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O cavalo que não conquistou Tróia

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O ardil de Ulisses para infiltrar soldados dentro das muralhas troianas e pôr termo a nove anos de cerco está descrito por Homero na “Ilíada”. Mas terá sido mesmo assim? A História moderna desconfia

A primeira coisa sobre a qual não há uma certeza absoluta é em que data terá ocorrido o cerco de Tróia, romanceado por Homero na Ilíada. Eventualmente por volta de 1200 a.C. Quanto ao famoso cavalo de madeira, diz-se que era tão grande que as muralhas tiveram que ser parcialmente demolidas para poder entrar. Lá dentro escondiam-se guerreiros gregos e os troianos não desconfiaram de um estratagema até ser tarde demais.

Como em muitas narrativas do mundo antigo pode haver aqui mais simbolismo que descrição factual. “É plausível que o famoso Cavalo de Tróia simbolizasse as máquinas de cerco que atacaram as muralhas da cidade”, disse José Varandas, docente da Faculdade de Letras de Lisboa falando na segunda sessão do curso livre Grandes Cercos do Mundo Antigo. Esta iniciativa do Centro de História da Universidade de Lisboa decorre naquela faculdade todas as quartas-feiras até 2 de Maio (excepção feita aos feriados da Sexta Feira Santa e 25 de Abril). É uma iniciativa que o Expresso tem acompanhado, à semelhança dos anos anteriores, sob o lema “A Guerra às Quartas”.

É certo, disse o conferencista, que tanto os gregos micénicos como os troianos hititas adoravam divindades associadas aos cavalos. Mas levar para dentro da cidade uma representação sagrada não quadra com os costumes da época, à luz dos quais era mais lógico queimar ritualmente as oferendas aos deuses, ainda por cima feitas em madeira…

Apesar de a Ilíada e a Odisseia (descrevendo respectivamente o cerco de Tróia e o aventuroso regresso de Ulisses a casa) fazerem parte do património cultural da humanidade é muito mais o que não sabemos do que aquilo que sabemos quando se trata de Tróia.

Ou seja, como disse José Varandas, “há literatura a mais e arqueologia a menos”. As escavações, iniciadas em 1870 pelo arqueólogo alemão Heinrich Schliemann, perto de Çanakkale na costa da Ásia Menor, prosseguiram no século passado (décadas de 30 e de 80). Trouxeram mais perguntas que respostas e assim poderá continuar a ser, pois na Turquia de Erdogan a presença de arqueólogos ocidentais passou, nestes últimos tempos, a ser mais difícil.

Nove cidades sucessivas

As escavações puseram em relevo que não houve uma Tróia mas nove, tantas são as ocupações distintas de que se encontraram vestígios. Algumas acabaram tragicamente pois estão separadas por camadas completas de cinzas, sugerindo incêndios totais.

Provavelmente será entre o 7º e o 9º nível que estarão os vestígios da Tróia homérica, talvez tão antiga como o império egípcio. Durante séculos houve luta entre os poderes da Grécia e da Ásia Menor pelo controlo do Mar Egeu e do Mediterrâneo até ao Egipto, incluindo o comércio do cobre e do estanho indispensáveis para fabricar o bronze do armamento defensivo e ofensivo. “É essa luta prolongada que pode estar simbolizada na narrativa da Ilíada”, explicou o conferencista.

Mesmo os nove anos de cerco referidos por Homero podem não ser tomados em sentido literal. José Varandas admite que durante o rigoroso Inverno da região e a época das tempestades marítimas a presença dos sitiantes fosse menor ou nula, para ser novamente retomada com o bom tempo.

De resto, um cerco de anos implicaria obras de circunvalação da praça sitiada (na linha do que mais tarde César faria em Alésia para impedir sortidas, chegadas de reforços ou reabastecimentos) das quais nunca foram encontrados vestígios. Para além disso as más condições de higiene só por milagre não favoreceriam epidemias no acampamento dos sitiantes, coisa que aconteceu em 1915 quando os britânicos e franceses desembarcaram não muito em Galipoli mas de que não há referência na Ilíada. E já agora donde viria a água para o acampamento grego na praia? E que fizeram os gregos com os seus barcos? Encalharam-nos na praia como sugere o filme de Wolfgang Petersen estreado em 2004? Mas então com que meios os reporiam a flutuar?

Perguntas sem resposta

Não são estas as únicas perguntas incómodas sobre Tróia.

Se a cidade era uma potência comercial tinha que ter frota, tanto de comércio como de guerra. Então por que razão não há descrições de essa força naval ter tentado atacar a força de desembarque ou perturbado as linhas de abastecimento desta?

E que dizer das cidades vizinhas, algumas mais poderosas que Tróia, como Sarissa? Será que viam com bons olhos a chegada do inimigo micénico disputando as rotas comerciais aos herdeiros do poder hitita? Porque não intervieram militarmente estando a poucas dezenas de quilómetros?

Parte da resposta pode estar no que a Ilíada não nos conta, ou seja o que se passou durante as longas ausências de Ulisses no acampamento grego, onde chegava sempre providencialmente para atenuar tensões entre reis e cabos de guerra. Como estratega e marinheiro, andaria a combater a frota inimiga? A comandar incursões nos campos de cultura à volta de Tróia, dificultando o abastecimento e a chegada de reforços?

Uma coisa é certa: olhar para a Guerra de Tróia com os olhos de hoje só pode levar a equívocos. O caso mais evidente é o dos historiadores britânicos do séc. XIX que liam a Ilíada à luz da sublevação grega contra os otomanos que empolgara Lorde Byron. Quando não no quadro do antagonismo entre dois impérios: o decadente poder otomano e a potência naval britânica no apogeu.

Daí que Tróia, de resto como a batalha das Termópilas entre espartanos e persas, fosse vista como um confronto entre os gregos clássicos, precursores da civilização ocidental e os bárbaros asiáticos associados ao despotismo.

Um cavalo mecânico

A ideia do Cavalo de Tróia como símbolo da utilização de máquinas de cerco que enfraquecem e em última análise permitem transpor as muralhas é aliciante mas carece de prova experimental que só a arqueologia poderá vir a fornecer.

Se as torres com rodas, as catapultas, os aríetes e outras máquinas feitas em madeira dificilmente podiam ter deixado vestígios que chegassem aos nossos dias, podem, apesar de tudo, ter deixado sinais indirectos da sua presença. Seria o caso de projécteis em pedra com dimensões padronizadas que, a serem encontrados como sucedeu noutros locais de cerco do mundo antigo, militariam a favor desta hipótese. Para já uma única coisa apareceu nas escavações: pontas de flecha e muitas…