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Sociedade

“Só seremos competitivos com uma transformação digital”

rui duarte silva

Sebastião Feyo Azevedo, reitor da Universidade do Porto

Dirige a mais procurada universidade do país, cujo 107º aniversário foi assinalado esta quinta-feira. Com 32 mil estudantes, dos quais 4400 são estrangeiros, oriundos de 130 nacionalidades, a Universidade do Porto é onde estão a maioria dos cursos (35) com as mais elevadas médias de acesso ao ensino superior. Produz 25% dos artigos científicos portugueses publicados internacionalmente e está entre as 100 melhores do mundo nas áreas de Arquitetura, Ciências do Desporto, Engenharia Civil e Engenharia Química. A transformação digital da UP é o grande desafio para os próximos tempos de Sebastião Feyo Azevedo.

Como concilia a ideia de uma Universidade que procura estar na vanguarda com o espetáculo das praxes, algumas violentas?
A questão das praxes tem a ver com alguma componente cultural e uma visão permissiva do país. É um problema, mas temos de relativizar. Noutros países também acontecem situações anacrónicas de manifestações absolutamente excessivas. Temos de lutar muito para alterar.

A produção científica da UP continuará centrada em pouco mais que Engenharia ou o I3S?
Tem havido um avanço tremendo. A área mais relevante da Universidade nos nossos tempos é a transformação digital. É uma necessidade absoluta se queremos ser competitivos no mundo.

A UP é a mais procurada por estudantes estrangeiros. As faculdades estão preparadas para acomodar esta diversidade cultural?
Estão a preparar-se. Em todas as áreas os indicadores são os melhores de sempre. O ano passado tivemos 4420 estudantes estrangeiros, que representaram 14% do total, mas na Holanda essa média é de 50%. Estamos a melhorar a nossa oferta de formação.

A língua portuguesa é valorizada na relação com esses alunos?
Há uns vinte anos, a maioria dos que falavam de internacionalização desvalorizavam a questão da língua. Hoje há a perceção de que há espaço para a língua portuguesa, desde logo com os mais de 250 milhões de falantes. Mas também por razões de estratégia.

Concorda com a hipótese de os institutos politécnicos proporcionarem doutoramentos?
Não sou um entusiasta dessa opção. Os politécnicos têm a ver com o modelo binário do nosso sistema. Devemos dar aos nossos jovens uma oferta diversificada de formação, de modo a que vá de encontro às apetências e às competências, num sistema de vasos comunicantes. Preocupa-me que se dispersem recursos.

Tem sentido a diminuição de alunos em Lisboa e Porto para os canalizar para o interior?
A proposta divide o Conselho de Reitores. Não resolve os problemas que sugere resolver e vai criar dificuldades desnecessárias.

Diminuição de receitas?
Não só. Temos um corpo docente que tem custos e determinada estrutura, mas o mais importante nem é isso. É antes o falharem outras medidas importante para o território. As universidades do Norte estão a fazer um esforço modular de articulação de todas as áreas para pôr no campo projetos integrados de grande dimensão que promovam a ligação às empresas e ao território. Fizemos sete projetos, mas, por razões políticas, foi tudo por água abaixo.

A UP está a captar relevantes projetos de investigação?
Penso que está. Sozinha ou em conjunto. A UP é a instituição portuguesa com o maior número de pedidos de registo de patentes na Europa. Temos 245 patentes nacionais e internacionais ativas. Temos o projeto da biodiversidade, e temos capacidade de captação de projetos de grande dimensão na área da energia.

Muitos desses projetos são desenvolvidos com investigadores em situação precária...
É um problema delicado, mas tem havido uma exploração, até ideológica, excessiva. Há várias áreas de atividade em que é normal existirem contratos a termo certo. No pós-doc prefiro que haja contratos, em vez de bolsas. As pessoas são profissionais e devem ter os seus direitos de segurança social e outros. Mas não é possível estar a contratar pessoas permanentes sempre que há um projeto novo. Isso não existe em lado nenhum.

O reitor engenheiro

Há quatro anos, em junho, mês do seu aniversário, foi eleito 18º reitor da Universidade do Porto. Nascido nesta cidade em 1951, trabalhou numa área tão sensível como a da Inteligência Artificial. Licenciado em Engenharia Química pela Faculdade de Engenharia do Porto, da qual foi diretor a partir de 2010, doutorou-se pela Universidade do País de Gales. Com inúmeros trabalhos académicos publicados, foi investigador da Unidade de Investigação do Laboratório de Engenharia de Processos, Ambiente, Biotecnologias e Energia.