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Uma solidão maior que o mundo

A única exigência de Bruno, que conta a sua história neste artigo e que recebeu uma das mais altas indemnizações devidos aos fogos trágicos do ano passado, foi que a sua imagem não fosse divulgada

Foto Ana Baião

O fogo de 15 de outubro matou 48 pessoas. Destas, duas eram os pais de Bruno. Recebeu de indemnização 80 mil euros pela morte do pai. Mais 80 mil pela morte da mãe. Deram-lhe 70 mil pelo sofrimento do pai antes de morrer e mais 70 mil euros pela dor da mãe ao ver a morte chegar. É dos valores mais altos que o Estado vai pagar. Mas o dinheiro não lhe resolve o que lhe aconteceu - toda a família que tinha morreu-lhe ali. Bruno é um homem indemnizado mas sozinho

Uma pessoa sozinha, tão sozinha que recebeu um das mais altas indemnizações do Estado pela perda de familiares dos grandes incêndios de 2017. Questionada por valores, a provedora de Justiça, a quem coube atribuir os montantes das indemnizações, anunciou esta semana em conferência de imprensa que a mais alta tinha rondado os 300 mil euros. Explicou que por cada morte decidiu entregar 80 mil euros aos herdeiros e que fixou em 70 mil euros o valor do sofrimento das vítimas mortais na antecipação do fim. Maria Lúcia Amaral não deixou de sublinhar à partida que não havia dinheiro que compensasse a perda traumática de alguém. E revelou o perfil da pessoa que recebeu um destas mais altas indemnizações: “Alguém que perdeu pai, mãe, e talvez outro familiar e ficou sozinho, sem mais ninguém”.

Bruno é um destes poucos casos. Uma vítima viva dos incêndios de 15 de outubro de 2017. Filho único, perdeu pai e mãe. Solteiro, sem primos, tem apenas uma tia com quem não se dá. Está sozinho. Só ele e mais ninguém. Foi-se o fogo, ficou-lhe a solidão.

Naquela noite, depois das 20h, Bruno, 34 anos, estava à janela a ver o fogo da Lousã, como quem vê a paisagem. Parecia longe, inofensivo. Não era. A casa na zona de Tábua que partilhava com os pais, José, 78 anos, e Hermínia, 67, era um porto seguro, pensavam eles. Os pais, reformados, também olhavam da janela, a mãe estava tranquila.

Os gritos dos vizinhos, assustados a dizerem que o fogo caminhava naquela direção assustou-os, tirou-os deles. E a mãe determinou: “Já que não conseguimos salvar a casa, que se salvem os carros”. E saíram, Bruno e o cão num veículo, José e Hermínia noutro. “Não se via nada, só fumo, mas o nosso medo era ficarmos em casa e morrermos ali, queimados e o instinto de sobrevivência fez-nos fugir”, conta passados cinco meses. Fala como que revê um filme, passo a passo, reproduz uma experiência que não pode ser partilhada.

No percurso para a Candosa, Bruno ia trocando mensagens com a mãe e ia vendo as mensagens saírem, pensava que ela as ia recebendo. “Mas já não sabia deles nem dava para voltar atrás.” Só podia ir em frente e foi. Quando chegou à GNR de Tábua, encontrou o presidente da Câmara, que lhe perguntou logo se estava sozinho. “Não, os meus pais vinham atrás.” Não vinham. “Mas fica sempre aquela esperança”, insiste ainda hoje.

Percebeu que ali sabiam tanto quanto ele: nada. Foi ficando até que, com uma amiga, acabou por rumar ao pavilhão multidesportivo e decidiu ligar para a única familiar que lhe resta: a irmã da mãe. Disse que não sabia dos pais e que estava preocupado. A tia e o marido, que vivem na zona de Mafra, rumaram a norte. Perto de Coimbra foram travados pelas chamas e só por volta das 06h conseguem chegar a Tábua.

A tia e o marido vão em busca de informação e descobrem o que não queriam: José e Hermínia morreram na fuga, carbonizados, depois de andarem cerca de 150 metros. Bastou uma troca de olhares, sem palavras, para Bruno perceber o que acontecera e começar a chorar uma perda que ainda não terminou. “Os meus pais morreram.”

Bruno teve de reconhecer os corpos e percebeu o que não consegue esquecer: “Os meus pais foram queimados vivos.” Os corpos não eram reconhecíveis, “apenas as coisinhas que eles tinham”. Os pequenos nadas que garantiram ao filho serem os seus pais.

Durante algum tempo, Bruno foi viver com os tios, mas, na véspera do Natal, precisamente no dia 24, a rutura anunciada acontece. “Já não éramos próximos e, depois do incêndio, eles ajudaram-me, mas a minha tia, sem filhos, não podia substituir a minha mãe. Ninguém pode e eu precisava de fazer o meu luto.”

No dia de Natal, Bruno foi ver o mar. Foi para a Figueira da Foz olhar o mar. Sempre soube que o caminho é para a frente, foi assim a 15 de outubro e continua a ser. Uma semana após a tragédia já estava no trabalho. “Era uma escapatória.”

Dava-se bem com os pais e já não vê o futuro naquela casa onde viveram. “Apoio tive, alimentar e psicológico, mas tive sempre de pedir, ninguém veio perguntar-me de que é que eu precisava.” A exceção, diz, foi o Presidente da República, a quem chegou a escrever, pedindo ajuda.

Já parou com as consultas psicológicas, mas quando vê fogo, foge: “Tenho pavor”. E, à noite, “custa muito”. No silêncio, a solidão toma conta dos espaços vazios. Ocupa tudo. “É triste. Não há dinheiro que pague uma vida. Mas as indemnizações são importantes para chamar a atenção do Estado para o que não devia ter acontecido, mas aconteceu e não se pode repetir.”
A casa onde viviam não ardeu. O cão não ardeu. O carro de Bruno não ardeu. O terreno à volta da casa não ardeu. Arderam os pais e arde ainda Bruno, que está sozinho. Indemnizado mas sozinho.

A casa está à venda. Bruno vive num apartamento em São Romão, recheado com as lembranças da vida com os pais. “Não consigo desfazer-me daqueles objetos.” Foi o que ficou, os objetos sobre os quais à noite cai a imensa solidão de Bruno. Uma solidão maior do que o mundo.