Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Censos 2021 vai poder ser todo feito pela internet

Anabela Delgado, diretora do Gabinete para os Censos 2021, coordenou os primeiros passos do recenseamento de 2011 para um modelo digital

António Pedro Ferreira

Primeiro teste arranca já em abril. Questionário estará em consulta pública no site do Instituto Nacional de Estatística

Foi de porta em porta que os recenseadores percorreram 5 milhões de casas para distribuir os questionários impressos em papel durante o último censos em 2011. Esse será um processo arrumado no passado quando em 2021 arrancar a operação do próximo recenseamento: pela primeira vez, cada casa receberá uma carta com um código e espera-se que a maior parte das famílias responda ao questionário pela internet ou por telefone. Só nos casos em que isso não for possível é que os recenseadores — já em menor quantidade do que em 2011 e menos carregados de papel — irão percorrer as casas em falta, de porta em porta, para entregar o questionário a quem não ainda não tiver respondido.

A forma como as pessoas serão contactadas para o Censos 2021 está já definida mas o Instituto Nacional de Estatística (INE), responsável pela realização dos recenseamentos de população e habitação em Portugal, ainda tem muito a fazer até lá. Um primeiro teste a este sistema vai arrancar a 16 de abril, abrangendo apenas sete freguesias do país, uma por cada região (NUT II), num total de 19 mil casas e 35 mil pessoas. A ideia é simular as várias fases do processo final para ver se está bem desenhado e perceber qual a adesão das pessoas às respostas pela internet, por telefone e por escrito.

“Escolhemos estas sete freguesias não pela representatividade estatística, mas para saber se, por exemplo, as que são muito urbanas têm um comportamento de resposta diferente das que são mediamente urbanas ou rurais”, explica Anabela Delgado, diretora do Gabinete para os Censos 2021 no INE. A população de uma freguesia mais rural no Alentejo responderá ao inquérito mais rapidamente do que quem vive numa freguesia mais urbana? Que público irá usar a linha telefónica? E quanto tempo em média demorará essa entrevista por telefone? Só depois de responder a estas perguntas é que o INE definirá quantos operadores de telefone são necessários ou quantos recenseadores deverão estar no terreno.


“Para 2021 queremos um censo digital e isso significa que temos em vista que a maioria das pessoas possa responder através da internet, em qualquer dispositivo móvel. Vamos também alterar substancialmente a organização das pessoas no terreno, com dispositivos móveis para fazer a recolha”, resume Anabela Delgado, que já no recenseamento de 2011 tinha ficado responsável pela passagem dos censos para um modelo mais digital. Usar como ponto de partida o ficheiro com todas as moradas das habitações, constituído em 2011 e atualizado entretanto, é uma das novidades que permitirão o contacto através de carta. Em simultâneo, haverá também métodos de trabalho no terreno mais modernos. “Em 2011, para saber quais os alojamentos que ainda não tinham respondido, o recenseador era notificado por SMS. Agora passará a ter uma aplicação, o e-recenseador. E assim os dispositivos móveis passam a ser a força de trabalho e deixamos de ter de distribuir um computador por cada pessoa.”

Questionário para 2021

O estado civil, o tamanho das famílias, as relações de parentesco, as profissões, mas também as características das habitações, o tipo de propriedade (dono ou arrendatário) ou os encargos com empréstimos ou renda são algumas das perguntas de um censo. Mas o questionário que vai ser feito em 2021 ainda está a ser definido. Depois da recolha interna de informação no INE, a fase atual é de consulta dos ministérios, direções-gerais, organizações sindicais ou profissionais pelo Conselho Superior de Estatística. A partir de abril, o processo estará em consulta pública no site do INE, para que cada cidadão possa dar o seu contributo.

Até ao fim de 2019 o questionário estará pronto e em 2020 haverá um inquérito-piloto, uma espécie de ensaio geral para testar a operação que irá decorrer durante sete semanas em 2021, naquele que será o 16º recenseamento feito em Portugal nos últimos 154 anos.

Quantas pessoas residem no país, em que locais, como mudou a população, quantos deixaram o país e quantos regressaram, quais os níveis de analfabetismo e de escolaridade, quais os movimentos diários de casa para o trabalho e os transportes usados são algumas das informações-chave que um recenseamento pode garantir com pormenor. E é precisamente o pormenor geográfico que atribui um valor único a um censo, retratando a realidade ao nível do concelho, freguesia e quarteirão.

São estes os dados oficiais que, de dez em dez anos, permitem rever as características e as necessidades da população em áreas como as escolas, hospitais, habitação ou transportes, centrais na definição e acerto de políticas públicas. Além disso, é também com esta informação que se consegue traçar um retrato do que mudou em Portugal no último século e meio.