches e bolos variados.

Nesta linha ‘para nórdico ver, comer e beber’ há mais estabelecimentos em Lisboa. Está visto que ao preço de um café pode mesmo sentir que está a viajar para longe, muito longe. Ou, no caso dos turistas, para perto, muito perto de casa.

Porto de novos sabores

Sabe o que é um cimbalino? Em tempos idos, muitos portuenses utilizavam este vocábulo regional para pedir um café. Num Porto de tradições vincadas, mas cada vez mais cosmopolita e onde atracam influências de outras latitudes, também os gostos se reinventam. Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Tal também acontece com o café de especialidade, um nicho no mercado nacional, mas que atrai muitos entusiastas para o movimento slow coffee. Os turistas e o público mais jovem são os mais fiéis ao conceito. Beber uma chávena de café torna-se, assim, num ritual para ser experienciado com calma, filtrando e aumentando o leque de opções face ao convencional expresso, capaz de garantir a dose forte de cafeína para começar o dia de tantos portugueses.

A moda do café de especialidade está a conquistar a Invicta e pode até chegar de carrinha. Assim surgiu, há dois anos e meio, a Combi, uma coffee truck ambulante, que deambula por vários espaços, como a Praça da Batalha, São Bento ou os Clérigos. O negócio dos irmãos Gonçalo e Francisco Cardoso, impulsionado pelo terceiro sócio João Vilar, é resultado das vivências que os proprietários trouxeram de Nova Iorque e Londres. “Com a carrinha tínhamos menos uma despesa, e era uma boa maneira de dar a conhecer a nossa marca”, começa por explicar, ao Expresso, Gonçalo Cardoso. A popularidade do projeto fez, contudo, surgir a necessidade de abrir uma loja, no número 29 da Rua Morgado Mateus.

“Muito fresco”, “mais aromático” e “com um sabor mais intenso”, assim adjetiva Gonçalo Cardoso o seu café, preparado de forma artesanal. “A adesão das pessoas está a ser muito boa”, assegura o coproprietário, de 43 anos. Todos os meses são organizadas provas de café, ideais para explicar um conceito bastante popular nos Estados Unidos, no Japão, na Austrália ou nos países do Norte da Europa. Gonçalo acredita que o segmento de negócio “vai crescer bastante nos próximos dez anos”, até porque, sustenta, ainda “há muito mais para explorar” e “o café não é apenas aquele que tomamos na cafetaria da esquina”.

Desde os grãos da Etiópia, mais frutados e ácidos, passando pelo encorpado e caramelizado Guatemala, até chegar ao mais adocicado café brasileiro, o público embarca numa odisseia de sabores onde o teor de cafeína não é determinante. “Os cafés arábicos são mais requintados e mais caros, produzidos a mais de mil metros de altura”, distintos do café “mais corriqueiro, produzido em Angola, com um sabor mais amadeirado, a terra, e com muito mais cafeína”, salienta Gonçalo Cardoso.

Quem se dirige a esta coffee shop ou se depara com a carrinha da Combi pode aproveitar para beber um cappuccino ou um chocolate quente, mas também pode expandir o paladar para novos horizontes pedindo um flat white, um latte ou uma chávena de moka. Para acompanhar o negro néctar, deve optar por um pastel de nata, uma torrada de pão alentejano ou uma taça de açaí com iogurte grego.

De portas abertas no número 325 da Avenida de Camilo desde 2015, a cafetaria Mesa 325 foi pioneira no Porto a servir cafés de especialidade, como o “Chemex”, o “V60” e a “Prensa Francesa”. O espaço acolhedor e repleto de luz natural, gerido pelo casal Mário Espinha e Leonor Sá, é indicado para trabalhar ou estudar, em momentos inspirados por um café saboreado calmamente.

A moda do café filtrado também já se alastrou a cidades vizinhas, como Matosinhos, onde se pode encontrar a coffee shop Booínga, com café moído na hora e de excelente qualidade, oriundo de Timor, Quénia, Etiópia, Panamá, Colômbia ou Vietname.

Junto à marginal de Vila Nova de Gaia, está situada a 7g Roaster, aberta há quase meio ano, num antigo armazém de velharias. Ali, os grãos de café arábica são a especialidade da casa, onde também é efetuado o processo de torra. Entre e deixe-se conquistar por um café de filtro, moído na hora e sempre sem pressas, num “V60”, “Kalita” ou “Chemex”.