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Descodificador: Interstício: o 29º órgão?

d.r.

Inovador equipamento de endoscopia revelou que o espaço entre células e vasos sanguíneos é mais do que um suporte. Se tiver ‘vida’ própria, poderá ser eleito como órgão humano

Há um novo órgão no corpo humano?

Poderá vir a existir, mas por agora não há nenhuma novidade na constituição humana. O interstício é conhecido há muito pela Medicina como o ‘terceiro espaço’, aquele que existe além dos espaços ocupados pelas células e pelos vasos sanguíneos. Para ser considerado um órgão, o interstício tem de ter uma estrutura física própria, unicidade e funções concretas só por si asseguradas, isto é, que não são desempenhadas também por outros órgãos. Estas características têm de ser dadas como provadas e reconhecidas entre a comunidade científica e para tal há um longo caminho a percorrer. É preciso saber, por exemplo, qual é a composição química do interstício, as características físicas que possui ou as substâncias químicas que produz.

O que é o interstício e para que serve?

Numa definição gráfica, “o interstício é onde tudo está mergulhado”, explica António Gonçalves Ferreira, diretor do Instituto de Anatomia da Faculdade de Medicina de Lisboa. “Trata-se de uma espécie de suporte meio espesso, porque é maioritariamente constituído por água, que dá consistência aos tecidos; preenche o espaço que fica entre as células e os vasos” sanguíneos. Um inovador endoscópio (equipamento que permite olhar para dentro do corpo) veio revelar que o interstício é também uma estrada que coloca fluído em circulação por todo o organismo. Segundo a edição desta semana da revista “Scientific Reports”, o fluido foi visto nos tecidos por baixo da pele, no revestimento dos órgãos viscerais e dos pulmões e a rodear as artérias e as veias, por exemplo.

Afinal quantos órgãos tem o corpo humano?

O corpo humano tem dezenas de órgãos e o número varia com o nível de análise. Podem ser considerados 28 ou 39 órgãos principais numa análise superficial ou mais de 200 quando a contagem é feita com detalhe. “Os órgãos do corpo humano são inúmeros, distribuídos por sistemas e variam em número. Por exemplo, cada vértebra é um órgão e não toda a coluna vertebral”, explica o catedrático de anatomia da Faculdade de Medicina de Lisboa, António Gonçalves Ferreira. Um grupo de órgãos constitui um sistema e, comummente, são referidos 11. Por exemplo, cardiovascular (com coração e vasos sanguíneos entre os órgãos), respiratório (nariz ou pulmões) ou a pele, cujos órgãos são a pele em si e o tecido conjuntivo, como gordura e glândulas.

Há alguma possibilidade de virem a ser definidos novos órgãos?

Sem dúvida que a Ciência virá a revelar muito mais sobre o corpo humano. Há elementos do organismo ainda com um elevado grau de desconhecimento, desde logo muitas das funções entre células num mesmo órgão. A prova de que ainda há enigmas por desvendar são os avanços feitos em 2016, com a descoberta do mesentério (um novo órgão que consiste numa membrana sobre a parede abdominal) ou no ano passado com a identificação das funções da camada adiposa no abdómen, o omento. A evolução tecnológica tem sido decisiva ao permitir desenvolver a anatomia ao nível microscópico (histologia).