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Concertos ao vivo: Lisboa tem os bilhetes mais baratos da Europa

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Os bilhetes de concertos em Portugal são os mais baratos da Europa. Porquê? Reduzido poder de compra e baixos custos de produção e de promoção

Catarina Nunes

Catarina Nunes

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Jornalista

Os olhos do mundo — e agora também os ouvidos — estão virados para Lisboa. Esta é a cidade europeia onde se paga menos por um bilhete para um concerto de música ao vivo. A subida de Sam Smith ao palco do Altice Arena, a 18 de maio, por exemplo, é a mais barata de toda a digressão europeia do cantor britânico: 61 euros. O preço médio dos bilhetes na Europa ronda os 73 euros. O poder de compra mais baixo, bem como os custos reduzidos de produção e promoção, permitem fazer de Portugal o país dos concertos baratos.

Das 14 digressões analisadas pelo Wanderu, site norte-americano de comparação de preços de autocarro e de comboio, apenas quatro vão passar em Portugal em 2018: a “Experience + Innocence Tour”, dos U2 (16 e 17 de setembro), a “El Dorado World Tour”, de Shakira (28 de junho), a “The Thrill of it All Tour”, de Sam Smith (18 de maio), e a “Freedom Child Tour”, dos The Script, cujo concerto na próxima sexta-feira, dia 23 de março, é o segundo mais barato (45 euros) de toda a tournée do trio irlandês, cuja média de preço se situa nos 58 euros.

“Para algumas das digressões (3) que passam por Lisboa, há uma outra cidade em que os bilhetes custam menos dinheiro. Lisboa, no entanto, acaba por ser a mais barata em termos gerais porque, tendo em conta todas as outras digressões, o preço médio dos concertos noutras cidades é superior. Para cada digressão com paragem em Lisboa, mesmo quando a cidade não tem o preço mais baixo, tem o segundo mais barato, com uma diferença de preço muito pequena para o mais barato”, explica Staffo Dobrev, relações públicas do Wanderu, para justificar o facto de a capital portuguesa surgir como a cidade com o preço médio por bilhete mais baixo — 80,13 euros— apesar de haver localizações com bilhetes mais baratos.

Na tabela do Wanderu, Viena é a cidade onde o preço médio por espetáculo de música ao vivo é mais elevado (112,84 euros), seguida pelas alemãs Munique e Hamburgo com preços médios muito semelhantes: 110,67 euros e 110,56 euros, respetivamente. Mais: em média os concertos em Portugal podem ser até mais de 40 por cento mais baratos do que na Áustria.

Entre as 14 digressões incluídas na comparação, que andaram em 2017 na estrada ou que vão andar em 2018, a Alemanha tem três concertos com os bilhetes mais baratos: Katy Perry em Berlim por 100 euros (o preço médio é 132 euros) e Britney Spears e Kendrick Lamar em Colónia por 88 euros e 81 euros, respetivamente — o preço médio na Europa para cada um deles é de 127 euros e 103 euros.

“Estes são os preços para os melhores lugares disponíveis nas localizações de admissão geral. Não incluímos os pacotes especiais para fãs ou bilhetes em pré-venda”, avança Staffo Dobrev para explicar a metodologia seguida na análise.

Este estudo foi feito na sequência da comparação que o site sedeado em Boston fez entre os preços dos concertos nos Estados Unidos da América, para concluir que Grand Rapids, no Michigan, é onde os concertos têm o preço mais barato, 73,09 (59 euros) dólares em média. Na posição oposta, Los Angeles é a cidade norte-americana mais cara de todas (127,57 dólares / 103 euros), seguida de perto por Las Vegas (123,94 dólares / 99 euros).

A conclusão foi que nos Estados Unidos se pode pagar até mais (ou menos) 75 por cento por bilhete, o que explica as enormes assimetrias económicas entre os vários estados. A metodologia seguida em ambos os continentes não foi muito diferente. Foram analisados os preços dos concertos das principais tournées (13 nos Estados Unidos e 14 na Europa), em cada uma das cidades por onde passaram e que subiram aos palcos de arenas de grande dimensão ou em estádios com capacidade para mais de 10 mil pessoas. Um critério que justifica o facto de os concertos incluídos em Portugal estarem todos agendados para o Altice Arena.

Preços em Portugal vão subir

Se uma das leis básicas da economia (a de que os preços sobem quando aumenta a procura de um produto ou serviço) se confirmar nas digressões das grandes bandas e artistas internacionais, os preços baixos em Lisboa têm os dias contados. É essa a perceção de Roberta Medina, vice-presidente-executiva do Rock in Rio, que considera que os bilhetes vão ficar mais caros com o crescimento do número de pessoas a escolher Lisboa em detrimento de outras cidades europeias. Os atuais preços baixos em Lisboa são a realidade do sector. “A verdade é que, em Portugal, no momento de contratar os artistas estamos a concorrer com os outros países da Europa, que têm um maior poder aquisitivo e, por isso, vendem bilhetes mais caros”, refere Roberta Medina.

A análise da Wanderu exclui os concertos integrados em festivais de música, o que em Portugal deixa de parte as apresentações de artistas que estarão no Nos Alive ou no Rock in Rio, por exemplo, dois dos maiores. Roberta Medina, vice-presidente do festival de música que nasceu no Rio de Janeiro, considera que não há diferença no impacto ou na relevância entre os concertos isolados em tournées e os que estão integrados em festivais. “São produtos diferentes e há espaço para todo o tipo de propostas, concertos grandes, concertos intimistas, festivais mainstream, festivais de nicho ou outros”, sustenta Roberta Medina.

Contactado pelo Expresso, Álvaro Covões, responsável da Everything is New, não respondeu até à hora de fecho da edição.